As novas debilidades estruturais do velho Benfica de Jesus

As novas debilidades estruturais do velho Benfica de Jesus

A sexta temporada de Jorge Jesus ao leme do Benfica começou com sucesso nacional e fracasso internacional, até ao momento. Vavel analisa neste artigo as novas debilidades do Benfica 2014/2015 e traça a essência romântico-táctica da equipa de Jesus.

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Não é segredo que o Benfica de Jorge Jesus sempre foi um impulso de ataque, electrizante, veloz, como repetidas ondas de uma réplica de terramoto. Descuidado na ocupação dos espaços recuados e atroz na agressividade ofensiva (nomeadamente através da sobreposição), o Benfica foi-se mutando ao longo dos anos, como qualquer organismo vivo em qualquer processo de aprendizagem e adaptação - abandonou certos vícios, ganhou outras esquematizações, incorporou novas ideias.

Benfica 2012/2013: suicida 4-2-4 terminou mesmo em 'harakiri'

Centremo-nos nas duas últimas épocas, para afinarmos com maior precisão a lente com que focalizaremos o esqueleto do Benfica. Na temporada 2012/2013 os encarnados apresentaram, na maioria das ocasiões, um inequívoco edifício táctico em 4-2-4: Matic e Enzo no meio, repartindo entre eles, quer as tarefas defensivas quer as ofensivas; Gaitán e Salvio enquanto extremos altamente ofensivos; Cardozo e Lima na frente de ataque. Sem cooperação defensiva dos argentinos Salvio e Gaitán, distantes das tarefas de complementação organizacional no meio-campo, o Benfica exibia-se num 4-2-4 que primava pelo risco de apenas possuir um duplo pivot central obrigado a preencher defensivamente o campo, a dobrar centrais e laterais, a construir a saída de bola, a conduzir a mesma até espaços mais avançados e a sedimentar jogo interior.

Não raras as vezes, vislumbravamos Matic (supostamente, o mais defensivo dos pivots) a ganhar a linha para centrar a bola ou mesmo a penetrar pela meia-lua, finalizando uma jogada de perigo - em caso de perda de bola ou contra-ataque, com que estrutura fazia o Benfica a contenção e a pressão? Sabendo que os laterais encarnados eram extremamente ofensivos (Maxi e Melgarejo), que raramente estes eram ajudados pelos extremos e que um dos homens do miolo ficara na zona de finalização, deixando o outro a descoberto de qualquer invasão: sim, não eram raras as vezes que o Benfica, exposto, defendia os ditos lances com apenas 3 ou 4 elementos - contra equipas fracas (maioria das portuguesas) o esquema acabava por sufocar o adversário e até singrar, devido às naturais carências técnicas dos oponentes.

A verdade é que, na prova dos mihões, onde as grandes equipas marcam presença, o Benfica não foi capaz de mostrar tarimba para se manter entre os melhores, perdendo o bilhete para os oitavos-de-final para Barcelona e Celtic, num grupo razoavelmente acessível, tendo em conta o valor de Celtic e Spartak Moscovo. O posterior sucesso na Liga Europa, meritoso, escondeu, bravamente, as insuficiências estruturais de um Benfica descompensado - aí, tanto o mérito como o demérito vão direitinhos para o talento e teimosa de Jorge Jesus. Independentemente de qualquer avaliação, a crua verdade dos factos acabava por devotar o Benfica a um horrendo final de temporada.

Benfica 2013/2014: Afinações de um 4-2-4 mais sóbrio

Será difícil deslindar o que levou à mudança de visão sobre a filosofia táctica do Benfica mas houve, denotadamente, pequenas mudanças que contribuíram para sedimentar um Benfica mais sólido em termos gerais. A saída de Matic (jogador versátil capaz de defender e atacar) obrigou Jesus a preencher o posto com um jogador mais posicional e defensivo, Fejsa - a primeira mudança notada: o Benfica passou a jogar com um pivot defensivo demarcado, tremendamente posicional, jogando perto dos centrais e ajudando a circular a bola na primeira fase de construção do jogo. Dessa forma, Enzo ganhou maior liberdade, liberdade de construção e progressão.

Ou seja, o Benfica deixou de usar um duplo pivot para todas as actividades (premissa arriscada) e passou a especializar o seu meio-campo: um jogador como médio defensivo posicional e outro ligeiramente mais avançado no terreno, incumbido de ser o motor da equipa. Isso estabilizou os processos de jogo da equipa em todas as vertentes, movimentações e investidas. Esta reeducação do meio-campo (que interere com toda a estrutura) foi acompanhada doutra educação: Gaitán e Salvio passaram a trabalhar mais em prol do colectivo, fechando o meio-campo e acompanhando as deslocações dos adversários (como se exige a um 4-4-2 clássico). Outras das alterações fulcrais passou-se na frente do ataque encarnado.

Com a saída de Cardozo do onze titular, o Benfica passou a empenhar dois avançados plenos de mobilidade, velocidade, profundidade e largura de jogo. Lima e Rodrigo deram corpo a uma dupla goleadora mas, ao mesmo tempo, incansavalmente trabalhadora. Nesta última característica reside a chave: o Benfica passou a actuar com dois avançados com elevado índice de trabalho, quer a nível ofensivo quer defensivo - incumbidos de atacar mas também de povoar o meio-campo sempre que necessário, Lima e Rodrigo deram nova dinâmica colectiva ao Benfica, fazendo-o subir um patamar na dimensão mutual da experiência futebolística. Com uma gama infinitamente maior de movimentos e de desmarcações que Cardozo, os dois brasileiros ainda ajudavam a compensar o centro do terreno, subindo a pressão ao adversário e ocasionando perdas de bola em zonas fatais - contra o FC Porto, Jesus pôde desenhar, depois do 2-0, um 4-6-0 que permitiu estancar o rival e controlar as incidências a meio-campo.

