Indefinição na baliza encarnada
Guarda-redes titular é ainda uma incógnita na Luz

Indefinição na baliza encarnada

A poucos dias do início das competições oficiais para o Benfica, a dúvida na baliza ainda paira no ar.

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Francisco Fontes

A 8 dias da Supertaça Cândido de Oliveira, frente ao Rio Ave, a dúvida na baliza Benfiquista ainda paira. Depois da saída de Jan Oblak, para o Atlético de Madrid, por 16 Milhões de Euros, muitos são aqueles que estão preocupados com a baliza Encarnada.

A herança de Oblak

O jovem esloveno, que no ano passado esteve na rota da saída da Luz, acabou por se afirmar em Dezembro, depois de uma lesão sofrida por Artur Moraes, frente ao Vitória de Setúbal. A partir daí, não mais Oblak saiu da baliza do Benfica em jogos de maior importância, tendo Artur ficado com um papel secundário no plantel das Águias.

A chegada de Oblak à titularidade coincidiu com o melhor desempenho da defesa do Benfica na temporada. Em 28 jogos pelo Benfica, Oblak apenas sofreu 8 golos, sendo que em 16 jogos para o campeonato, o esloveno apenas deixou entrar a bola na baliza das Águias por 5 vezes. Claro está que o mérito não é só de Oblak. A defesa do Benfica elevou o seu jogo e Siqueira, Garay, Luisão e Maxi formaram uma autêntica muralha, comandada por Jan Oblak. 

Mais impressionante é o facto de Benfica não ter perdido nenhum jogo com Oblak na baliza, no tempo regulamentar. A única derrota do Benfica, com Oblak a titular, veio a acontecer frente ao Sevilha, na final da Liga Europa. Nesse jogo, apesar das redes do Benfica terem ficado invioladas nos 120 minutos, o clube da Luz acabou por sucumbir nos pénaltis.

Oblak destacou-se na Luz por diversas razões. Era um guarda-redes completo, que já não se via na Luz desde os tempos do falecido Robert Enke. Com bons reflexos, muito rápido na tomada de decisão, muito forte entre os postes e nas saídas, o Esloveno combinava tudo aquilo que se procurava para a baliza encarnada. Ainda, o guarda-redes sentia-se confortável a actuar como Guarda-Redes adiantado, uma espécie de líbero, que Jorge Jesus tanto gosta. Apesar de o seu jogo de pés não ser fenomenal, era claramente superior ao do seu antecessor Artur Moraes. A baliza encarnada parecia ter dono por largas épocas e o próprio jogador, considerado o melhor Guarda-Redes da Liga Zon Sagres em 2013/2014, chegou a fazer juras de amor eterno ao clube da Luz, para depois acabar por sair, de forma algo atribulada, para o Atlético de Madrid.

Oblak acabou por rumar a Madrid, num processo com bastante polémica à mistura. (Fonte: Reuters)
Oblak acabou por rumar a Madrid, num processo com bastante polémica à mistura. (Fonte: Reuters)

Ida ao mercado falhada 

Com a partida de Oblak, a direcção do Benfica partiu imediatamente à procura de sucessor, por enteder que Artur Moraes não tinha condições para fazer a temporada que o Benfica precisa.

Muitos nomes foram falados para a baliza encarnada. Os rumores apontavam para guarda-redes que se tinham exibido em grande no Mundial do Brasil. Keylor Navas, Costa Riquenho, foi muito falado mas apenas não passaram de palavras e o fantástico Guarda-Redes poderá estar a caminho do Real Madrid. Esta seria uma opção com retorno quase garantido. O Costa-Riquenho de 27 anos é um verdadeiro "shot stopper", defendedo muitos remates, tanto de longe, como de perto, graças aos seus reflexos. Mas para um clube como o Benfica, não chega saber defenser remates, é preciso sim alguém que esteja concentrado os 90 minutos e que leia muito bem o jogo.

