VAVEL Portugal responde: Rafael Reis opina sobre a temporada 2014/2015

VAVEL Portugal responde: Rafael Reis opina sobre a temporada 2014/2015

Agora que a temporada está a poucas semanas do seu término, VAVEL Portugal faz um balanço das actuações dos três grandes, analisa o desfecho do campeonato e deita um olhar futuro aos horizontes de Benfica, Porto e Sporting. Tem a palavra um dos mais creditados colaboradores VAVEL Portugal, Rafael Reis.

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1. Agora que estamos a poucos dias de assistir a uma jornada decisiva para o desenlace do título, terá sido o confronto directo entre Benfica e Porto crucial para definir o campeão?

Rafael Reis: Certamente. Poderemos, aliás, dizer que ambos os confrontos directos terão definido a identiidade do campeão nacional 2014/2015, como aliás seria expectável face ao equilíbrio que se previa entre Benfica e FC Porto no que diz respeito aos resultados com as restantes equipas em competição. Era previsível que o percurso de ambos os conjuntos fosse semelhante, pelo que o confronto directo entre ambas seria determinante como acabou por suceder e mais do que o nulo da Luz foi mesmo o 0-2 conseguido pelo Benfica no Dragão o resultado que ao que tudo indica valerá o título, não só por definir mesmo a actual diferença de três pontos entre ambos como por estabelecer a diferença no confronto directo que significa um 'ponto bónus' para os encarnados.

2. Olhando para os dois plantéis, qual pensas ter sido a equipa mais bem construída e mais apetrechada para atacar a Liga?

Rafael Reis: À primeira vista, qualquer um diria que essa equipa seria o FC Porto pela forma como se reforçou e formou um plantel bastante vasto em opções, o que até se denotou na boa carreira europeia conseguida; no entanto, o decorrer da época foi mostrando que a diferença não era assim tanta e provavelmente nem sequer existia, visto o plantel do Benfica possuir uma experiência incomparavelmente superior e até ter saído reforçado na fase final com 'reforços' muito úteis que se encontravam afastados por lesão como Ljubomir Fejsa, Rúben Amorim e Miralem Sulejmani. Por seu turno o FC Porto, que para além de em muitos casos ter errado em algumas contratações, parte delas bastante avultadas, não aproveitou o mercado de Janeiro para colmatar essas insuficiências e ao invés disso preferiu contratar Hernâni para uma posição que pode até considerar-se excedentária.

3. O Porto reforçou-se abundantemente; consideras que Lopetegui estava obrigado a conquistar a Liga, e, se sim, terá, na tua opinião, de ser despedido pela direcção portista?

Rafael Reis: Não considero que obrigado seja o melhor termo; apesar da extrema necessidade para o FC Porto em recuperar o título no seguimento a uma época 'em branco' será também um facto que qualquer responsável pelos azuis-e-brancos estariam cientes do poderio do Benfica, da força do seu plantel e do facto de existir uma metodologia de trabalho de longo termo adoptada por Jorge Jesus, o que tornava o rival de Lisboa um sério candidato a renovar o seu título de campeão apesar das muitas vendas que o assolaram no início da temporada. De resto, mesmo com a desastrada campanha na Taça de Portugal e o a forma algo amadora com que abordou a meia-final da Taça da Liga frente ao Marítimo, na qual não preparou a equipa para as dificuldades perante um adversário que já pela Liga havia derrotado os dragões, a muito interessante campanha na Liga dos Campeões, prova na qual o FC Porto alcançou os quartos-de-final da competição, terá o seu peso.

Assim, se de facto se confirmar o despedimento de Julen Lopetegui, este poderá ser melhor explicado pela forma leviana com que encarou a competitividade do futebol português no início da época e acima de tudo pelas suas recentes intervenções e comportamentos acusatórios com a arbitragem, Comunicação Social, o Benfica e Jorge Jesus, o que em nada abona para o prestígio dos dragões. No entanto, não é líquido que Lopetegui ‘escape’ ao facto de ser tido como o ‘elo mais fraco’ de um FC Porto que nada conquistou em duas temporadas consecutivas, o que levaria o basco, como é hábito em situações semelhantes, a ser o elemento mais facilmente dispensável e responsabilizável em caso de novo insucesso – é sempre mais fácil despedir um treinador do que 25 jogadores.

4. Atendendo ao poderio encarnado na Liga, como explicas a fraquíssima prestação europeia do Benfica na Liga dos Campeões?

Rafael Reis: Penso existirem três explicações para o 'descalabro' europeu do Benfica com o afastamento na fase de grupos da Liga dos Campeões, passando em primeiro lugar com o contexto de um grupo que, contas feitas, acabou mesmo por ser o mais equiparado entre todos os que compunham a prova, apresentando quatro clubes com semelhantes possibilidades de apuramento e com legítimas aspirações ao primeiro lugar. Recorde-se que o grupo apresentava o Benfica como habitué europeu, o Monaco que acabou por surpreender a Europa e quase chegava às meias-finais, o Bayer Leverkusen que apenas foi afastado pelo poderoso Atlético de Madrid nos oitavos e ainda o praticamente campeão russo Zenit.

