Ferrari 2014: mais um ano a marcar passo
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Ferrari 2014: mais um ano a marcar passo

2014 foi mais um ano para esquecer em Maranello. O F14 T não foi um monolugar suficientemente competitivo, e nem a dupla de ex-campeões Alonso/Räikkönen tirou a Ferrari do meio do pelotão.

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Hugo Picado de Almeida

2014 foi mais um ano falhado para a histórica Ferrari, a escuderia mais antiga em competição na F1 (desde 1950) e a mais vitoriosa (221 corridas). Já lá vão, porém, oito anos desde que um piloto da Ferrari festejou um título, e sete desde que o título de construtores foi para Maranello. Na temporada 2014, a equipa italiana voltou a não ter andamento suficiente, e nem dois ex-campeões mundiais conseguiram fazer com que o F14 T não se perdesse frequentemente no pelotão.

Regressar onde se foi feliz?

Depois de duas épocas em bom plano ao serviço da Lotus (foi 3º em 2012 e 5º em 2013), Kimi Räikkönen foi novamente chamado à Ferrari, onde tinha passado entre 2007 e 2009, conquistando no processo, e logo na primeira época, o título mundial de pilotos e de construtores. O "Ice Man" vinha substituir Felipe Massa, o "eterno segundo piloto" da Ferrari, entre 2006 e 2013. Apesar da sua larga experiência, o brasileiro foi sempre relegado para uma posição de suporte ao primeiro piloto. Com Räikkönen, os italianos procuravam assim apontar mais alto, com dois campeões do mundo no line-up que pudessem forçar o andamento do cavalo rampante. Fernando Alonso, na scuderia desde 2010, fora três vezes 2º, e com o último título mundial do espanhol em 2006, o tempo (e a paciência) para o piloto de 33 anos voltar aos triunfos principiava a rarear e o investimento a dar frutos.

Räikkönen celebra em 2007 (Foto: Sutton Images).

2014: Recordar pela negativa

Se a dupla era de peso, o F14 T, primeiro monolugar Ferrari da era dos V6 turbo na F1, ficou aquém das expectativas. O monolugar do "nariz de aspirador" foi alvo de muitas críticas, e várias vezes foi ridicularizado pela sua falta de potência, que raramente permitiu aos seus experientes pilotos tirar dele rendimento suficiente para ombrear com as demais equipas. Imagem que fica na retina em 2014 é também a luta constante de Alonso e Räikkönen com um monolugar muitas vezes instável, fugindo de traseira na saída das curvas e sofrendo de alguma subviragem.

O finlandês sentiu mais dificuldades do que o colega espanhol, terminando diversas corridas nos últimos lugares pontuáveis ou mesmo já fora dos pontos, como aconteceu na Malásia, no Mónaco, na Alemanha, Japão e EUA. O melhor resultado de Räikkönen foi um 4º posto no GP da Bélgica. Fernando Alonso esteve sempre mais ambientado ao seu monolugar e terminou sempre nos pontos, excepção feita aos GPs de Itália e do Japão, em que foi forçado a abandonar devido a problemas mecânicos, uma falha no sistema ERS e uma falha eléctrica, respectivamente. Contudo, se algo não se pode apontar ao F14 T é a sua fiabilidade, já que nas 38 vezes em que sairam para a pista, só em três ocasiões houve desistências para os homens da Ferrari em 2014, e no DNF protagonizado por Räikkönen na Grã-Bretanha a causa foi um acidente do piloto, que embateu violentamente contra as barreiras de protecção do circuito após sair largo numa curva e o seu monolugar ressaltar sobre uma lomba.

2014 ficará, contudo, na história como um dos piores anos da equipa de Maranello. A equipa fez apenas quarto lugar no mundial de construtores, com 216 pontos, e apenas com dois pódios de Alonso (3º no GP da China e 2º na Hungria), é a primeira vez desde 1993 que a scuderia não soma qualquer vitória numa temporada.

