Crónica VAVEL: 4-3-3 de Jardim deu banho de pragmatismo a Villas-Boas e Jesus
Foto original: Uefa.com

Crónica VAVEL: 4-3-3 de Jardim deu banho de pragmatismo a Villas-Boas e Jesus

Num grupo onde eram considerados uma espécie de «underdogs», os monegascos sofreram mas levaram consigo a liderança do grupo C, contrariando as expectativas iniciais. Leonardo Jardim soube espremer a sua equipa e foi o último a sorrir na derradeira jornada, mostrando aos oponentes como se conquista o topo num grupo da UCL.

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O grupo C da Liga dos Campeões conheceu ontem a sua definição final, e, como já era sabido, o Benfica terminou na quarta e última posição. Ontem, na ronda derradeira da fase de grupos, o Benfica empatou 0-0 contra o Bayer, na Luz, e terminou com apenas 5 pontos, fruto de dois golos marcados: uma das piores marcas da edição, igualada pelo BATE Borisov e apenas batida, pela negativa, pelo Apoel, que apenas marcou um golo até agora. Mas, no topo do grupo, a surpresa foi o Monaco de Leonardo Jardim, que terminou na liderança.

No grupo do trio de treinadores portugueses, foram os monegascos de Jardim a levar a melhor sobre toda a concorrência, completando as seis rondas com 11 pontos, mais um que os germânicos Bayer. Para trás ficaram o Zenit, de André Villas-Boas e dos milionários Hulk, Witsel, Javi Garcia e Garay, juntamente com o Benfica de Jorge Jesus, que, ainda assim, fez gala no facto de ter roubado pontos à formação que, na última ronda, roubou, por sua vez, a liderança ao Bayer de Roger Schmidt.

Cedo a crítica desportiva se encarregou de encarar o Monaco como a equipa mais débil do grupo, com a ordem de razões a hierarquizar-se desta forma: a) o Zenit, com as estrelas acumuladas e a entrada em cena de Javi Garcia e Garay, seria um dos mais potentes candidatos; b) o Benfica, campeão nacional vindo do pote 1, arcava consigo boas perspectivas de se apurar; c) nenhuma equipa do grupo, excepto o Benfica, tinha o seu treinador em funções há mais de um ano; d) o Monaco, com novo treinador e sem James Rodríguez e Falcao, era metade do que fora.

Os raciocínios acima descritos fazem, à primeira vista, sentido, e enquadram-se até numa linha de pensamento analítico enraízada numa base minimamente sólida: daí terem sido dados como válidos e lógicos. É verdade que o Zenit reuniu um grupo de jogadores de qualidade muito elevada (e activos dispendiosos), é igualmente verdade que o Benfica era o único campeão no grupo (vindo de duas finais da Liga Europa) e que tinha expectativas altas de se apurar, assim como é verdade que o Monaco, privado de James e Falcao, perdeu os seus dois talismãs de qualidade astronómica, tendo, simultaneamente, que se adaptar às ideias de um novo treinador.

O Monaco foi sendo rebaixado nas «odds» mas cedo se percebeu que os restantes oponentes não tinham, na prática, argumentos claramente mais fortes que os monegascos - o Benfica, privado da qualidade exponencial que detivera na passada temporada (Markovic, Siqueira, Matic, Rodrigo, Garay, Oblak e André Gomes), demonstrou ser fraco competidor europeu, mesmo com 7/8 titulares internacionais, um largo e contínuo investimento na equipa (Talisca, Cristante e Samaris custaram cerca de 20 milhões) e o mesmo treinador desde 2009. O Bayer, apesar de enérgico, não se assemelhava a nenhum 'papão' e o Zenit tardava em consolidar-se enquanto equipa acima da média - algo que nunca fez.

Os resultados, ainda que escassos e magros, foram enchendo a barriga do Monaco, que pé ante pé foi escalando até ao topo. Com uma defesa sólida e experiente, ancorada em Ricardo Carvalho, os monegascos fiaram-se nas batutas de João Moutinho e Toulalan e na disponibilidade física de Kondogbia. Apesar de jogarem um futebol desligado em termos de dinâmicas de posse e de controlo rítmico, os trunfos defensivos foram aguentando os oponentes - Ferreira Carrasco e Ocampos, encarregues de atar nós nas defesas contrárias, eram os desestabilizadores de serviço, com Berbatov na zona da finalização. Assim foi Leonardo Jardim caçar com gatos aquilo que todos pensavam apenas ser possível caçar com cães. Engano de todos nós.

Foi o pragmatismo de Leonardo Jardim que lhe valeu o primeiro lugar no grupo: uma lição valiosa que servirá como instrução base, premissa de fundamento, prólogo lectivo de uma boa conduta táctica em regimes competitivos de alto calibre e exigência. Jogar com base naquilo que de melhor se tem no plantel, potenciando características, protegendo as lacunas, mascarando defeitos e equilibrando estruturalmente o onze. Na prática: assentar os pés no chão, jogar com abnegação táctica (à falta de melhores executantes esse é o segredo) e realismo na abordagem dos duelos. O 4-3-3 imposto por Jardim, com um trio trabalhador no meio-campo, deu um banho de pragmatismo táctico a todos - especialmente a Jorge Jesus.

E isto ainda sai mais acentuado e frisado já que, por ironia, o Benfica de Jorge Jesus mostrou-se sempre superior ao Monaco de Jardim, o que apenas ressalva e sublinha o engenho táctico do ex-técnico do Sporting, que encarou a competição sabendo das suas limitações. No fim, e apesar de ter perdido 5 pontos à custa das águias, o Monaco ainda saiu a ganhar...com mais 6 pontos que o Benfica super-ofensivo de Jesus, montado no seu esqueleto 4-2-4 (convertível num 4-1-3-2 na grande maioria das vezes) mas que por duas ocasiões somente foi capaz de marcar golos na «Champions».

Na partida final, quando todos apostavam no sucesso do Zenit, eis que o Monaco dá a estocada final, como que confirmando, contra as expectativas, que as «odds» estavam erradas à partida e que, como aqui se vem analisando e explicitando, um dos caminhos mais simples para alcançar triunfos é, tão somente, a solidez global de uma equipa e a sua capacidade de se equilibrar e de se compensar à medida que a partida toma o seu curso. Estaremos, pois, perante a falência dos modelos tácticos de Jorge Jesus no contexto europeu...enquanto o treinador se ludibria si mesmo com as vitórias gordas dentro de portas, a alta roda do futebol encarrega-se de puxar Jesus para a dura realidade - o sistema táctico dos 2 centrocampistas solitários é um suicídio milionário.

A realidade da «Champions» já fez questão de elucidar, repetidamente, Jorge Jesus. Quantos falhanços mais serão precisos para o treinador encarnado entender que a passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões não pertence, por direito, somente aos olímpicos colossos endinheirados do futebol? Só no seu mandato técnico, o Benfica já viu Monaco, Bayer, Celtic, Olympiakos, Schalke 04 e Lyon passarem à sua frente na corrida aos oitavos. Serão estes clubes indubitavelmente melhores que o Benfica dos avultados investimentos? Existe, nesta pergunta final, uma dúvida tremendamente...razoável.

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