'Cholismo' de Atlético versus 'Interestelar' Real de Madrid
Foto: Juan Medina/Reuters

'Cholismo' de Atlético versus 'Interestelar' Real de Madrid

Hoje estarão frente-a-frente duas equipas rivais que disputaram a última final da Liga dos Campeões, em Lisboa. No Vicente Calderón, o Atlético, munido da raça e do «cholismo» de Simeone, medirá forças com o épico Real Madrid das estrelas cintilantes do panorama futebolístico. Duelo de fim imprevisível entre campeão espanhol e campeão europeu.

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Atlético de Madrid e Real Madrid irão hoje reeditar um duelo que muita tinta fez correr em Maio de 2014 quando ambos os rivais da capital espanhola mediram forças no âmbito da grande final da Liga dos Campeões, realizada em Lisboa. Nesse dia 24 de Maio, os «colchoneros» estiveram com uma mão no desejado troféu dos milhões mas a cabeça de Sergio Ramos adiou, nos instantes finais, os festejos - os «merengues» viriam, no prolongamento, a reclamar o título, «La Décima». 

Hoje, volvidos 11 meses, o Atlético do carismático Diego Simeone e o Real Madrid do sapiente Carlo Ancelotti voltam a chocar no contexto da Liga dos Campeões, mas agora com a contenda a ser decidida em duas mãos - a recente história de duelos entre os rivais conta-nos, apesar do triunfo Real em Lisboa, uma narrativa pintada de «rojiblanco». Desde esse quente mês de Maio, seis confrontos ocorreram, e, para infelicidade «blanca», nenhuma vitória dos galácticos viu a luz do dia. 

Aliás, a recente superioridade «colchonera» tem sido tão avultada que, para encontrarmos um triunfo do Real Madrid dentro do tempo regulamentar de 90 minutos, teremos que recuar nove jogos, até ao dia 11 de Fevereiro de 2014, dia em que a formação de Ancelotti bateu, no Vicente Calderón, o Atlético por 0-2 nas meias-finais da Taça do Rei. De facto, desde 2013 que o Atleti tem reescrito a História, alterando o rumo do domínio no «derby»: antes de 2013 o Real vinha numa senda avassaladora de 25 «derbies» sem perder (entre 18 de Março de 2000 e 17 de Maio de 2013).

Taça do Rei em 2013 virou a página na História dos «derbies»

O jogo que quebrou a sucessiva tareia Real em traseiro «colchonero» deu-se a 17 de Maio: na final da Taça do Rei, no Bernabéu, o Atlético conseguiu guinar o rumo da História e vencer o eterno rival, mas, para isso, precisou do prolongamento - o Real, treinado por José Mourinho, cairia após ter estado a vencer (golo de Cristiano Ronaldo), fulminado pelos golos de Diego Costa e Miranda. A partir desse triunfo saboroso (Atlético voltou a saborear a conquista da Taça do Rei, troféu que fugia desde 1995/1996), a tendência mudou claramente, a favor dos «rojiblancos» de Simeone.

O carácter acérrimo, penentrante e carismático de Diego «Cholo» Simeone pode fazer maravilhas pela sua reputação de técnico raçudo bem-aventurado, mas a verdade é que tal aura tem sustentação nos resultados desportivos - a vinda do argentino trouxe títulos (o Atlético conquistou a Taça e a Liga, que não lhe pertencia desde 1995/1996, ano da dobradinha) e foi um marco de ruptura com o passado feito de jejuns e subjugações ao poder bipartido de Real e Barcelona («Cholo» venceu também uma Liga Europa, uma Supertaça Europeia e uma Supercopa de Espanha).

