Sporting vergado no Dragão: Crónica de um leão em «break»

Sporting vergado no Dragão: Crónica de um leão em «break»

Depois de consentir o empate frente ao Benfica e muito ter desperdiçado frente ao Wolfsburg, o Sporting bloqueou sob diversos aspectos frente ao FC Porto.

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Rafael Reis

Crónica VAVEL: Sporting vergado no Dragão

Tal como ao FC Porto residia uma grande esperança no clássico que se disputou no fim-de-semana no Estádio do Dragão, também ao Sporting a responsabilidade era muita e talvez até maior, uma vez que em caso de derrota não só as aspirações à conquista do título nacional se dissipariam como mesmo a possibilidade de ascender ao segundo lugar passaria a tornar-se pouco mais do que uma utopia. Perante este cenário, o leão entrou em bloqueio.

Para mal dos ‘pecados’ sportinguistas, o bloqueio ’verde-e-branco’ foi duplo, e até começou no próprio técnico, Marco Silva, que perdeu aos pontos no despique directo com o seu homólogo portista, Julen Lopetegui, que começou por suscitar as maiores críticas, mesmo entre algumas figuras de ligações reconhecidamente portistas como o conhecido comentador Manuel Serrão.

A dada altura, o mediático «acreditava que estando na plenitude das suas capacidades Pinto da Costa não contratasse este treinador». Hoje, e meses depois de Lima ter repetido as façanhas de César Brito e Nuno Gomes, bisando pelo Benfica no Dragão, poucos criticarão Lopetegui, os seus métodos e as suas escolhas; por seu turno, e pesem algumas atenuantes e limitações, Marco Silva deve lamentar não só a actuação da sua equipa como também a sua própria acção directa.

Depois de não ter conseguido dar a volta à recente abordagem cautelosa do Benfica perpetrada por Jorge Jesus, o técnico sportinguista ao apresentar uma equipa demasiadamente fragilizada em termos físicos e motivacionais com uma estratégia que não a favorecia e colocava mesmo à mercê de um adversário bem poderoso e que pelo contrário se apresentava numa situação de auge físico e de moral, especialmente no seu reduto, como o dragão.

Marco Silva terminará assim a sua primeira época de Sporting sem conquistar qualquer vitória sobre FC Porto e Benfica, isto apenas fazendo menção à Liga NOS, e neste caso também muito devido à forma como Lopetegui fez uso do seu banco, mexendo sempre bem e com critério, ao contrário do treinador sportinguista,

As substituições ainda enfraqueceram uma equipa já de si fragilizada com uma troca directa na frente de ataque, o lançamento de Diego Capel quando se pedia outra irreverência (porque motivo ficou Carlos Mané, futuro titular num prazo não muito distante, na bancada?) e André Martins quando era já impossível segurar o que quer que fosse a nível de meio-campo.

Afastamento de Jefferson teve repercussões desportivas graves para a equipa

O que pode ser chamado de ambição pode também ser apelidado de preparação pouco inteligente - face às condições físicas, mais importante do que tudo o resto, o Sporting não poderia adoptar a sua postura habitual de jogar a todo o campo, completamente ’espraiado’ a toda a linha como é seu apanágio.

Essa forma de estar (melhor, de jogar) recentemente trouxe como resultado uma ajustada derrota na Alemanha, sem antídoto para o goleador fétiche do futebol europeu actual, Bas Dost, frente ao Wolfsburgo e em contraste uma exibição de gala mas sem resultados práticos ante o mesmo adversário apenas uma semana decorrida. Neste caso, tendo em vista a visita ao Dragão, o leão necessitaria de uma ’roupagem’ diferente para sobreviver aos ímpetos do FC Porto após ter coleccionado empates tanto na recepção a este oponente como nos dois duelos com o Benfica, este último consentido já no final do período de descontos

Para isso, como regra de ouro não mexer num sector essencial como a defesa, neste caso o primeiro erro capital com o afastamento de Jefferson face ao desentendimento que manteve com Bruno de Carvalho. Desconhecendo-se a profundidade do problema, do presidente do Sporting que começa a notabilizar-se mais pelas ’cruzadas’ e comunicados no Facebook do que pela qualidade da gestão desportiva questiona-se: não teria sido mais de encontro com os interesses estritamente futebolísticos da equipa punir o lateral brasileiro com uma multa pecuniária e assim não castigar o próprio conjunto com uma discussão ultrapassável?

O próprio jogo parece ter-se encarregado de transmitir a resposta com a simultânea junção de uma prestação de Jonathan Silva que se assemelhou a uma ‘extrema-unção’ para a equipa no encontro. Pouco rodado e entrosado num encontro de capital importância, o esquerdino argentino falhou por completo a marcação a Cristian Tello.

Devem ressalvar-se em especial os três golos apontados pelo extremo espanhol, sendo que entre os quais nos dois primeiros perde claramente em posicionamento e velocidade e no último não se encontra sequer no seu posto ao ter-se adiantado em demasia, obrigando William Carvalho a tentar dobrá-lo em vão numa tentativa de corte em carrinho sobre a bola.

Defesa subida foi convite para a sagacidade dos atacantes portistas, que agradeceram

O mesmo William foi também uma imagem bem distante da excelente imprensa que normalmente tem e que semana após semana o designa como figura maior da equipa mesmo quando parece estar em fases menos fulgurantes da sua forma fisica, um aspecto que começa a penalizá-lo pois apesar da capacidade física, inteligência no passe curto e capacidade de desarme o trinco sportinguista ainda estará longe de considerar-se um ‘jogador feito’.

Apesar dessas reconhecidas qualidades, William Carvalho continua a desposicionar-se com uma perigosa cadência, recuperar o lugar com lentidão, falhar na marcação directa e construir jogo com muita dificuldade, e esses problemas ficaram bem vincados perante a intermediária azul-e-branca.

Mais do que as muito sofríveis prestações de Jonathan e William, a grande justificação para a ’derrocada’ verde-e-branca esteve mesmo na escolha da defesa subida como método para travar o FC Porto, uma opção suicida e até difícil de perceber tendo em conta a inteligência posicional de Jackson Martinez e o poder de aceleração de Tello, sem esquecer outras possibilidades como Quaresma.

Sem surpresa, todos os defensores sportinguistas rubricaram uma noite insuficiente, O ataque não esteve melhor, com um rendimento mísero: destaque pela negativa para André Carrillo, tão distante da grande exibição que havia protagonizado na primeira volta, Fredy Montero, lançado inicialmente para procurar o jogo curto como referência no eixo mas a ‘pedir’ uma dupla atacante que nunca chegou a ter e que o poderia ter ajudado a criar alguns desequilíbrios, e Nani,

Não assumiu as responsabilidades que se lhe pediam, no caso deste último, e o seu pecúlio em campo transmite-se por ter apontado um remate - o único da equipa digno desse nome - e apenas se destaca também por ter sofrido uma falta dura de Alex Sandro que poderia ter-lhe valido a admoestação que haveria de chegar minutos mais tarde e por um momento de maior discussão com Danilo.

Pouco para um leão que se vê obrigado a responder de imediato para pelo menos ainda sonhar com a Taça de Portugal, encontrando pela frente um Nacional sem pressões mas ainda assim a explorar pela permeabilidade defensiva…

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