Holanda 1970: A última corrida de Piers Courage
Um entristecido Rindt recebe a coroa de louros de Colin Chapman, patrão da Lotus (foto: s/d)

Holanda 1970: A última corrida de Piers Courage

Há 45 anos, em Zandvoort, Jochen Rindt triunfou pela segunda vez na temporada, numa corrida marcada pelo acidente mortal de Piers Courage

Speeder76
Paulo Alexandre Teixeira

Duas semanas depois de Pedro Rodriguez ter vencido o GP da Bélgica, máquinas e pilotos tinham atravessado a fronteira norte para correr no GP da Holanda, no circuito de Zandvoort. Nestas duas semanas que passaram até à quinta prova do campeonato do mundo, aconteceram inúmeras novidades no pelotão da Formula 1.

Ken Tyrrell tinha finalmente encontrado o substituto de Johnny Servoz-Gavin no segundo lugar da sua equipa, que corria com chassis March. O seu escolhido era outro francês, Francois Cevért, que aos 26 anos de idade, tinha fama de piloto talentoso e rápido, mas pouco consistente. Contudo, quer Tyrrell, quer Stewart viam-no como um piloto de futuro.

A McLaren estava de volta às pistas, depois de chorar a perda do seu fundador, Bruce McLarenDennis Hulme decidiu tomar conta da equipa, embora nas boxes quem comandava as operações era o americano Teddy Mayer. Mas Hulme não podia correr, pois ainda estava magoado nas mãos, devido ao seu acidente em Indianápolis. Para o lugar do neozelandês ia o americano Dan Gurney, um já veterano piloto, com os seus 40 anos de idade, e a cuidar da sua Eagle, agora somente a competir nos Estados Unidos. No lugar de Bruce McLaren chegava o inglês Peter Gethin, que também fazia a sua estreia na categoria máxima do automobilismo. Para além da dupla oficial, John Surtees também estava de volta com o seu McLaren privado, e o italiano Andrea de Adamich também estava presente, no seu carro com motor Alfa Romeo.

A Ferrari continuava com dois carros, mas desta vez, ao lado de Jacky Ickx não estava Ignazio Giunti, mas sim Gianclaudio “Clay” Regazzoni, um italo-suiço de 30 anos, com fama de veloz. Contudo, Regazzoni e Siffert, no seu March, não eram os únicos suíços na lista de inscritos, pois Sílvio Moser estava de volta com um projecto próprio: o Bellasi, que tinha como base um dos chassis Brabham que tinha usado no ano anterior.

Na BRM, para além de Pedro Rodriguez e Jackie Oliver, voltaram a inscrever um terceiro carro para o canadiano George Eaton, que também voltava depois de duas não-qualificações consecutivas e a ausência no GP da Belgica. A Lotus tinha Jochen Rindt e John Milesnos seus modelos 72, enquanto que Graham Hill e o americano Pete Lovely conduziam cada um o seu modelo 49, o primeiro inscrito pela Rob Walker Racing Team, e o segundo na sua equipa pessoal. A Brabham tinha o seu único carro oficial, para Jack Brabham, enquanto que Rolf Stommelen corria no segundo chassis, mas como inscrição privada. Os Matra traziam Henri Pescarolo e Jean-Pierre Beltoise e por fim, Piers Courage corria no seu De Tomaso inscrito por Frank Williams.

Rindt leva a melhor na qualificação

Nos treinos, o melhor foi Rindt, que por fim conseguiu tirar o potencial do modelo 72, dando a primeira pole-position deste modelo. Logo a seguir ficou Jackie Stewart, no seu Matra, enquanto que na segunda fila estavam o Ferrari de Ickx e o segundo March de Amon. Jackie Oliver era o quinto a largar, tendo a seu lado o novato Regazzoni, que não só demonstrava a sua rapidez, como a sua adaptabilidade no chassis Ferrari. A quarta fila tinha o segundo BRM de Rodriguez e o segundo Lotus de John Miles, e para fechar o “top ten” estavam o De Tomaso de Courage e o Matra de Beltoise.

