Receita do «derby»: especulação, resistência e 'estrelinha'

Receita do «derby»: especulação, resistência e 'estrelinha'

O Sporting esteve sempre mais perto da vitória mas não conseguiu controlar a vantagem conseguida, permitindo ao Benfica alcançar o empate nos instantes finais.

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Rafael Reis

À medida que o Domingo futebolístico avançava, crescia o entusiasmo sobre um derby entre Sporting e Benfica cujo resultado final poderia (ou não) influenciar directamente os resultados e consequências da disputa pelo título nacional numa contenda que se esperava equilibrada e na qual um possível vencedor teria de apresentar uma equipa altamente coesa e coordenada em todos os sectores do campo.

Esperava-se portanto um jogo muito equiparado, apertado em diversos momentos para ambos os conjuntos, em especial para o Benfica não apenas por actuar como visitante mas também por ter uma vantagem a defender e por isso uma responsabilidade acrescida.

Foi assim que as águias assimilaram esta partida em casa do leão numa primeira parte muito dividida e disputada entre duas equipas que preferiam anular-se entre si num nulo que, chegado o intervalo, parecia inteiramente justo e benéfico para quem está à frente, pelo que por essa razão não constituía surpresa o facto de Jorge Jesus não ter abdicado de peças fundamentais para a sua estratégia como Maxi Pereira, Luisão, Andreas Samaris, Toto Salvio e Lima no seu alinhamento inicial.

Isto, recorde-se, sem poder contar com Júlio César e Nico Gaitán por lesão, com a única (meia) surpresa a residir na presença de Anderson Talisca no banco de suplentes, contingências várias que colocavam o Benfica no ‘dilema’ de escolher entre as alternativas arriscar e procurar abertamente a vitória sob pena de relançar o Campeonato em caso de derrota ou ser cauteloso, gerindo a vantagem pontual angariada nas jornadas anteriores.

Colocado perante esta questão, o clube encarnado escolheu a segunda hipótese, ciente da importância de segurar uma liderança que permite alcançar um bicampeonato que há muito não se conhece nas bandas da Luz, como depressa se percebeu com a aposta numa dupla de meio-campo formada por Samaris e André Almeida, como de resto já havia sucedido no encontro referente à 1ª volta.

Sporting foi a equipa que buscou a vitória, mas depois não soube gerir

Curiosamente, Marco Silva até previu o lançamento de Almeida como titular, mas esperava encontrá-lo como lateral esquerdo adaptado para tentar estancar as ’correrias desenfreadas’ de outro André, este sportinguista, Carrillo, o que seria uma estratégia em tudo semelhante ao que o Benfica operou no Dragão, e com sucesso, frente ao FC Porto, pelo que acertou até certo ponto e em outros aspectos…enganou-se redondamente.

Se no Porto houve lugar a mestria das águias a defender e controlar o jogo sem bola, desta vez em Alvalade não houve mais do que muito calculismo da parte dos campeões nacionais, conhecedores de que não teriam no Sporting mais um dos habituais adversários com que se debatem semanalmente e que liminarmente procuram jogar com a sorte e por isso jogaram claramente mais retraídos.

Ciente da sua maior necessidade de ganhar, foi o Sporting quem ‘pegou’ no jogo na segunda parte, assumindo uma postura mais ofensiva na qual foi, em abono da verdade, a única equipa que efectivamente se expôs correndo riscos em busca da vitória, tendo criado lances de perigo e sido premiado com o golo de Jefferson que ao ter sido alcançado aos 87 minutos se revestia de importância e até parecia indicar um triunfo leonino.

Grande parte do mérito desse sucesso do Sporting se deveu a William Carvalho e à sua exibição muito consistente, não só a defender com uma capacidade de desarme que foi verdadeiramente exímia como no processo ofensivo ao ter sido o jogador que maior critério apresentou no passe. No entanto, em desvantagem ao Benfica não restava outra solução senão adiantar-se no terreno para resgatar pelo menos um ponto e esse esforço, a dada altura já de desespero, acabou por também ter resultados.

Ao mesmo tempo que os encarnados se adiantaram, o Sporting não revelou capacidade para controlar e segurar o jogo e especialmente a preciosa vantagem conseguida, colocando-se ‘a jeito’ para que tivesse mesmo sucedido o momento em que Jefferson passou de herói que aos 87 minutos apontou o golo para se tornar o ‘vilão’ que efectuou um corte incompleto que serviu de assistência para Jardel garantir o empate em último esforço aos 94 minutos.

Benfica teve eficácia apurada ao extremo mas também uma evidente ‘estrelinha’

Sobre o ‘cair do pano’ o líder da Primeira Liga (agora Liga NOS), liderado pelo herói improvável Jardel que garante o estatuto de figura do encontro não só pelo tento decisivo mas também por defensivamente ter provavelmente realizado a melhor exibição em toda a sua passagem pelo Benfica ao ter juntamente com Luisão efectuado uma marcação exímia aos atacantes contrários, retirou o triunfo ao Sporting.

Mais curioso e até irónico será o facto de o mesmo Jardel ter estado em dúvida até ao apito inicial face a problemas físicos que levaram mesmo Lisandro Lopez a realizar o aquecimento junto da equipa titular como prevenção... Quanto ao emblema verde-e-branco, este agora lamenta a sua sorte e incompetência mental, pelo que após ter levantado o ‘blackout’ será de esperar que Bruno de Carvalho surja em cena a defender que o Sporting tudo tentou mas não conseguiu.

Os resultados não enganam, e regra geral o leão sofre golos em casa, e foi precisamente isso que voltou a acontecer, com a ressalva de desta feita tal ter sucedido… no único remate do Benfica na direcção da baliza, o que indicia alguma eficácia mas também sorte, desconcentração defensiva do adversário e até alguma ‘estrelinha’ que normalmente acompanha os vencedores quando estes se encontram em apuros.

Contas feitas, o Benfica não sentenciou a Liga, tendo até permitido uma aproximação do FC Porto, mas manteve suficientemente distante o Sporting, que em termos práticos terá hipotecado as suas hipóteses de fazer parte dessa luta, mostrando a matemática que a liderança se encontra tão próxima do clube de Alvalade quanto… o 5º lugar, ocupado pelo Vitória de Guimarães.

Acrescente-se que os vimaranenses até poderiam estar mais próximos do Sporting, não tivessem horas antes sido surpreendentemente derrotados em casa pelo Belenenses, pelo que as disputas serão muito provavelmente outras para um leão que ainda assim terá papel determinante na discussão dos lugares cimeiros desta Liga, directa e indirectamente…

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