Precoce saída do Benfica: Bom para as pernas, mau para a carteira e o prestígio
Foto original: Demotix

Precoce saída do Benfica: Bom para as pernas, mau para a carteira e o prestígio

Ao ter sido afastado das competições europeias o Benfica terá a vantagem de apresentar menor desgaste mas por outro lado vê o seu prestígio manchado e perderá importantes encaixes financeiros.

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Rafael Reis

Sem que provavelmente muito poucos o esperassem no início da temporada mesmo com a certeza de que o Grupo C da Liga dos Campeões no qual o Benfica se via inserido seria bastante exigente e disputado a pulso, os encarnados acabaram afastados não só da própria Champions como também da Liga Europa ainda no decorrer do mês de Novembro, a pior carreira europeia da passagem de Jorge Jesus até ao momento pelo clube.

Confirmada a saída da Europa depois da conjugação da derrota com o Zenit à vitória do Monaco em Leverkusen e após um início de época promissor que resultou na conquista da Supertaça, resta ao Benfica não acusar em demasia o insucesso internacional, que não sendo de todo inesperado se tratava de um cenário que os adeptos claramente dispensariam.

Deste afastamento as águias, que institucionalmente têm estado também envolvidas no Campeonato bem particular de ajudar a própria Liga de Clubes a recompor-se, dentro de campo ainda podem retirar alguns prós - o principal estará no facto de poder apontar todas as armas para a revalidação da Primeira Liga.

Para além do título nacional as restantes provas nacionais, a Taça de Portugal mas também a Taça da Liga, uma prova que, como afirmou o defesa central Jardel na época passada, «o FC Porto sempre desvalorizou enquanto nós não,» são ainda frentes a conquistar e a levar bem a sério.

Inviabiliza-se assim a possibilidade de apontar boa parte da preparação da equipa a uma eliminatória perante equipas com outros argumentos que poderiam não só afastar as águias da «Champions» como ainda desgastar ou quem sabe afastar algumas das unidades mais importantes dos encontros da Liga sem que os resultados desportivos dessa participação nos ‘oitavos’ valessem mais do que o encaixe financeiro adjacente a essa participação.

Num cenário muito negativo, uma eliminação desequilibrada, com números pesados, poderia mesmo conduzir a uma quebra de confiança perigosa tendo em conta a altura em que esta sucederia, entre os meses de Fevereiro e Março, uma altura da época em que tudo se decide e não poderá existir decréscimos motivacionais sob pena de se perderem todos os objectivos da temporada no espaço de poucas semanas.

Por exemplo, bastaria que o sorteio colocasse no caminho das águias um Real Madrid, que é liderado por um incrível Cristiano Ronaldo e semanalmente mantém no seu banco de suplentes jogadores do nível de Alvaro Arbeloa, Sami Khedira, Marcelo (que roda com Fábio Coentrão), ou Jesé Rodriguez, ou um Bayern de Munique, que conta com vários dos melhores jogadores do Mundo no momento, como Manuel Neuer e Arjen Robben, ou um Chelsea em busca de uma grande época.

Eliminação precoce trará uma vantagem de desgaste físico sobre o FC Porto, mas ainda mais sobre o Sporting

Os nomes grandes a ter em atenção seriam mais do que muitos - até um PSG que já tem o seu ‘Special One‘ Zlatan Ibrahimovic, de regresso. Qualquer um destes adversários seria complicadíssimo de transpor e fosse qual fosse o resultado seria o suficiente para que desde logo fosse notório que plantéis deste nível não podem sequer comparar-se às opções alternativas actualmente na Luz.

Sem lugar a dúvidas: ao contrário da época passada, o Benfica não possuía um plantel de Liga dos Campeões pelo que ao nível da rotação e desgaste físico acaba até por ser benéfico este afastamento precoce. Bastará constatar que na anterior temporada, que correu pelo melhor com a chegada a três finais, uma delas europeia, a equipa terminou absolutamente desgastada - como seria este ano, com menos opções de qualidade à disposição?