Ora, não só estas mudanças alteraram para melhor a consistência do Benfica como ofereceram o ambiente ideal para novas derivações e toadas de jogo. Quer isto dizer que, com maior versatilidade na frente, o Benfica ganhou maior imprevisibilidade, sendo a panóplia de estratégias e movimentações dos jogadores mais atacantes aumentada - enquanto Rodrigo se encostava à esquerda, Gaitán furava pelo meio inesperadamente; enquanto Markovic desenhava velozes diagonais, Lima arrastava consigo os centrais e abria caminho a penetrações várias na linha recuada do oponente. Isto são apenas dois meros exemplos.

Benfica 2014/2015: resistirá este 4-2-4 aos altos voos?

Não. Pelo menos é essa a resposta que a realidade nos tem dado, a nós, analistas, críticos, adeptos. Apesar da mudança da época passada, o Benfica está ainda longe do padrão exigível para lidar com os desafios internacionais de primeira água. Apesar da nova educação táctica dos extremos, eles continuam ainda a ser isso mesmo, extremos, e não médios-ala - a proficiência defensiva é sempre medíocre e nunca boa, logo, o espaço a meio-campo nunca se concretiza num plano de quatro jogadores mas sim de apenas dois (actualmente Samaris e Enzo). Ora isso coloca-nos perante um problema quase inultrapassável no futebol internacional moderno: quantas são as formações de topo que actuam com dois médios centrais somente? Pouquíssimas, dado o primado epistemológico que releva a densidade e estabilidade do meio-campo enquanto factor essencial para o domínio do jogo e do oponente, aliado à posse de bola e inerente capacidade de gerir o ritmo e cadência da partida - algo que o Benfica não apresenta, por de facto não estar no ADN da equipa.

Como, a esta altura da época, os processos de jogo ainda não estão redefinidos tendo em conta a saída de Rodrigo (o Benfica carece ainda de uma linha ofensiva que defende como a do ano passado), as carências do 4-4-2/4-2-4 de Jesus tornam-se ainda mais claras, apesar das vitórias frente a adversários domésticos disfarçarem as falhas estruturais. Na Liga dos Campeões, porém, essas falhas são expostas sem apelo nem agravo: duas derrotas em dois jogos, cinco golos sofridos e apenas um marcado. Frente a formações alicerçadas em 4-3-3 ou 4-2-3-1, modelos cada vez mais dominantes por se alimentarem da versatilidade dos executantes, o Benfica some-se por entre a pressão e densidade do adversário. Mais: a tardia incorporação de Samaris no onze expôs ainda mais a contundência defensiva da toda a equipa e o grego levará, naturalmente, tempo a aprender toda a gama de exigências que a posição exige.

A prova da insustentabilidade do modelo de Jesus (mesmo depois de refinado) está nos números: desde 2010/2011 até aos nossos dias, o Benfica tem um baixo rácio de vitórias na Liga dos Campeões de 37%. Quando analisamos os adversários com os quais o Benfica mediu forças ao longo dessa janela temporal, verificamos que, apesar de poderosos, a grande maioria estava ao alcance do talento da formação das «águias»: Schalke 04, Hapoel Tel-Aviv, Lyon (2010/2011), Celtic, Spartak Moscovo (2012/2013, exclui-se o Barcelona), Anderlecht, Olympiakos (2013/2014, aqui excluímos o PSG), Zenit, Leverkusen (2014/2015, virá ainda o Mónaco).

Benfica e a ilusão romântico-táctica

De certa forma o Benfica tem sido refém, por vontade própria, de uma ilusão romântico-táctica que nasce na falta de competitividade na liga nacional onde está inserido e onde faz a vasta maioria dos jogos de uma temporada (30). Jogando no seu 4-2-4 adaptado e inteligente (feroz, ofensivo, ameaçador em termos atacantes, dinâmico, astuto, ao jeito de Jesus) o Benfica consegue dominar a cena nacional (a espaços, por agora) mas quando sobe o degrau da exigência, depara-se com equipas de ritmo elevado, meio-campos compactos e trabalhadores, jogadores versáteis de alta rotação e muita pressão global a cada centímetro do relvado. 

Elogio seja feito ao Benfica habitual da Liga Europa: duas finais não chegam por mera sorte se não fruto de muito trabalho táctico, muito estudo técnico e muita consolidação estrutural, tudo resultado da inteligência de Jorge Jesus. Mas a verdade volta sempre para esbarrar contra a esperança do sistema - nos jogos decisivos, contra Chelsea e Sevilha, o Benfica acabou por perder e isso também não se resume a azar. Este Benfica, por muito que jogue e domine, deixará sempre, enquanto não se defender da exposição táctica desbragada, a sensação de que algo mau poderá estar à beira de acontecer. Enquanto lidera o futebol luso, não deve viver na ilusão de que pode figurar na elite da Europa sem efectuar as mudanças que a alta competitividade do futebol moderno requer. 

A táctica actual pode garantir sucesso doméstico (ainda que esta revele dificuldades contra os grandes, vejam-se os dois Benfica 1-1 Sporting para a Liga, por exemplo) mas dificilmente dará ao Benfica a dimensão europeia que há muito é apregoada, quer pela direcção, quer pelos ambiciosos e saudosos adeptos encarnados, sedentos de um retorno aos grandes feitos de há 50 anos atrás.

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