Depois, o Benfica foi ainda prejudicado pelas contingências dos próprios resultados, tendo num processo pouco lógico e vulgar não perdido nos dois encontros perante o vencedor do grupo, o Monaco, e ao mesmo tempo perdido ambos os encontros frente ao terceiro, o Zenit, o que afastou as águias inclusivamente da Liga Europa a uma jornada do fim. Por fim, a displicência revelada nos três primeiros jogos acabou por deitar tudo a perder com um péssimo início de encontro na Luz perante o Zenit, uma estranha rotação de onze numa deslocação a Leverkusen e uma desnecessária cautela no Monaco perante um adversário que na altura estava perfeitamente ao alcance. Não me parece, como muitos defendem, que o precoce afastamento do Benfica das provas europeias tenha sido estratégico; foi sim bem aproveitado para canalizar a ausência de desgaste inerente aos jogos disputados a meio da semana para aumentar a eficácia colectiva na disputa da Liga.

5. Tranquilo na terceira posição da Liga, estará, na tua opinião, o Sporting obrigado a conquistar a Taça de Portugal para salvar a temporada 2015/2016?

Rafael Reis: Com o devido respeito pela importância e historial da Taça de Portugal, não creio que esta competição salve a temporada de um clube de grande dimensão, como é costume num clube como o Sporting, até porque segundo os seus responsáveis e acima de tudo o seu presidente Bruno de Carvalho o grande objectivo dos leões passava pela conquista da Liga, um objectivo que cedo se tornou inacessível. De qualquer forma, tendo em conta que há sete anos que o Sporting não arrecada qualquer troféu, conquistar a Taça seria um marco importante para os verde-e-brancos e um impulso importante para a próxima temporada, sem esquecer que mesmo tendo em conta a qualidade demonstrada pelo Sp. Braga nos últimos anos o currículo do Sporting torna-o favorito à vitória na final, pelo que uma eventual derrota ante os bracarenses poderá ser mal interpretada pelos adeptos e inclusivamente ‘entre portas’.

Para além do incomparável historial entre Sporting e Braga, outro factor que deve ser levado em conta será também o afastamento precoce de FC Porto e Benfica, o que abriu portas a um sucesso leonino que tem sido uma raridade nos últimos anos. Posto isto, perder (como recentemente sucedeu perante a Académica) na final contra o Sp. Braga sem a dificuldade acrescida de enfrentar águias ou leões, uma oportunidade que a ser desperdiçada poderá criar ‘feridas’ difíceis de sarar num futuro próximo.

6. Marco Silva, Lopetegui e Jesus: três treinadores sem futuro certo seus clubes. Que futuro prevês para cada um dos técnicos? Permanecerão ou abandonarão os seus postos?

Rafael Reis: Curiosamente, neste momento é impossível garantir que qualquer um dos três técnicos irá permanecer nos respectivos cargos; ambos possuem argumentos que tendem para a sua permanência e ao mesmo tempo outros que poderão apontar a sua saída. Começando por Marco Silva, o contrato garante pelo menos mais uma época de ligação e os próprios resultados, especialmente se conquistar a Taça de Portugal, rotulariam de positiva a sua passagem por Alvalade e tornariam por isso natural a sua continuidade. No entanto, é sabido que nem sempre em futebol se alinha pelo mais lógico e a distante relação que se estenderá até à personalidade de Marco Silva e Bruno de Carvalho poderá até levar a que não exista vontade de uma das partes ou até mesmo de ambas em dar continuidade ao projecto. Deve ainda acrescentar-se que pela sua juventude e bons trabalhos realizados tanto no Estoril como em Alvalade não seria difícil ao técnico encontrar outro projecto tão aliciante como o do Sporting, o que levanta sérias dúvidas quanto à sua permanência. Quanto a Lopetegui, os prós e os contras já foram respondidos em questão anterior – o seu comportamento arrogante associado à ausência de títulos poderão sobrepor-se aos aspectos positivos.

São de referir também as virtudes do trabalho desenvolvido pelo espanhol, que se encontram na interessante campanha da equipa na Liga dos Campeões e ainda o desenvolvimento de alguns dos jogadores que chegaram ao clube com reconhecido potencial mas poucas provas dadas e que sairão no final da época muito mais valorizados. No entanto, nesta altura poderá ser insuficiente para garantir-lhe mais um ano no Dragão. Já no que respeita a Jorge Jesus, o cenário já se repetiu por diversas ocasiões e resultou sempre na continuidade do treinador, com bons resultados desportivos a acompanhar ou sem eles. Neste caso, não sendo conhecidas as ambições instantâneas do treinador no momento, não é líquida a garantia da sua continuidade ainda que pareça bastante provável a sua continuidade, primeiramente pelo sucesso do projecto que tem nos últimos anos garantido títulos e esta temporada possivelmente mais dois.

Depois, e mesmo tendo em conta que o departamento de scounting é totalmente independente de Jorge Jesus e da sua liderança, não parece ter qualquer sentido o facto de os encarnados se encontrarem em várias frentes nacionais e internacionais na senda de contratações para todos os sectores sem que o treinador tenha também uma palavra a dizer, o que pelo menos indicia que Jesus pode mesmo vir a prosseguir. É também certo que, a sair, Jorge Jesus apenas sairia para melhor. Tendo em conta os 4 milhões de euros que aufere e o estatuto nacional e internacional do Benfica, quantos clubes podem neste momento oferecer um cenário semelhante, assim como as actuais condições de trabalho? Poderá estar aqui o grande trunfo para que Luís Filipe Vieira, a confirmar-se o desejo de segurar o actual treinador, possa mesmo garantir Jesus para a nova temporada benfiquista.

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