Sem Enzo nem Gaitán, Benfica tem (muito) menos imaginação
Foto via: Record.pt

Sem Enzo nem Gaitán, Benfica tem (muito) menos imaginação

O médio «todo-o-terreno» saiu para o Valência e, mal ou bem, o Benfica foi conseguido disfarçar a sua ausência dentro de campo. Mas quando o outro criativo argentino, Gaitán, se ausentou, por lesão, logo o Benfica baixou de rendimento e o seu futebol perdeu fluência e rasgo táctico.

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Quando, em Janeiro, o Benfica perdeu o seu médio primordial, peça pendular na táctica de Jorge Jesus, sua ausência foi disfarçada com algumas goleadas, bons resultados e exibições positivas no plano interno. Frente a adversários razoavelmente abaixo do padrão competitivo do Benfica, as águias foram conseguindo mascarar a falta daquele que era o motor do jogo encarnado - Enzo Pérez conduzia as operações a meio-campo, rasgava quando se adicionava ao ataque e emprestava às coberturas defensivas um toque de garra e disciplina próprio dos jogadores multifacetados.

A sua saída foi colmatada com o recuo de Talisca para a posição de 'número 8' (tentando Jesus recriar a ideia de tornar o brasileiro num médio «box-to-box»), na tentativa de recriar os procedimentos tácticos que Enzo aplicava à equipa. Mas rapidamente se viu que o jovem brasileiro, ainda em óbvio processo de adaptação ao futebol europeu, não tinha o andamento necessário para desempenhar tanta função num papel táctico apenas - quem, no plantel encarnado, apresenta a mesma intensidade de jogo e constância táctica que o internacional «alviceleste»?

A resposta é fácil: ninguém. Jesus, apesar do frenesi de contratações do Benfica no defeso de Verão, não conta no plantel com muitas opções de alta qualidade para o lugar: Talisca é um médio ofensivo de pouca intensidade de jogo (jogador frágil a defender), Samaris está em processo de construção enquanto médio defensivo posicional (à semelhança da função de Fejsa), Cristante é um aspirante credível a 'regista' (vejam a forma como distribui jogo a partir da zona baixa do meio-campo), e Pizzi não apresenta (apesar de somar agora titularidades) ritmo de jogo constante nem apetência defensiva.

Ora - Talisca funciona melhor como segundo avançado ou médio de ataque (sem funções defensivas de maior), Samaris está colado ao papel de trinco, Cristante é promissor numa função táctica da qual Jesus não é apologista, Pizzi não é (ainda) efectivo na intensidade de jogo nem nas coberturas defensivas; sobra Amorim, médio experiente e talentoso, capaz de ser versátil, abnegado e desempenhar (sem eloquências nem rasgos técnicos) o papel construtor de jogo. Mas, de todas as escolhas, não existe uma (aparentemente) predestinada como noutras alturas existiu...

Depois de 'playmakers' como Witsel, Matic, Enzo e até mesmo 10's como Aimar ou Carlos Martins, o Benfica vê encurtar-se o leque de opções para o meio-campo, isto, claro, se tivermos em conta a qualidade acima da média - o futuro poderá ser risonho para o meio-campo da Luz mas, no que à actualidade diz respeito, a ausência de Enzo, disfarçada pelas fraquezas globais do nosso campeonato, vai-se, ainda assim, notando em algumas partidas mais bicudas. Os casos dos jogos contra o Gil Vicente, Paços de Ferreira, Sporting e Moreirense são reflexo da dificuldade que o Benfica pós-Enzo tem em ser coerente e equilibrado a meio-campo.

Mas as pontuais más prestações encarnadas têm sido agravadas por uma outra ausência, essa apenas temporária: a de Nico Gaitán, que se encontra lesionado. Sem Enzo e sem Gaitán, o Benfica vê-se privado dos seus dois jogadores criativos, aqueles capazes de pensar o jogo, gizar a jogada na mente e aplicá-la depois ao colectivo. Gaitán, extremo que sabe ser pivot, é o único jogador cuja inteligência táctica impressiona. Sem ele, o jogo encarnado tem sido feito de altos e baixos, onde, por vezes, o rasgo técnico fica de fora (Paços e Sporting, por exemplo). Salvio, jogador de ímpetos, acelerações, fintas e raça pura, tem demonstrado que não é dotado da capacidade intelectual dos colegas - ou não fosse a sua imagem de marca a correria e o incessante duelo um-para-um...

Jorge Jesus tem agora, como tem tido ao longo dos anos, a tarefa de potenciar valores, ensinar rotinas e treinar arduamente para dar corpo a um meio-campo mais robusto e evoluído. Poderá transformar Pizzi, Talisca, Samaris ou Cristante em óptimos «box-to-box» dotados de pensamento táctico elevado, mas esse processo demorará o seu tempo. Se Gaitán tardar em surgir no onze, a questão que permanece é: chegarão Talisca, Pizzi e Amorim para aguentar este Benfica na frente do campeonato?

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