Planear épocas não é o forte do Benfica de Jesus e Vieira
Jesus e Vieira voltam a falhar planeamento conciso e eficaz (Foto: Paulo Pimenta)

Planear épocas não é o forte do Benfica de Jesus e Vieira

A temporada aproxima-se do seu início e o Benfica é o rei das interrogações e das incertezas. De futuro confuso e com um plantel ainda por delinear, tanto a direcção como a equipa técnica voltam a demonstrar que o planeamento não é, de facto, a sua arma mais forte.

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Sim, é verdade que a realidade financeira do clube é fraca e o seu endividamento latente é antigo, ainda para mais num tempo em que as vacas são mais magras que nunca, devido à barafunda bancária acentuada pela crise no BES. A exposição do Benfica a essa crise é clara, mas o problema, sistémico, é, como acima descrevi, antigo e bem conhecido: os clubes portugueses estão altamente endividados e, consequentemente, expostos a qualquer «azar» que o futuro, periclitante, lhes reserve. Nem sequer poderemos dizer que fomos apanhados de surpresa: o país ainda se lembra do escândalo BPN e dos buracos no BPP e no Banif...

Reservei portanto este primeiro parágrafo para colocar a vertente financeira de lado - era função da instituição Benfica e da sua SAD automatizar um plano de gestão e um modelo estrutural que contemplasse a adaptação àquela que será, forçosamente, uma nova e dominante realidade. O Sporting, praticamente insolvente, teve de o fazer, e, mais tarde ou mais cedo, todos terão que o copiar. Se agora o dinheiro escasseia abruptamente, a culpa é encarnada. Apesar disso, o Benfica parece agora ter entrado nessa fase de reaprendizagem de gestão - corte de custos e desinvestimento. Embora sem ser anunciada, tudo indica que essa é a nova política dos encarnados.

Deixemos, pois então, as finanças de lado, por haver variáveis de gestão bem mais interessantes de se analisar, principalmente no aspecto técnico, logístico, motivacional e de planeamento desportivo. Serve este artigo para analisarmos todas as transições de época do Benfica desde a chegada de Jorge Jesus, portanto, nos últimos cinco anos. Isto para percebermos que, em todas essas transições, o plantel encarnado foi mal gerido, as saídas mal supridas, a generalidade das contratações pouco certeiras e o planeamento a médio/longo prazo muito deficiente.

2010/2011: A embaraçosa ressaca do campeão

Começava a pré-época do Benfica campeão, depois de uma temporada pujante de Jesus em 2009/2010. Jorge Jesus resolve dispensar Quim e contratar Roberto Jímenez por 8 milhões de euros, apostando todas as fichas da baliza encarnada no espanhol...que viria a revelar-se um dos maiores «flops» do Benfica: «Felizmente o presidente e o Rui Costa conseguiram trazê-lo», afirmava Jesus então, referindo-se ao 'portero' como «uma das grandes prioridades».

À saída de Ramires (pêndulo vital do Benfica campeão pela versatilidade, pulmão e capacidade táctica), Jesus responde com a contratação (empréstimo) de Salvio, um puro extremo, incapaz de desempenhar as funções defensivas do abnegado «queniano» no lado direito nem de apoiar o trinco (Javi Garcia) no miolo, como o brasileiro tão bem fazia, concedendo equilíbrio táctico às «águias». Para colmatar a ida de Di Maria chega Nico Gaitán, por 8,5 milhões: substituição feliz, talentos similares e o mesmo tempo de adaptação.

Depois do fracasso de Shaffer, Lionel Carole reforça o Benfica mas nunca chega a ser opção. Franco Jara (5,5 milhões) chega para o ataque mas revela-se inconsequente. Depois de uma pré-temporada jogada estruturada num modelo táctico, Jesus resolveu alterar o esquema para defrontar o FC Porto, na Supertaça, puxando Coentrão para extremo e colocando o lento Peixoto a defesa esquerdo e Amorim para lateral direito, já que Maxi estava indisponível e nada se fez para contratar um jogador de cobertura (Luis Filipe não entrava para as contas).