À excepção dos jogos contra os Grandes e para as competições Europeias, os Guarda-Redes do Benfica apenas serão testados por 2/3 vezes e é aqui que se vêm os grandes jogadores. Ora, Keylor Navas demonstra ter essas capacidades de concentração e leitura de jogo tão importantes para um Guarda-Redes que joga mais adiantado no campo, como é o caso de Benfica. No entanto, a direcção do Benfica optou por não intensificar as suas atenções num dos melhores guarda-redes de La Liga dos últimos dois anos e virou as suas atenções para um Sul-Americano.

Keylor Navas esteve nos radares da Luz. (Fonte: Reuters)
Keylor Navas esteve nos radares da Luz. (Fonte: Reuters)

Romero, vice-campeão do Mundo pela Argentina, foi então identificado como sucessor de Oblak. Sergio Romero esteve em evidência no Mundial. O Guarda-Redes de 27 anos foi um dos menos batidos do Mundial, tendo apenas sido batido por 4 vezes em toda a competição, sendo que 3 desses golos aconteceram durante a fase de grupos, frente à Nigéria e ao Irão. Apesar do enorme Mundial que fez e que lhe valeu a atenção de grandes clubes Europeus, a verdade é que por aquilo que tinha vindo a fazer nos clubes por onde passou, Romero não parece ser uma solução melhor que Artur para a baliza do Benfica. 

Como já referimos para a análise a Navas, Romero é um "shot-stopper". Dotado de uns bons reflexos, o guarda-redes é bastante competente entre os postes e efectua diversas defesas de elevado grau de dificuldade. No entanto, acreditamos que do ponto de vista psicológico e mental, o guarda-redes deixa muito a desejar. Romero muitas vezes decide mal, nomeadamente na saída dos postes. Estas más decisões já levaram Romero a comprometer diversos jogos, tanto na Selecção como no AZ ou na Sampdoria.

Por outro lado, Romero não consegue ganhar a Artur num dos seus pontos fracos, o jogo com os pés. Aliás, Sabella foi muito criticado, antes do início do Mundial, por confiar a baliza a um jogador que na época 2013/2014, apenas efectuou 2 jogos na Ligue 1 pelo Monaco. A verdade é que Sabella teve razão e a sua aposta foi ganha, tendo Romero sido nomeado para a Luva de Ouro do Mundial 2014. O Argentino esteve a um passo de assinar pelo clube da Luz mas as suas exigências salariais terão afastado o Benfica do seu concurso.

 

Depois de falhada a contratação de Romero, surgem rumores de que o Benfica estaria interessado em Thomas Kaminski, jovem de 21 anos do Anderlecht. A verdade é que a oito dias da Supertaça, o Benfica apenas pode contar com Artur Moraes.

Solução Interna

Apesar de ter no seu plantel o jovem Bruno Varela e Paulo Lopes, não acreditamos que nenhum dos dois possa ser solução a longo prazo para um clube que quer renovar o título de Campeão e quebrar a hegemonia do Futebol Clube do Porto em Portugal. O primeiro, apesar de ser jovem e ter alguma margem de progressão, não parece ser capaz de explodir e atingir o nível exigido para uma equipa de topo. Apesar de ter bons atributos técnicos para um guarda-redes, o jogador ainda decide mal a abordagem a diversos lances e não tem na saída dos postes um ponto forte.

Já Paulo Lopes, o "Pepe Reina de Santa-Maria da Feira", é um elemento mais importante no balneário do que dentro do relvado. Apesar de ser dos três guarda-redes do Benfica aquele que tem um melhor jogo de pés, o Guarda-Redes já está na fase mais descendente da carreira e já acusa a idade. Já não é tão rápido a ler o jogo, os seus reflexos estão mais lentos e não dá garantias suficientes para ocupar a baliza encarnada.

Sobra então Artur Moraes, guarda-redes de 33 anos que inicia a sua quarta temporada no Benfica.  O brasileiro, que iniciou a sua aventura em Lisboa com estatuto de titular indiscutível foi perdendo fulgor à medida que as temporadas passavam. 

Em 2011/2012, o Guarda-Redes foi uma das figuras dos Encarnados, tendo sido imprescindível para asseguras diversas vitórias. Depois de uma temporada magnífica, parecia que o fantasma de Roberto Jímenez tinha desaparecido de vez, tendo inclusive os adeptos dado a alcunha de "Rei Artur" ao Brasileiro. 

