Argélia: guerreiros do deserto deixam Mundial de cabeça erguida

Argélia: guerreiros do deserto deixam Mundial de cabeça erguida

Depois de se qualificarem para os oitavos-de-final da prova, os guerreiros argelinos caíram aos pés da Alemanha, não sem antes darem tudo o que tinham. Na discussão bravia e corajosa do resultado, a Argélia provou que tem uma selecção de qualidade pronta a revitalizar o fulgor futebolístico da sua nação.

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A eliminação de ontem não belisca minimamente o rol de elogios reservados à selecção argelina, antes pelo contrário. A forma estóica, brava e corajosa como o conjunto comandado por Vahid Halilhodzic se debateu contra o exército germânico de Joachim Low foi a representação final de uma prestação mundial honrada, plena de combatividade, garra e bom futebol. Caída por terra nos oitavos-de-final do Mundial 2014, esta selecção deixou ao mundo do futebol o aviso de que, em solo argelino, a fertilidade permite augurar ambiciosos voos.

Os casos de ascensão de jogadores como Saphir Taider (joga no campeonato italiano, no Inter), Yacine Brahimi (elemento do Granada, de Espanha), Sofiane Feghouli (extremo do Valência), Nabil Bentaleb (actua no Tottenham), Faouzi Ghoulam (lateral do Nápoles) ou Aissa Mandi (joga na liga francesa, no Reims) são sintomáticos de um novo período argelino onde a técnica, a velocidade e a capacidade de desequilibrar, são trunfos incontornáveis no arsenal da Argélia. A caminho da maturidade, os «guerreiros do deserto» contam também com valores como Islam Slimani (ponta-de-lança de 26 anos, do Sporting), Soudani (antigo avançado do Vitória de Guimarães) e Halliche, central de 27 anos, da Académica.

Entrada tímida, saída de leão

A primeira partida da Argélia do Mundial do Brasil mostrou ainda uma equipa tímida, talvez respeitando em demasia a formação mais forte do grupo, a Bélgica de Marc Wilmots. Apesar de ter marcado, por intermédio de Feghouli, a Argélia sofreu com a superioridade belga, acabando por perder por 2-1. Mas ao segundo jogo, a veia raçuda dos «guerreiros do deserto» pulsou mais forte: goleada afirmativa sobre a Coreia do Sul, 4-2 com golos de Slimani, Halliche, Djabou e Brahimi. A partir daí, a formação argelina mostrou as suas garras.

Na última partida da fase de grupos, a Argélia travou a Rússia, empatando 1-1 com novo golo de Slimani. Com quatro pontos acumulados, Halilhodzic e os seus pupilos avançaram até aos oitavos-de-final, algo que nunca tinha acontecido na História da selecção argelina. Ao fim de quatro Mundiais (1982, 1986, 2010 e 2014) a Argélia fez História, chegando ao lote dos dezasseis países mais fortes do planeta. Contra a Alemanha, a pressão era diminuta e o favoritismo germânico deu largas à coragem argelina. Jogando com raça e sem medo, estiveram perto de fazer tombar a poderosa Mannschaft.

Ataque feroz liga velocidade com assertividade

Sem deixar de elogiar a competência defensiva de jogadores como Halliche, Belkalem ou do experiente Bougherra, é no último terço do terreno que os argelinos são mais perigosos. Os perigos são criados pela veloz vertigem ofensiva de jogadores como Brahimi, Feghouli ou Taider, todos eles capazes de apresentar um nível técnico elevado. O jogador de 24 anos do Granada percorre toda a zona ofensiva, carregando a bola com velocidade, oscilando, do meio para as alas e vice-versa, arrastando marcações, fintando adversários e abrindo espaços na defensiva contrária.

À semelhança de Brahimi, Feghouli, extremo de 24 anos, também é uma autêntica seta disparada através dos corredores, principalmente o direito. O jogador do Valência é lesto nas arrancadas, forte no duelo individual e um assistente competente que não se esconde na hora de marcar golos. Quando liga o turbo, o extremo obriga os adversários a descompensarem-se, gerando pânico na área com cruzamentos ou com investidas para o interior do perímetro de rigor. Para tirar proveito da pertinência das transições ofensivas rápidas, Halilhodzic dispõe de avançados de porte físico considerável, como Slimani ou Soudani.

Slimani, forte no jogo aéreo, dá a dimensão física que falta ao ataque móvel da Argélia, emprestando poder de choque resistência. Ainda assim, não é possível camuflar, a espaços, uma certa desconexão entre a velocidade de acção da zona média e a parte mais avançada do ataque - nos lances de contra-ataque puro, Slimani nem sempre complementa com rapidez e mobilidade as investidas vertiginosas de Brahimi, Feghouli ou Djabou. Mesmo assim, a utilidade do avançado do Sporting ficou comprovada com os dois golos apontados.

M'Bolhi passeou reflexos e tranquilidade

Autor de uma das melhores defesas deste Mundial 2014 (estirada espectacular a impedir o golo germânico), Rais M'Bolhi, guarda-redes de 28 anos, foi uma das estrelas desta selecção argelina. Seguro e atento, o guardião do CSKA Sofia brilhou na partida contra a Alemanha, fazendo um punhado de defesas que adiaram o golo alemão. «Caímos frente a uma equipa da Alemanha muito, muito difícil. Ficámos desiludidos em todo o caso, sentimos que podíamos ter passado, mesmo tendo consciência que defrontámos uma grande equipa. Entrámos na mesma na história do futebol argelino», afirmou no rescaldo da eliminação de ontem.

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