Uma questão de intensidade - uma razão dos colapsos europeus
Foto: Lars Baron

Uma questão de intensidade - uma razão dos colapsos europeus

Analisamos neste artigo uma das razões fundamentais para o fosso competitivo entre as formações portuguesas e as dos campeonatos de primeira linha da Europa. Na senda da precoce eliminação do Benfica na UCL, usaremos como exemplo a derrota sportinguista da passada Quinta-feira, em Wolfsburgo.

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Serão as dificuldades das equipas lusas no âmbito internacional causadas pela falta de intensidade rítmica e táctica? Esta explicação poderá, de facto, concorrer para acentuar as pechas das formações portuguesas nos duelos europeus - usaremos neste artigo o exemplo do Sporting e a sua performance nos dezasseis-avos-de-final da Liga Europa, em Wolfsburgo.

E porquê esta sugestão como causa das ineficácias de rendimento das formações portuguesas? Poderíamos recuar até à precoce eliminação do Benfica na Liga dos Campeões (e até aos outros anos do Benfica na prova dos milhões) mas utilizaremos o caso do 2-0 em Wolfsburgo, de modo a retratar falhas (quer tácticas quer de índice físico e rítmico) que foram, indubitavelmente, problemáticas para as aspirações leoninas.

Os dois golos de Bas Dost foram, na sua simplicidade, reveladoras das carências colectivas do Sporting - quer no acto da marcação, quer na pressão efectiva ao portador da bola quer, até, na orientação (factor de concentração) táctica aquando do processo defensivo. Se estas pechas (comuns a Benfica e Porto) passam muitas vezes despercebidas no contexto interno, tais dificilmente passam incólumes nos duelos internacionais.

Bastará analisarmos os lances dos dois golos dos germânicos para termos matéria pertinente útil para a avaliação técnico-táctica: qual o denominador comum nas duas jogadas? A falta de pressão efectiva ao condutor das jogadas, a ausência de confronto físico imediato, a tardia (nos dois lances foi mesmo nula) compreensão equilibrada dos espaços e uma aura de passividade na hora de endurecer a acção defensiva. No fundo, uma menor intensidade de jogo nos meandros defensivos.

O primeiro golo é exemplo gritante: após a falha de Nani (passe precipitado), Naldo, defesa central que não é propriamente conhecido pela sua refinada técnica ofensiva, galga vários metros sem oposição e, perante um conjunto apático de jogadores do Sporting (4/5), dribla à vontade sem nunca ter sido enfrentado de forma directa. Sem carga, sem intercepção, sem falta nem competente confrontação cerrada: o resultado, lógico, foi um passe (facilitado) vertical, consequência de uma acção defensiva de manteiga.

A falha - grave - de orientação táctica do lateral Jefferson é fatal e exemplifica, em parte, a má percepção táctica do espaço - nem se juntou à linha defensiva (para colocar Dost em fora-de-jogo) nem fechou o espaço morto entre o defesa central e o seu lado, permitindo que Dost fugisse, do corredor lateral para o meio. Mas Paulo Oliveira também cometeu um erro: numa primeira fase tenta limitar o espaço de progressão de Naldo mas, depois, fica a meio caminho, entre a pressão ao portador e a execução da linha defensiva - deveria, ou ter feito falta sobre Naldo ou ficar na linha (impedindo/dificultando o passe vertical para golo).

No segundo golo, o mesmo erro repete-se, pois o belga Kevin De Bruyne desce pelo flanco com três jogadores à ilharga, sem que nenhum se tenha lançado num duelo físico ou sequer numa tentativa de intercepção - repare-se que, devido à ineficácia da cobertura dos dois jogadores leoninos, o central Tobias Figueiredo vê-se impelido a fechar o ângulo de cruzamento, deixando, no coração da área, Bas Dost apenas com a companhia de Paulo Oliveira. Num lance de jogo de alta competição, é fatal permitir que o oponente progrida sem oposição efectiva - ainda para mais quando se fica a meio caminho da pressão, mais perto da descompensação táctica.

Esta falta de intensidade competitiva poderá ter nascença na baixa competitividade da liga portuguesa: como poderão as formações lusas com passaporte europeu, que competem cerca de 75% a 85% de jogos no ambiente de fraca competitividade nacional, exponenciar as suas potencialidades contra as equipas estrangeiras, muitas delas habituadas a jogar em altos ritmos, contra oponentes equilibrados e resistentes? Não terá o 'ecossistema' luso (um campeonato assimétrico, sobrelotado e com equipas paupérrimas) influência negativa na adaptação competitiva das equipas portuguesas que disputam os duelos internacionais? 

Sim acharmos que sim, poderemos, exagerando (mas pouco), afirmar que as equipas portuguesas começam a perder grande parte dos jogos europeus mal saem do seu 'ecossistema' nacional, fora dos hábitos competitivos criados ao longo das épocas. Poderemos sempre discordar, sublinhando momentos altos dos grandes na Europa, mas teremos concordar que são apenas pontuais. Permitam-me semear a dúvida: como se explica que o alto calibre do Benfica de Jorge Jesus na Liga se reduza a uma qualificação para a fase final da «Champions» em cinco tentativas?

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