Com menos encontros pela frente, os campeões em titulo poderão manter a lucidez que costuma ser determinante para controlar uma ‘maratona’ como a Liga. Com o progredir da época, o facto de não competir a meio da semana poderá criar uma vantagem física sobre a restante concorrência como o FC Porto mas principalmente sobre o Sporting. 

É sabido que o rival de Alvalade não possui uma grande profundidade de plantel muito grande, em especial na sua linha da frente, e poderá vir a sentir problemas nesse aspecto particular. Mas as vantagens ficarão por aí.

Mesmo sem se conhecerem os resultados, seria sempre bom encontrar equipas de topo mundial como aquelas que foram mencionadas pela atenção mediática que as mesmas incutem, pelo que a própria imagem do Benfica enquanto um colosso internacional fica manchada, em especial devido a um afastamento num grupo no qual mostrou deter argumentos para se superiorizar a adversários directos como o Monaco.

Como principal senão as águias encontrarão a ausência dos lucros de que vão beneficiar os rivais

Ainda assim, o conjunto no qual alinham João Moutinho e Bernardo Silva foi um oponente complicado e a quem venceu na Luz e poderia ter derrotado também no Principado. De qualquer forma, e tendo em conta que ano após ano as equipas portuguesas continuam a provar que não é normal um país tão pequeno, com uma população a rondar os 10 milhões de pessoas apresentar tantas equipas de qualidade e conseguir tão bons resultados em termos internacionais, seria de pedir mais.

Com uma participação tão escassa, uma desilusão ainda mais por ter nas suas fileiras jogadores do gabarito de Toto Salvio, Nico Gaitán e Enzo Perez mas também unidades com ’estofo europeu’ como Lima ou até elementos sem utilização como Miralem Sulejmani, que no ano passado foi até titular numa final de Liga Europa, ou até o seu guarda-redes suplente, Artur Moraes, que jogou em várias ocasiões na prova milionária, o Benfica não correspondeu a esse hábito e chavão.

Distingue-se Portugal na Europa devido aos resultados consistentes, distantes do que o clube lisboeta conseguiu fazer desta vez; esse insucesso não só, como já foi dito, não contribui para o seu prestígio, como também não abona para o prestigio do próprio país.

Esse será o primeiro de muitos ‘contras’ - o seguinte estará no aspecto financeiro, bastando olhar para os exemplos dos rivais directos: o FC Porto tem sido uma das suas equipas que mais tem lucrado desde o início desta edição, ao passo que o Sporting já conseguiu com os ganhos que teve cobrir todo o seu investimento em reforços para esta época.

Caso consiga o apuramento para os oitavos-de-final o leão terá dado um importante passo para mais uma temporada positiva de recuperação desportiva e financeira; já a águia parece ter seguido um percurso diferente no qual tem estado bem melhor ‘dentro de portas’, não facilitando na Liga, do que ‘fora delas’ na Liga dos Campeões como atesta esta eliminação.

Para o Benfica agora resta vencer em Portugal - diz-se que por vezes as ‘chicotadas psicológicas’ podem ser benéficas mas tal não acontece neste caso, nem no imediato nem mesmo no final da época mesmo que os resultados não sejam os melhores pois parece evidente que o projecto delineado por Jorge Jesus é o mesmo de Luís Filipe Vieira.

Desta forma, a identificação pessoal e profissional entre ambos tornará praticamente certa a continuidade do técnico pelo menos por mais um ano. Assim sendo, Jesus dispõe de um ano para perceber tudo o que falhou este ano na carreira europeia dos encarnados e apontar finalmente baterias a um ano com resultados de destaque na Liga dos Campeões, o que ainda não aconteceu nos seus cinco anos de liderança.

No entanto, primeiro será preciso manter o plantel focado e não perder os títulos nacionais que ainda se colocam para o clube, em especial a Primeira Liga que está a ser discutida passo a passo com o FC Porto desconhecendo-se ainda se ainda surgirá mais um concorrente como o mais afastado Sporting - 2014/2015 está longe de acabar na Luz.
 

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