No centro da defesa, Luisão passava por dificuldades físicas e chegava ao jogo contra o rival em claríssimo défice, restando Sidnei no banco e Fábio Faria, que nunca foi opção, apesar de contratado nessa pré-época. A cobertura necessária para essa zona apenas chegou em Janeiro, com a contratação de Jardel - tarde demais. Na partida contra o Porto, Luisão realiza uma exibição débil e permissiva. Com Aimar e Carlos Martins no meio-campo, Jesus deixava Airton destapado (o único substituito natural de Javi Garcia, incapacitado na altura). O Benfica perderia por categóricos 2-0.

O desastre seguiu dentro de momentos...

O arranque desastroso de 2010/2011 prosseguia com uma derrota caseira frente à Académica, 1-2. Com Sidnei ao lado de David Luiz (e somente Roderick no plantel para cobrir esse posto), com os extremos de fora (Gaitán e Salvio) e com Peixoto e Amorim a fingirem tal papel táctico, o Benfica nem apresentava segurança táctica nem largura ou profundidade; no banco o Benfica campeão tinha, sentados, Felipe Menezes, Weldon, Jara, Roderick, Airton, Carlos Martins e Júlio César. Seguiu-se a derrota contra o Nacional, com dois erros clamorosos de Roberto, alvo de chacota total.

Salvio, apenas apresentado a 19 de Agosto de 2010 (contratações tardias revelam falta de planeamento logístico do plantel e implicam preparações defeituosas na maioria dos casos), começa tardiamente a dar o seu contributo à equipa a 28 de Agosto, na vitória sobre o Vitória de Setúbal. Sem supresa, lesiona-se aos 24 minutos e retarda ainda mais a sua adaptação. No jogo seguinte (derrota de 2-1 em Guimarães) é Carlos Martins que tapa o buraco no flanco direito, fazendo com que Jesus não tivesse repetido um onze uma única vez em 5 partidas.

Na jornada 10 o desastre tomou proporções épicas com a goleada de 5-0 imposta pelo FC Porto, onde um Benfica «adaptado», com David Luiz na lateral canhota e Sidnei ao lado de Luisão, com Kardec a titular e Saviola no banco. Com tantas mexidas e experiências, próprias de quem não planeou meticulosamente a época, o Benfica apenas viria a consolidar-se táctica e colectivamente no início de Dezembro, altura em que estabilizou o seu futebol e arrancou para 16 vitórias consecutivas - era tarde demais.

2011/2012: Saídas e entradas de peso e erros de «casting»

Defeso que viu Coentrão sair, meses depois de David Luiz ter saído também. O Benfica foi ao mercado e contratou Emerson e Capdevilla para o lugar - ambos revelaram-se autênticos fiascos: o brasileiro muito abaixo da média e o espanhol um suplente crónico que Jesus nunca quis. Garay veio para reforçar o eixo central da defesa e em boa hora, enquanto que Witsel chegava para dar classe ao meio-campo e finalmente apoiar Javi Garcia no miolo. A saída de Salvio foi colmatada pela entrada de Nolito e de Enzo, ambos reforços medíocres (Enzo inadaptou-se). 

Enquanto que Maxi continuava sem cobertura para a ala direita, Javi tinha agora Matic para o substituir caso fosse necessário; Bruno César ingressava na Luz por 6 milhões de euros mas seria outro «flop» oneroso a juntar a outros como Éder Luis, Roberto (entretanto dispensado), José Luis Fernández, Menezes, Patric ou Jara. Na baliza, nova mudança, Artur Moraes: o Benfica apresentava assim três guardiões titulares diferentes em três épocas seguidas, o que reflectiu bem a instabilidade logística inerente a um planeamento deficiente e a escolhas sem critério.

