Crónica VAVEL: Triunfo do sangue frio encarnado

Crónica VAVEL: Triunfo do sangue frio encarnado

Uma análise ao Clássico FC Porto 0-2 Benfica, seu contexto, implicações presentes e consequências futuras.

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O que se passou no Dragão foi, pura e simplesmente, a antítese do costume portista nas recepções ao Benfica - em quase 30 anos de partidas entre FC Porto e Benfica, nas antigas Antas e agora no Dragão, a formação da casa habituou portistas e benfiquistas a um domínio constante, apenas quebrado por brilhantismos episódicos que, como cometas perdidos, salpicaram a História do Clássico: César Brito em 1991 e Nuno Gomes em 2005, aterraram no relvado da Invicta, incendiando o reduto nortenho com o fogo efémero que tantas outras vitórias portistas haviam de apagar.

Lima como cometa que passa de 10 em 10 anos

Lima juntou-se, no passado Domingo, a esse restrito número de cometas que incendiaram o Dragão no seu próprio reduto infernal, onde as águias quase sempre saíam chamuscadas. Os dois golos do avançado brasileiro, plenos de oportunidade e alguma sorte misturada, catapultaram o Benfica para a liderança isolada do campeonato, rumo ao tão desejado bi-campeonato, foco total de Jorge Jesus. Tal como Brito e Gomes, Lima bisou perante a plateia portista, veiculando a mensagem de que o campeão está no topo e lá quer permanecer...sozinho

Com seis pontos de vantagem, o Benfica sabe que não pode, de modo algum, encomendar as faixas de bi-campeão, mas a vitória no campo do seu mais feroz concorrente dá um banho de confiança e tranquilidade emocional/desportiva que pesará, ao inverso, toneladas nas costas do rival, remetido agora à obrigação constante de perseguir a águia. O triunfo forasteiro do Benfica, logo no campo mais infernal da Liga (para os encarnados) poderá ter sido a visão prenunciativa do resto da temporada: um Benfica líder e um Porto perseguidor. Quanto tempo aguentará o Porto, agora, a pressão caída sobre Lopetegui e seus jogadores?

Como referi no artigo que perspectivava as apostas de Benfica e Porto para esta época, o Clássico teria, em parte, o condão de traçar o destino das duas formações, como um prenúncio do resto. Pelo menos, o poder de moldar o futuro próximo: um Benfica calmo e sereno na Liga, um Porto pressionado que se valerá, enquanto tal lhe valer, do sucesso obtido na Liga dos Campeões (fase de grupos). Sem esse ouro, garantido por Lopetegui e companhia, a situação do treinador basco seria assustadoramente pior. Já Jorge Jesus, que frustrou a passagem pela «Champions», viu, por agora, mitigada essa lacuna (crónica), já que o fervor da vitória no Dragão dá azo ao esquecimento europeu.

Um Benfica envelhecido...como o mais fino dos vinhos do Porto

No fim das contas do Clássico, o Benfica, que pagou bastante para ver o «flop», teve aquilo que pretendia: golos para adepto ver, triunfo galvanizador para aumentar a confiança no bi-campeonato, mais perto daquilo que tanto deseja a estrutura. Já o Porto, sob pressão do grande investimento feito, mostrou-se apático, sem o vigor e o rigor doutros Clássicos, sem personalidade vincada nem réstia de um Porto a jogar...à Porto: rijo, agressivo tacticamente, contundente, mandão e ciente do contexto, visceral, de um Porto x Benfica. Mas, no último ponto, Lopetegui terá pouca culpa no cartório: como dar carisma, garra e solidez colectiva a uma equipa que apresenta...seis novos titulares, jovens e novatos?

Já o Benfica, calejado, mostra que ganha ao rival na experiência. Mesmo que tudo desabasse: a táctica fosse incongruente, a bola teimasse em bater no poste ou o oponente tivesse melhores individualidades técnicas; este Benfica, criado por Jesus durante 5 anos e meio, feito de notáveis batidos nas andanças dos Clássicos e das Ligas, sabe bem como páram as modas no futebol luso e conhece as entranhas da bola portuguesa. Desde Jesus, conhecedor sapiente dos adversários, passando por Luisão, Maxi Pereira, Gaitán, Enzo, Salvio, Lima (não esquecer Amorim ou Almeida), este Benfica terá sempre, sobre o Porto, a vantagem de saber onde se move, como deve comportar-se e como deve abordar os desafios. O Porto de Lopetegui, orfão de referências (Lucho saiu, Fernando saiu, sobrou somente Jackson), não.

No Clássico tal foi visível. Impossível de esconder ou maquilhar. O Porto, amorfo, foi de si uma caricatura doutros tempos, incapaz de cerrar os dentes e ir à luta com veemência. Os seus jogadores, inexperientes apesar de dotados, perdiam-se no vazio do objectivo, entretanto já turvo e nervoso. Lopetegui, estranho a um Clássico à moda daquelas duas equipas, perdia-se na tradução, das tácticas, das substituições. Jesus, farto de penar naquele mesmo relvado, já sabia a dor de cor e actuava com os anti-corpos que a experiência lhe providenciara. E o seu Benfica, calmo com o passar do tempo e o repetir dos falhanços portistas, controlava o Porto, ainda que de modo coxo e nem sempre confiável.

Guião de um duelo de pistoleiros: triunfo do sangue frio encarnado

No fim do jogo, aqueles 90 minutos forçaram a sensação de que o FC Porto nunca pudera vencer a partida, mesmo com as duas bolas ao ferro, poderiam até ser quatro ou cinco - a equipa, jogando em casa, ficou muito abaixo do padrão exibicional de um Clássico, longe daquilo a que os seus adeptos exigentes estão habituados. A falta de garra, chama, espírito combativo, sobrepor-se-ia sempre a uma enxurrada de bolas na barra e mil e um azares no coração da área. Porque o Benfica, sem jogar bom futebol e mesmo desafiando a sorte, pareceu sempre em controlo das operações - como um guião que fora escrito para caracterizar um triunfalismo da razoabilidade, pouco eloquente mas humildemente eficaz. 

Assim foi o Benfica no Dragão: humilde, ciente das suas limitações tácticas (claras em jogos contra formações de alto gabarito), preocupado com o seu equilíbrio estrutural (Talisca foi sempre mais médio que segundo avançado) e preparado para a batalha, por muito que doesse. Preparado fisicamente, preparado mentalmente. Sem megalomanias estratégicas, Jesus desenhou o Benfica para sofrer e o Benfica soube fazê-lo. E quando pôde marcar, marcou. De barriga, de um ressalto, como calhasse, como se lesse no guião. Só soube marcar e não soube falhar, ao contrário do Porto. O Porto poderia ter ganho? Claro, e talvez até com eventual facilidade (duas chances claras em 15 minutos iniciais). Mas vacilou e, esse verbo, é irmão da inexperiência...

Como um duelo de pistoleiros em que o mais rápido saca primeiro mas, com a pressa da técnica e com a técnica da pressa, falha o inimigo, que, com sangue frio, dispára com maior lentidão mas maior precisão. O Porto poderia ter morto o Benfica primeiro mas acabou morto por um adversário mais calmo, mais calejado, mais experiente. O Porto morreu de ansiedade, de falta de traquejo competitivo e de sangue frio encarnado. 

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