Tempo de relembrar... Dennis Bergkamp

Tempo de relembrar... Dennis Bergkamp

Novo mês, nova rubrica no Vavel.com.pt. Mensalmente iremos trazer até aos nossos leitores o reavivar das memórias futebolísticas, e daqueles que deixaram a uma marca no mundo do futebol ao longo das suas carreiras. O primeiro craque a sair do baú é Dennis Bergkamp, o holandês que enfrentava qualquer adversário sem medos ou receios, ao invés dos aviões.

RodolfoReis
Rodolfo Reis

Dennis Nicolas Bergkamp nasceu a 10 de Maio de 1969 em Amesterdão, e como tal só poderia ter começado a dar os primeiros toques na bola no Ajax. Aos 11 anos entrou para as escolas de formação do clube, até chegar aos seniores pela mão de outra lenda holandesa, Johan Cruyff. A estreia na equipa principal aconteceu a 14 de Dezembro de 1986 frente ao Roda JC, porém o seu primeiro golo surgiu apenas no ano seguinte a 22 de Fevereiro numa goleada do Ajax ao Haarlem por 6-0. Nessa época o Ajax conquistou a já extinta Taça das Taças, ao derrotar o Leipzig na final por 1-0, com Bergkamp a ser suplente utilizado.

Bergkamp tinha um talento natural para jogar futebol e como tal a sua afirmação como titular indiscutível da equipa, foi uma mera formalidade. Em 1990 o Ajax ao cabo de cinco temporadas vencia de novo a Eredivisie, com Dennis Berkgamp a ser o melhor marcador do campeonato com 29 golos em 36 jogos partilhando essa liderança com o «baixinho» Romário, que na época alinhava no rival PSV Eindhoven. Em 1992 nova conquista europeia desta feita a Taça UEFA, numa altura em que a final se disputava a duas mãos, o seu adversário era o Torino e depois de uma igualdade 2-2 em Itália, o nulo em Amesterdão chegou para o Ajax levantar o troféu.

Breve passagem por Itália

No final da temporada de 1993, Bergkamp somava já 122 golos em 239 jogos pelo Ajax e tinha sido nomeado como o melhor jogador da liga holandesa. Ora tudo isto a juntar à sua capacidade técnica e enorme preponderância no jogo ofensivo do clube, chamou atenção dos vários colossos europeus. Decorria o verão de 1993, quando o Inter de Milão pagou ao Ajax 12 milhões de liras (19.7 milhões de euros) pelo médio ofensivo, sendo a segunda transferência mais cara do mercado italiano apenas superada pelos 13 milhões pagos pelo AC Milan ao Torino, por Lentini.

Porém a sua estadia no país transalpino esteve longe de ser pacífica. Bergkamp fez a sua estreia na Serie A a 29 de Agosto contra a Regianna, marcando o seu primeiro golo um mês depois diante da Cremonese. Só que o calcio era bem diferente do campeonato holandês e as fortes marcações feitas pelos defesas italianos e um estilo de jogo mais lento e rigoroso tacticamente, deixava Bergkamp completamente fora do seu habitat natural. A juntar a isto o holandês teve vários problemas físicos derivado do Mundial de 1994, o que o fez perder vários jogos da equipa italiana. Fora dos relvados Bergkamp foi sempre um jogador recatado, que não dava entrevistas e procurava refugiar-se em casa logo após os jogos, ora isto criou-lhe complicações com os media, que semanalmente o nomeavam para a «Pior perfomance da Semana».

Arsenal Iceman

Foi então que em 1995 o milionário Moratti, ainda hoje presidente do Inter de Milão assumiu os destinos do clube e «despachou» Bergkamp para o Arsenal numa transferência a rondar os 7.5 milhões de libras (9.5 milhões de euros). O técnico era Bruce Rioch, que deu ao jogador a possibilidade de fazer a sua estreia contra o Middlesbrough a 19 de Agosto, mas o seu primeiro golo surgiu a 23 de Setembro frente ao Southampton, bisando mesmo na partida. A temporada seguinte trouxe a chegada de Arsene Wenger ao Arsenal e com ele o «explodir» de toda a capacidade futebolística de Dennis Bergkamp. O técnico francês colocou-o a jogar atrás do ponta-de-lança Ian Wright e a dupla haveria de se tornar um sucesso e dar muitas alegrias aos adeptos londrinos. Em 1997 os gunners venciam a Liga Inglesa, muito por culpa das assistências e dos 22 golos marcados por Bergkamp, que fizeram dele o melhor marcador do clube nessa temporada, a juntar ao campeonato o Arsenal conquistou ainda a Taça de Inglaterra e a Taça da Liga Inglesa, embora o jogador holandês tenha falhado a final desta última por lesão.

Bergkamp espalhou magia no Arsenal (Foto: thefa.com)

Dennis Berkgamp tornava-se assim um ídolo em Highbury Park ganhando o cognome de Iceman, pela maneira fria como jogava em campo e controlava a bola, mas também por não expressar qualquer tipo de emoção na celebração dos golos, por mais fantásticos ou decisivos que estes fossem. Em 2000 teve o seu pior momento, ao perder a final da Taça UEFA frente ao Galatasaray por 1-4 nas grandes penalidades após o nulo durante 120 minutos. Dois anos depois Bergkamp voltou a vencer a Premier League, juntando ainda mais uma Taça de Inglaterra e a Supertaça, para além disso apontou o seu 100º golo pelo Arsenal diante do Oxford United, numa partida da Taça de Inglaterra.