A época de 2012/2013 perfilava-se igualmente bem sucedida para Artur Moraes. O guardião exibiu-se em bom plano durante grande parte da temporada mas na recta final da época, o Iceman começou a falhar em lances cruciais. Em jogo a contar para a 28ª jornada, frente ao Estoril de Marco Silva, Artur ficou mal na fotografia no golo de Jefferson, que muitos dizem ter sido o golo que tirou o campeonato ao Benfica. Semanas mais tarde, na final da Taça de Portugal no Jamor, frente ao Vitória de Guimarães, o Benfica liderava o marcador por 1-0 quando dois erros clamorosos de Artur deitaram tudo a perder.

 

A contestação ao Brasileiro começou a subir de tom, com muitos a exigirem, para 2013/2014, a contratação de um novo Guarda-Redes ou a entrada de Oblak no 11. A verdade é que Jesus foi resistindo à pressão e apenas abdicou do Brasileiro quando este se lesionou, em Dezembro.

No entanto, com a saída de Oblak da Luz, parece que o Iceman é a única opção viável para a baliza do Benfica, para a temporada que se avizinha. 

Todos os adeptos do futebol Português já perceberam que Artur Moraes tem bons reflexos e que consegue parar muitos remates, mesmo que muitas vezes eles sejam feitos "à queima roupa". Quanto está em forma e concentrado, é quase imbatível, como mostrou em 2011/2012. No entanto, esses tempos parecem já bem longe na mente dos Benfiquista. A dúvida quanto às capacidades de Artur em assumir de novo a titularidade prendem-se mais com outros aspectos.

É inegável que o jogo de pés de Artur é fraco. O Brasileiro parece sentir grandes dificuldades quando a defesa lhe passa a bola e normalmente, as jogadas que saem dos pés de Artur não têm seguimento e são imediatamente enviadas para fora das quatro linhas. Em termos práticos, isto prejudica o jogo do Benfica, que gosta de jogar com um guarda-redes mais avançado e que ofereça linhas de passe, permitindo que os centrais abram nas linhas, que os laterais subam e que o médio mais recuado venha buscar jogo ao Guarda-Redes. Artur não tem esta capacidade de jogar com os pés, o que limita a saída de bola do Benfica. Por outro lado, os defesas, sabendo da deficiência de Artur com os pés, preferem não lhe entregar a bola, aliviando directamente para fora. 

Artur foi do 8 ao 80, de herói a vilão. (Fonte: Getty Images)
Artur foi do 8 ao 80, de herói a vilão. (Fonte: Getty Images)

Por outro lado, parece-nos que do ponto de vista psicológico Artur é fraco. Dá a sensação de que quando o Brasileiro comete um erro, não tem a frieza suficiente para esquecer a má prestação e se concentrar no jogo. É usual ver o Brasileiro cometer o mesmo erro vezes sem conta no mesmo jogo. Esta instabilidade emocional leva a que Artur muitas vezes hesite bastante e acabe por tomar decisões. Isto é visível nas bolas paradas ou quando o Brasileiro tem de sair dos postes. Com o medo de errar, Artur raramente toma uma decisão rápida e esclarecida, o que acaba por custar caro à equipa. Tudo isto gera uma enorme desconfiança na equipa, algo que não acontecia com Oblak, que transmitia enorme segurança aos seus companheiros de defesa.

Ainda assim, parece-nos que Artur, quando está em forma e emocionalmente estável consegue ser um Guarda-Redes de topo, que garante pontos e salva muitas vezes a sua equipa. Resta agora saber se Jorge Jesus é capaz de elevar o estado de confiança de Artur e voltar a fazer dele, como em 2011/2012, um dos melhores Guarda-Redes do campeonato Português e da Europa. Até lá, sobram muitas dúvidas e desconfiança mas a verdade é que deverá ser Artur Moraes a defender as redes do Benfica no primeiro compromisso oficial da época, dia 10 de Agosto, frente ao Rio Ave, em Aveiro.

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