Corrente do «Cholismo» ensinou Atleti a ganhar

Assente em pilares pragmáticos como a assertividade defensiva e o mutualismo táctico (que obriga a que todos trabalhem em prol da integridade global da equipa), a personalidade da equipa de Simeone granjeou elogios e rapidamente os resultados positivos se tornaram uma realidade; raçuda e combativa, esforçada e tenaz, a formação do Atleti trazia, com «Cholo», um novo estilo de jogo para a cena espanhola, no qual o perfil galáctico dos tecnicistas do Real nunca encontrou anti-corpos à altura. Os resultados práticos estão à vista - após 13 anos de vassalagem «colchonera», o Atlético conseguiu, desde Agosto de 2014, estar seis jogos sem perder (batendo o Real por 4 vezes).

O esplendor máximo da revitalização «colchonera» está tatuado na goleada de 4-0 imposta pelo Atlético Madrid ao Real, a 7 de Fevereiro de 2015, no último confronto entre as duas equipas - um rolo compressor esmagou a equipa do Real. O Atlético, mais solidário, mais suado, mais engenhoso, voltou a frustrar os planos de Ancelotti, anulando por completo o trio BBC e, principalmente, a estrela Cristiano Ronaldo, que terminou a partida sem golos, sem remates em direcção da baliza, sem cruzamentos efectuados nem «take ons» bem sucedidos. Tiago, Saúl, Griezmann e Mandzukic marcaram os golos caseiros.

Atlético x Real: o «cholismo» contra as estrelas

Hoje, frente-a-frente, estarão dois estilos de jogo contrastantes, duas abordagens diferentes que privilegiam focos antípodas: o tacticismo raçudo de tracção defensiva leccionado por Simeone e pela filosofia do «Cholismo», diante da eloquente, acutilante e vertiginosa sede de golo do ofensivo Real Madrid de Ancelotti. No Atleti, a articulação entre a defesa e o meio-campo é a chave da solidez estrutural da equipa; no Real, é o dinamismo entre o pivot de construção e o trio Benzema-Bale-Ronaldo que faz maravilhas; no Real é a transição veloz que mata a presa amedrontada; no Atlético, é a pressão constante e a entreajuda táctica que sustentam a armadura «colchonera».

Em foco estarão os jogadores cruciais de ambas as manobras - Luka Modric, pivot de construção que balança a equipa e lhe alimenta as investidas atacantes, será essencial na saúde táctica do Real Madrid (atente-se no duelo contra o Barcelona após a sua queda física); Toni Kroos, médio que funciona como pilar de sustentação de todo o edíficio táctico «merengue», terá de se evidenciar pela fiabilidade defensiva e coordenação de movimentos com o croata; na frente, Karim Benzema será o volante de ataque, pronto para colaborar com as rupturas mortais de Cristiano Ronaldo.

Ronaldo procura o golo 50 da temporada

Por banda do Atlético, um dos principais focos estará na dupla de centrais: fiável, estável e extremamente coordenada, a dupla Diego Godín-Miranda é o centro nevrálgico da estabilidade global da equipa; a solidariedade do meio-campo personifica-se em Tiago, Gabi (se este jogar), Mario Suárez e Koke, encontrando-se aí também a magia tecnicista de Arda Turan e o poder de ruptura do extremo goleador Antoine Griezmann; num jogo sem favoritos, o «Cholismo» da «equipa do povo», tal como Simeone a intitula, digladiar-se-á com o interestelar e galáctico Real Madrid, feito dos cintilantes e mediáticos CR7, Benzema, Bale, James Rodríguez, Sergio Ramos, Pepe, Marcelo, Casillas e companhia.

Miranda e Godín são esteios do Atlético

Este será o quinto jogo entre Atlético e Real Madrid disputado no contexto da Liga dos Campeões, o segundo jogado em menos de um ano; no remoto ano de 1959 abriam-se as hostilidades internacionais entre os dois rivais, com as duas equipas a encontrarem-se no caminho da Taça dos Campeões Europeus. Nessa meia-final, a vitória caseira do Real por 2-1 e a resposta «colchonera» por 1-0 ditaram um empate 2-2 que apenas seria resolvido com um jogo de «play-off» vencido pelos «blancos», 2-1 com golos de Di Stéfano e Puskas contra um tento de Enrique Collar. O Real viria a conquistar a sua quarta Taça dos Campeões.

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