Ainda assim, não parece correcto apontar o dedo quer a Räikkönen quer a Alonso. Sobretudo o espanhol foi exímio nas batalhas com o seu F14 T, sacando ao carro todo o desempenho de que foi capaz e travando intensas lutas com os Red Bull, Williams e Force India no seio dos lugares pontuáveis da classificação, ainda que muitas das vezes, depois de sucessivas ultrapassagens notáveis e de manobras defensivas dignas de respeito, o piloto espanhol tenha acabado por perder a sua respectiva posição face aos homens com quem discutia. O último GP da temporada, em Abu Dhabi, foi espelho perfeito disso mesmo, com ambos os Force India a ultrapassar os Ferrari. Um claro testemunho de que a Mercedes resolveu a abordagem aos novos motores turbo de 1.6L muito melhor do que a Ferrari.

Temporada atribulada faz vítimas

Uma equipa com o estatuto da Ferrari, e cuja história se confunde indubitavelmente com a da própria F1, não pode aceitar perder-se no meio do pelotão, ter os seus monolugares fora dos lugares pontuáveis com frequência e, como se assistiu por algumas vezes esta temporada, até fora dos 10 primeiros na grelha de partida. Mais a mais, porque se um ano poderia ser precalço, oito são já sinal de uma tendência incompatível com o valor da marca italiana. Seria uma questão de tempo até os resultados começarem a fazer vítimas, e várias vezes se abriu a porta de saída de Maranello em 2014.

A primeira baixa foi Stefano Domenicali, o famoso director da Ferrari que em 2008 sucedeu a Jean Todt mas que, à excepção do título de construtores nesse mesmo ano, nada mais pôde festejar à frente da Ferrari. Foi logo no início de 2014, em Abril, com apenas três provas disputadas, que Luca di Montezemolo (agora ex-Presidente) assinou a saída de Domenicali, após decisão do próprio, que em comunicado assumia a responsabilidade pelos fracos resultados da equipa. Marco Mattiaci era o homem que o substituiria até ao final da temporada, e embora fosse escolha pessoal de di Montezemolo, a verdade é que a prestação dos monolugares vermelhos nada fez para permitir a continuidade do dirigente após a demissão do próprio presidente da marca, que ocupava o lugar desde 1991. A verdade é que Sergio Marchionne, novo presidente com as rédeas do cavalo rampante na mão, parece disposto a recolocar a scuderia no lugar que o estatuto lhe exige, tendo logo no final da temporada chamado Maurizio Arrivabene para o lugar de Mattiaci. Luca Marmorini (Chefe do Departamento de Motor e Electrónica) e mais recentemente Nikolas Tombazis (Designer chefe) foram também vítimas dos insucessos da equipa.

Apesar de todas estas saídas, a mais sonante é obviamente a de Fernando Alonso. A paciência esgotou-se para o piloto espanhol e para a equipa, que de acordo mútuo decidiram terminar a sua relação na fase final da temporada. Ao longo de cinco temporadas (2010-2014), foram 1187 pontos, 44 pódios e 11 vitórias conquistadas pelo espanhol na Ferrari. Com três segundos lugares (2010, 2012 e 2013), um 4º posto em 2011 e esta época apenas 6º, Alonso, sem dúvida um dos mais talentosos pilotos do grid, não conseguiu cumprir o sonho de se tornar campeão pela Ferrari, feito que conseguiu pela Renault em 2005 e 2006.

2015 será ano de mudança?

Em 2015 a Ferrari terá forçosamente de aparecer de cara lavada perante os seus tiffosi. Com um novo presidente, um novo director de equipa e novos rostos noutros cargos técnicos, a Ferrari abriu os cordões à bolsa para roubar o tetra-campeão Sebastian Vettel à Red Bull: no paddock fala-se em 80 milhões de euros, o valor que a Scuderia terá de desembolsar anualmente pelos serviços do piloto mais cobiçado do plantel. Apostando novamente numa dupla de ex-campeões, matendo Räikkönen na equipa, restará saber se a equipa técnica liderada por James Allison conseguirá dar aos pilotos um monolugar mais competitivo e um motor mais potente que devolva o cavalo rampante aos pódios. O regresso às vitórias é algo de que a Ferrari precisa urgentemente, e Vettel poderá efectivamente ser o homem para o fazer. Após quatro títulos mundiais consecutivos, em 2014 Vettel foi apenas 5º e não registou qualquer vitória, tendo inclusive sido ultrapassado na tabela classificativa pelo seu companheiro de equipa, Daniel Ricciardo. 2015 deverá ser por todos em Maranello encarado como ano de recuperação.

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