Somente com um «box-to-box» (Matic ainda era um desconhecido nas opções de Jesus) mas namorando uma táctica que sempre pediu jogadores de alta rotação e pulmão acima da média (como Ramires e Coentrão), Jesus ataca a época com vários médios ofensivos para o último terço (Aimar, Martins, Bruno César, Nolito, Gaitán, Jara) mas sem cobertura na zona defensiva do meio-campo, onde Javi, com algumas ajudas de Witsel, encabeçava a defesa. Amorim, emprestado em Janeiro de 2012 ao Braga, encurtava as opções. Matic terminava a época ainda com estatuto secundário: apenas 860 minutos na Liga (equivalente a nove jogos e meio) e 347 na Champions.

2012/2013: Saídas e adaptações no ano do «quase»

Na pré-temporada o Benfica viu as suas conjecturas iniciais irem por água abaixo com as vendas, nos últimos instantes, de Javi Garcia e de Witsel: basicamente, o meio-campo de Jesus em 2011/2012. Por não terem existido quaisquer cautelas quanto à cobertura do plantel para o miolo, Jesus foi forçado a reinventar essa zona do terreno com o único médio de características defensivas, Matic, adaptando Enzo a funções de médio central. Ao proceder desta forma (e sem mais médios no plantel para a zona defensiva do meio-campo nem para a condução da primeira fase de construção), Jesus viu-se privado de cobertura para a área intermédia do terreno - a época seria longa...

Enquanto o lado direito da defesa permanecia somente a cargo de Maxi, sem reserva à altura, o lado esquerdo, já sem Emerson, via despontar outra adaptação, uma vez que o Benfica voltou a falhar na obrigação de assegurar os préstimos de um lateral esquerdo de qualidade: Melgarejo passava de avançado a defesa lateral, Luisinho, por seu turno, não chegava para as encomendas. Logo a abrir o campeonato, Melgarejo compromete e «oferece» dois golos ao Braga (2-2) - o resto da sua temporada comprovou que mais vale precaver que...adaptar

Mesmo assim, a armada encarnada gozava de abundância de opções nas extremidades do ataque (Salvio custou 13 milhões e Ola John 8, havia ainda Gaitán) e na linha da frente, com Aimar, Cardozo, Rodrigo e Lima, tendo Saviola sido dispensado. O Benfica começa a temporada com resultados positivos (apesar da má campanha europeia na Champions) mas o esforço de uma temporada aliado a uma táctica fisicamente desgastante (4-2-4 somente apoiado em dois médios) e a um plantel curto no meio-campo (para uma equipa que joga em várias frentes...) ditaram a queda estrondosa e trágica da formação de Jesus.

2013/2014: Ano do título esteve longe de começar bem

É um facto que o Benfica se sagrou campeão, mas, verdade seja dita, a pré-temporada encarnada esteve muito longe de ser positiva. Mais: o arranque do campeonato é uma autêntica partida em falso, que, noutras temporadas, seria eficazmente punida com a preservação do avanço pontual ganho, pelo adversário, logo nas rondas iniciais. Poderá parecer despropositado mas foi real: o Benfica que se tornaria campeão esteve a 5 pontos do FC Porto no cumprimento do primeiro terço da liga. Tal facto estará bem distante de espelhar uma época bem preparada.

Além da gestão incerta do caso «Cardozo», com um pé fora e outro dentro do clube durante todo o Verão, o Benfica voltou a falhar na incumbência de planear com antecipação a consolidação do plantel: Maxi volta a não ter substituto de origem (André Almeida é outra adaptação, razoável, no máximo) e na ala esquerda repete-se a confusão - Cortez chega mas defrauda e o Benfica apenas dá conta da necessidade premente de contratar novo jogador (Siqueira) pertíssimo do fim da janela de transferências. Por um triz, os encarnados teriam mesmo que se contentar com Bruno Cortez, primeira aposta de Jesus para a posição...