Na Holanda, dos 24 pilotos inscritos, somente 20 podiam alinhar na corrida. O Bellasi de Moser, o Brabham de Stommelen, o Lotus de Lovely e o McLaren de De Adamich não conseguiram tempo suficiente para escapar à não-qualificação. Quanto aos estreantes, para além do sexto lugar de Regazzoni, Gethin foi o 11º e Cevért conseguiu o 15º melhor tempo. A ultima fila tinha dois honráveis veteranos: Dan Gurney, no seu McLaren, e Graham Hill, no seu Lotus. A soma das suas idades superava os 80 anos, e a experiência acumulada era superior a 200 GP’s… numa altura em que poucos eram os que sobreviviam mais do que cinco temporadas, o feito destes dois pilotos era louvável.

Contudo, estes treinos ficaram marcados por dois grandes acidentes. O primeiro foi com Jack Brabham, que perdeu o controlo do seu carro e capotou, sendo tirado dessa forma pelos comissários. O segundo acidente foi com o BRM do recente vencedor de Rodriguez, mas ambos saíram destes acidentes sem ferimentos de maior e alinharam na corrida do dia seguinte.

Correr mais cedo... por causa do futebol

O dia da corrida calhou, coincidência das coincidências, com a final do Campeonato do Mundo, na Cidade do México. Para que os espectadores pudessem ver brasileiros e italianos a digladiarem-se no Estádio Azteca, no México, ambos em busca de um tricampeonato e a posse definitiva da Taça Jules Rimet, a partida do Grande Prémio fora antecipada. O tempo em Zandvoort era nublado, mas não haveria sinais de chuva. A partida começa com o March de Amon parado na pista, com uma falha na embraiagem, com todos a conseguirem evitar o choque. O Ferrari de Ickx estava na frente, com Rindt, Oliver e Stewart logo atrás, e tinham cavado uma boa vantagem para o quinto classificado, o Lotus de Miles.

Na segunda volta, Rodriguez consegue passar Miles e parte em busca do quarteto da frente, e na volta seguinte, Rindt consegue superar Ickx para alcançar a liderança. Entretanto, Stewart passa Oliver e o seu companheiro Rodriguez preparava-se para alcançá-lo. Outro que se tentava chegar à frente era Regazzoni, que impressionava na sua primeira corrida. Caindo para o nono posto na primeira volta, recuperou a forma e passou Miles, Courage e Beltoise para ficar com o sexto lugar, e estava no encalço de Oliver. Courage tentava acompanhar Regazzoni, e tinha passado Miles, ficando com o sétimo posto.

O desastre de Courage

Ao final da 20ª volta, as coisas tinham-se acalmado em termos de trocas de posições: Rindt era o líder, seguido de Ickx, Stewart, Oliver, Rodriguez, Regazzoni, Courage e Miles. Contudo, na volta 23, o desastre acontece: Courage sofre um furo lento e despista-se na Curva Schleivak, e o seu carro colide com um banco de areia e um poste, capotando e arrastando-se pela pista por algumas dezenas de metros. O seu chassis, feito de magnésio, um metal leve, mas volátil, pega fogo com o piloto lá dentro. Pouco se pode fazer para salvá-lo, e em 19 dias, a Formula 1 sofria o seu segundo acidente mortal entre os seus pilotos.

Sem saberem do desastre que tinham entre mãos, Rindt continuava na frente, com Ickx atrás. Contudo, este sofre um furo e tem de ir às boxes para trocar de pneus, atrasando-se na classificação. Contudo, regressou à corrida disposto a recuperar algum dos lugares perdidos, e conseguiu passar o seu companheiro Regazzoni e ficar com o terceiro lugar.

Mas ao final de 80 voltas, Rindt dava à Lotus a segunda vitória do ano, e a segundo para Rindt, mas sobretudo era a primeira vitória de sempre para o modelo 72. Stewart fora segundo, com o seu March, e o único a ficar na mesma volta do vencedor, enquanto que Ickx ficava com o lugar mais baixo do pódio. Clay Regazzoni era o quarto, outro excelente resultado na sua estreia na Formula 1, e nos restantes lugares pontuáveis ficavam o Matra de Beltoise e o McLaren de Surtees.

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