O melhor estaria ainda para vir na época 2003-2004, o Arsenal conquistava mais uma vez o campeonato, mas fazia-o sem averbar qualquer derrota sendo o primeiro clube inglês a fazê-lo em mais de 100 anos de competição. Dennis Bergkamp entrava para a história do clube numa equipa onde brilhavam ainda Patrick Vieira, Robert Pires, Freddie Ljungberg e Thierry Henry. Foi então que em 2005 começaram a surgir rumores de que o Ajax queria de volta Bergkamp para que este fosse encerrar a sua carreira onde a começou, só que Arsene Wenger sabia aquilo que o médio criativo podia ainda dar ao Arsenal e criou um contracto personalizado para jogadores com mais de 30 anos, possibilitando dessa forma ao holandês continuar em Londres. Foi deste modo que a 16 de Abril de 2006 Highbury Park assistiu ao último jogo do campeonato e de Dennis Berkgamp naquele estádio. Os gunners derrotaram o West Bromwich Albion por 3-1, com Bergkamp a marcar o último golo, numa temporada onde o Arsenal seria derrotado na final da Liga dos Campeões pelo Barcelona por 2-1.

Assim se despediu Bergkamp do Arsenal (Foto: telegraph.co.uk)

Maldição dos penaltis pela selecção

Dennis Berkgamp fez a sua estreia pela Holanda a 26 de Setembro de 1990 frente à Itália. Marcou presença no Europeu de 1992, onde os holandeses caíram nas meias-finais frente à surpreendente e futura campeã Dinamarca nas grandes penalidades por 5-4. Quatro anos depois no Mundial dos Estados Unidos os holandeses apresentaram-se a um bom nível, mas nem o golo de Bergkamp conseguiu travar o Brasil, acabando por ser derrotado por 3-2 nos quartos-de-final. O Europeu de 1996 foi um autêntico pesadelo para a selecção laranja, com divergências entre jogadores e equipa técnica, a terminarem com mais uma eliminação na lotaria dos penaltis, de novo por 5-4 desta feita contra a França.

Bergkamp marcou uma geração na selecção (Foto: pt.uefa.com)

Curiosamente foi no país dos gauleses, que quatro anos mais tarde se realizou o campeonato do mundo e com Dennis Bergkamp no auge da sua carreira a levar a Holanda «às costas». Nos quartos-de-final um duelo contra a Argentina, começou favorável aos holandeses com um golo de Patrick Kluivert a dar vantagem que foi de pronto anulada por Claudio López. A partida parecia encaminhar-se para o prolongamento, quando ao minuto 89' Franck de Boer colocou o esférico a mais de 60 metros em Bergkamp, que com uma finalização brilhante deu a vitória à Holanda, que viria depois a cair nas meias-finais claro está nas grandes penalidades frente ao Brasil por 4-2.

No Europeu de 2000 Holanda e Bélgica repartiram as hostilidades e Dennis Bergkamp era de novo o líder da selecção. Mesmo sem marcar qualquer golo conseguiu levar o seu país às meias-finais, onde mais uma vez seriam derrotados nos penaltis por 3-1, frente à Italia. Após o desafio Bergkamp anunciou a sua renúncia à selecção nacional, com um total de 79 internacionalizações e 37 golos apontados.

Aerofobia

Dennis Berkgamp ganhou a alcunha de non-flying dutchman devido ao seu medo em andar de avião. Tudo isto aconteceu quando em 1994 durante o campeonato do mundo, um incidente que envolveu o avião onde seguia juntamente com a selecção, levou um jornalista a afirmar que poderia existir uma bomba no aparelho. Desde esse dia Berkgamp disse que não mais voltaria a voar, recorrendo mesmo a tratamento psicológico como o próprio afirmaria. «Eu tenho este problema e tenho de viver com ele, é algo que não consigo explicar. Não consigo voar, entro em pânico e fico paralizado». Esta situação levou a que por diversas ocasiões Berkgamp tivesse que viajar dias antes dos seus colegas, como por exemplo na final de 2000 da Taça UEFA jogada em Istambul onde foi de comboio, ou na final de 2006 da Liga dos Campeões em França, frente ao Barcelona com Bergkamp a ir de carro.

Palmarés e Actualmente

Dennis Bergkamp conquistou vários títulos ao longo de uma carreira fantástica, faltando apenas uma Liga dos Campeões e um título a nível de selecção para ser ainda mais grandiosa. Ainda assim conta no seu palmarés com um Campeonato Holandês, duas Taças da Holanda, duas Taças UEFA, uma Taça das Taças, três Ligas Inglesas, quatro Taças de Inglaterra e três Supertaças. Disputou 552 encontros e marcou 201 golos.

Após terminar a sua carreira futebolística tirou um curso de treinador em Londres. Regressou depois à Holanda para orientar as camadas jovens do Ajax, e hoje faz parte da equipa técnica principal, sendo um dos adjuntos do treinador e seu ex-colega Franck de Boer, tendo já conquistado quatro campeonatos.

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