A tardia chegada de Siqueira (apenas se estreia na quarta jornada) implicou, logicamente, uma adaptação mais longa e períodos de debilidade física avulsos, algo que em nada ajudou à estabilização do quarteto defensivo. Além do mais, as paupérrimas exibições de Cortez riscaram-no do mapa táctico de Jesus, ficando a ala esquerda sem substituto à altura. Fejsa reforçou o miolo (dando cobertura a Matic no plantel) mas Enzo ficou sem «duplo», ficando o Benfica de novo sem um médio transportador de bola capaz de ser um «8» que pudesse saltar do banco para deixar o argentino respirar durante a longa temporada. Só mais tarde André Gomes ganhou, a espaços, o seu próprio espaço na execução dessas tarefas, ainda que sem a velocidade e resistência de Enzo. A Amorim faltava a capacidade técnica e o poder de ruptura.

Arranque de liga aos solavancos

Indefinição no ataque (fantasma de Cardozo), tremuras no lado canhoto da defesa, pouca coordenação táctica e um lado psiquíco sombrio, motivado pelo trágico Maio de 2013, fizeram com que o Benfica começasse com o pé esquerdo o campeonato: derrota contra o Marítimo na primeira jornada (2-1), vitória à tangente em casa, frente ao Gil (2-1), empate diante do Sporting e novo empate na Luz frente ao Belenenses (1-1), com uma goleada francesa pelo meio (3-0 diante do PSG para a Liga dos Campeões).

2014/2015: Indefinição total e silêncio ensurdecedor

Chegados ao presente, vislumbramos o exemplo totalizante do ponto que aqui se pretende explorar. A temporada 2014/2015 terá tudo para ser o projecto de época menos preparado de todos, com saídas várias e muitas contratações duvidosas sem selo de qualidade mínimo. A crise bancária não desculpa tudo: é obrigação da direcção e do treinador congeminarem um planeamento antecipado, sustentável e precavido, para o futuro, onde se projectam vendas e se antecipam necessidades. O Benfica sempre soube que a obrigação de vender jogadores é fatal como o destino e acompanhará sempre os clubes endividados - resta à equipa directiva e técnica trabalharem, atempadamente, para suprirem as carências do plantel.

Foi isso que o Benfica fez? Definitivamente não. Dos 15 milhões já gastos, quais os jogadores que chegam para, inequivocamente, reforçar o onze encarnado? Talvez apenas Derley e Talisca - todos os outros parecem estar claramente abaixo dos padrões exigidos. A um dia do arranque da época, o Benfica ainda não tem guarda-redes(!) titular contratado, carece avidamente de soluções para o meio-campo (Fejsa regressa em 2015 e Enzo pode sair), padece de um enfraquecimento grave da sua zona central defensiva (César vai substituir Garay?) e todas as outras novas soluções são ainda totais incógnitas: em que condições físicas está Eliseu, o favorito para o lugar de defesa esquerdo? Candeias estará apto a integrar o plantel do campeão? Luis Felipe é realmente alternativa a Maxi? Benito tem qualidade para agarrar o lugar de lateral esquerdo? Bebé é reforço para saltar para o onze titular? Se sim, em que posição?

A um dia da Supertaça, o campeão Benfica tem mais pontos de interrogação que certezas para 2014/2015: Lisandro lópez ficará no plantel? Enzo e Gaitán sairão? Estará Artur em condições psicológicas de defender as redes contra o Rio Ave, ou Paulo Lopes avançará? Quando chegarão os reforços pedidos por Jorge Jesus (guarda-redes, médio e avançado)? Porque está tão atrasada a definição do plantel do Benfica para 2014/2015? Para que serviram as contratações de Friesenbichler, Dawidowicz, Djavan e Victor Andrade? Será que os empréstimos de Bernardo Silva e Ivan Cavaleiro se enquadram na tal política de investimento na formação que Luis Filipe Vieira tem vindo, frivolamente, a apregoar?

Demasiadas perguntas para tamanho silêncio, tão ensurdecedor quanto nervoso. Ganhe ou perca, planear épocas não é mesmo o forte deste Benfica.

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