Benfica de Jesus e o vício de menorizar a formação

Benfica de Jesus e o vício de menorizar a formação

Após a saída de Bernardo Silva e a suspeita sobre as hipotéticas futuras vendas de Cancelo e Cavaleiro, o tema volta a estar na ordem da reflexão: afinal, porque continua este Benfica a menosprezar a sua formação?

vavel
VAVEL

Crónica VAVEL:

Não é novidade e o próprio Jorge Jesus já fez questão de, ao longo do tempo em que é treinador do Benfica, menorizar os jogadores da formação da Luz. Quem não se lembra de, no contexto da saída de Nemanja Matic, o técnico de 60 anos ter afirmado: «Substituto na formação? Tinham de nascer dez vezes». Parece inegável, apesar de repetir que não distingue jogadores por nenhum critério além do valor qualitativo, que Jorge Jesus não leva em grande conta os produtos da formação do Benfica.

A verdade é que, apesar das insistentes declarações de Luis Filipe Vieira no sentido de mudar agulhas no rumo e direccionar o projecto encarnado para uma maior aposta nos jogadores da cantera, a prática desportiva diz-nos que o Benfica apenas se concentra na contratação de jovens promissores estrangeiros, exponenciando o seu valor para depois os vender a preços graúdos. Quanto ao olho deitado à formação, pouco se pode efectivamente evidenciar: pode dizer-se que o Benfica arrecada alguns milhões, pontualmente, mas nunca aproveita os activos criados para inseri-los na equipa principal.

Quando utilizamos o advérbio pontualmente, falamos claro, das vendas de André Gomes e Bernardo Silva - nada mais há a reportar nesse aspecto. Quanto às apostas na formação, ficamos perante um deserto: André Gomes gozou de poucos minutos na Liga antes de sair, Bernardo Silva foi esquecido, João Cancelo totalmente ignorado, Hélder Costa adiado tal como Ivan Cavaleiro, Fábio Cardoso ficou para trás (tal como Rúben Pinto, ambos cedidos ao Paços), João Teixeira permanece na B, Nélson Oliveira foi novamente recambiado e Gonçalo Guedes é dos únicos a manter intacta a esperança...

Enquanto isso, o Benfica mergulha constantemente no mercado para pescar talentos estrangeiros, pelos quais não se coíbe de pagar bons milhões, ano após ano: ainda esta temporada os encarnados deitaram na mesa quatro milhões por Talisca, três por Derley, seis por Cristante, dez por Samaris, quatro por César...e por aí adiante, com Jonathan Rodríguez e Mukhtar a reforçarem em Janeiro os quadros da Luz - serão assim os jovens formados na Luz tão incompetentes que nem talento tenham para merecer algumas oportunidades na equipa principal?

O dinheiro obtido com as precoces vendas de Gomes e Bernardo facilmente se evapora por entre os milhões derramados em contratações avulsas de estrangeiros que muitas vezes se revelam flops descomunais: basta lembrarmo-nos de Franco Jara, Bruno César, Roberto Jímenez, Jose Luis Fernández, Mitrovic, Alan Kardec, Emerson, Rodrigo Mora, Daniel Wass, Carole, Sídnei, Capdevilla, Felipe Menezes, Éder Luis, Steven Vitória, Lisandro, entre muitos outros - muitos deles chegaram a custo zero (valendo esse termos pela sua dubiedade...) mas a sua folha salarial sempre pesou nas contas encarnadas.

Ora, porque despreza este Benfica a sua formação e o inerente trabalho que lá é desenvolvido? Porque razão servem os craques da Luz para os milionários clubes do estrangeiro e não para o próprio Benfica, que os ensina e faz crescer? De que vale investir forte nas infra-estruturas de uma competente cantera quando se dá, constantemente, um eclipse de jogadores dessa formação nas apostas do treinador principal? Os escalões jovens da Luz têm sido dos mais vitoriosos de sempre, apresentando resultados positivos de modo transversal a todas as categorias - o que falta para se apostar neles?

Os indícios, perdoe-me Jesus, são mais que muitos: o treinador do Benfica não gosta da sua formação. Fala como se a menorizasse (por muito que o negue, penso ser difícil convencer alguém disso hoje em dia) e raramente atribui aos jovens lusos responsabilidades em jogos competitivos. Não haveria pertinência em colocar Cancelo como suplente imediato de Maxi? No Valência, Espírito Santo já o faz, sem medo de apostar no jovem lateral destro. Não será Nélson Oliveira melhor que Derley e merecedor de oportunidades no onze? Seriam João Nunes e Fábio Cardoso incapazes de serem o terceiro central na Luz? E João Teixeira, está muito longe do nível de Cristante? E Rebocho, fica aquém do suplente Benito? 

De Gomes e Bernardo nem valerá a pena falar: eles próprios falam por si, dentro de campo, em dois clubes milionários que resolveram antecipar-se a futuras concorrências. André Gomes orquestra com pompa e circustância a banda do Valência, enquanto Bernardo Silva cresce a olhos vistos no Mónaco, somando minutos e golos. Não teriam lugar neste Benfica? Não terão os milhões gananciosos sido fruto de um lucro que se torna tão prioritário para a SAD encarnada quando se trata de vender jóias da coroa da formação, e tão secundário quando se trata de abrir os cordões à bolsa para comprar camionetas de reforços vindos do exterior?

Se este Benfica mentiroso (que apregoa aos ventos a ascensão da sua formação e depois contradiz-se durante os anos) quer mesmo apostar na formação terá que dar aos jovens de águia ao peito a chance de mostrarem o seu valor com a camisola principal do clube. Terá que mostrar-lhes o peso dessa responsabilidade e terá que testá-los nos grandes palcos - senão, a troco de uns milhões que se desbaratam, outros farão. Porque não têm esse medo de Jesus.

VAVEL Logo