Vieirismo no pós-Jorge Jesus: o erro foi largar Vitória ao 'deus-dará'

Vieirismo no pós-Jorge Jesus: o erro foi largar Vitória ao 'deus-dará'

Crónica pessoal e analítica sobre a ruptura entre Benfica e Jorge Jesus, a dialéctica entre Benfica e Sporting e a condução errónea da sucessão de Jesus no reino da Luz.

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Crónica VAVEL

Muito se tem debitado, analiticamente, quanto ao movimento de ruptura do Verão desportivo de 2015 - a saída de Jorge Jesus do Benfica, após seis anos de vigência do experiente técnico na Luz, e a entrada do mesmo, no reino de Alvalade, pela mão presidencial do interventivo e confrontacional Bruno de Carvalho. Infelizmente, a meu ver, a maioria das reflexões, superficiais e redutoras, sobre o fenómeno e suas ramificações consequentes, pecam por um simplismo lógico ao qual não parecem ser alheios, ou o clubismo, ou a rudimentar análise mediática.

Deixemos de lado a pertinência da escolha de Luis Filipe Vieira de não segurar Jorge Jesus, deixando-o no trilho da saída, seis anos depois da chegada (o desinteresse do presidente benfiquista é, hoje, um dado inegável, tal como a sua surpresa pela ida do mesmo para Alvalade). Porquê? Por considerar, eu, que tal ruptura, por si só, não só não condena o Benfica a nenhum inferno, como terá a sua legitimidade filosófica, administrativa e estratégica - Vieira tomou a opção de mudar de rumo, e não viu encaixe para Jesus. Viu sim, para Rui Vitória.

É uma decisão controversa, claro, susceptível de críticas várias, mas, ainda assim, uma tomada de posição legítima de um presidente que também soube correr o risco de dar o peito às balas por um Jorge Jesus encolhido, quase vitorioso mas, à altura, já habitualmente perdedor (relembrando o terrível mês de Maio de 2013 e seus dois anos de jejum que antecederam esse flagelo encarnado). Terá entendido Vieira que o ciclo de Jesus na Luz terminara; e, a ver pela morfologia do plantel de 2015/2016, terminaram de facto várias linhas orientadoras que definiram os moldes de um Benfica de luxo, entre 2008 e 2014. 

De facto, este Benfica está longe do ADN do Benfica paradigmático que viveu entre o plantel de Quique Flores de 2008/2009 (luxos como Pablo Aimar, José Antonio Reyes, David Suazo, Ángel Di Maria ou Katsouranis), nos primórdios de uma fase particularmente gastadora do Benfica, e o seu término prático, em 2014, quando Jorge Jesus perde craques de alto gabarito como Nemanja Matic, Ezequiel Garay, Rodrigo, Lazar Markovic ou Jan Oblak. Para que se consolide: o Benfica fez, indubitavelmente, um «downgrade» claro entre 2014 e 2015, quando comparado esse ano com o investimento feito nos anteriores.

Para Vieira, Jorge Jesus, treinador habituado a plantéis de luxo, recheados de internacionais ou promessas mediáticas e até «flops» inenarráveis por si escolhidos, não caberia no novo plano de reenquadramento desportivo e económico - se Vieira manterá a estratégia? Se não o fizer, desilude quem toma a sua palavra por boa. Mas a realidade é que este Benfica é o mais débil desde, pelo menos, 2009/2010. E aqui entroca o seguimento desta exposição - o grande erro, crasso, de Luis Filipe Vieira, não foi o de ter abdicado de Jesus, nem foi o de ter escolhido Vitória - ou outro. 

O grande erro do presidente encarnado foi o de não ter entendido que no horizonte da saída de Jorge Jesus se formava um horizonte pleno de desafio, etapa que o Benfica pós-Jesus (porque sim, Jesus marcou definitivamente uma era na Luz, inquestionavelmente) estava obrigado a encarar com meticulosidade e atempado planeamento - não o fez. Nem no plano desportivo, nem no plano comunicacional. Com ligeireza, o Benfica que rompia com seis anos de rotina profissional e com uma cristalização da dinâmica mediática de Jorge Jesus na Luz, abordava a pré-época e os desafios competitivos com um Porto esbanjador e um Sporting revitalizado na sua motivação (vitória na Taça).

Com um novo treinador, a necessidade de reedificar uma nova estrutura técnica e a urgência em solidificar um novo corpo desportivo (entre saídas ocasionais como a de Lima, a não-renovação de Maxi Pereira, a dúvida de Gaitán e o já gradual desinvestimento apanhado por Jesus em 2014/2015), o Benfica, com leveza, adormeceu-se entre digressões morosas e pouca esclarecedoras em termos de definição de plantel, em contratações tardias e numa deficiente construção do plantel (ausência de laterais de qualidade, meio-campo de parcos recursos, ausência de substituto de calibre de Salvio). Não deixa de restar a sensação de que Rui Vitória, recém-chegado, foi enrolado na onda de um «aburguesamento» que lhe limitou a preparação da época.

Fora do plano técnico, a comunicação institucional do Benfica foi, sem dúvida, um desastre sem coerência - novamente restou uma sensação, mas desta feita, de acidez, amargura e azia: a direcção parece ter acusado, de modo gritante, a saída de Jesus para o Sporting. E, com isso, apenas enalteceu a manobra sportinguista, acendeu o holofote do carismático (mas gramaticalmente atabalhoado) Jesus. e foi, pouco a pouco fragilizando, a posição do novato Rui Vitória. Aconselhava, a inteligência comunicacional, uma irredutível indiferença. Mas a dialética de guerrilha Benfica x Sporting apenas fez brilhar Jesus Superstar.

O Sporting, cuja pré-época foi competente e planeada com antecipação, cedo ganhou, logo na importância Supertaça (simbólica do primeiro round clássico de uma época árdua, barómetro inicial da qualidade do arranque dos grandes) uma alavancagem que, ganha à custa de um Benfica à deriva no jogo, gerou uma pujança emocional no contexto nacional que apenas expôs as fragilidades transversais de um Benfica que não soube lidar com o desafio da sucessão de Jesus, pelo menos neste primeiro capítulo, entre Junho e Outubro. O problema não foi a saída de Jesus, mas sim a forma como a sua sucessão foi planeada e tratada.

Acima do joelho, em desinvestimento qualitativo (menos jogadores de qualidade média-alta) acentuado, sem tranquilidade nem tempo para trabalhar novas filosofias técnico-tácticas e, cristalinamente, sem uma coordenação entre o desejo táctico do treinador e os recursos à disposição - assim me parece este Benfica, que, claramente, em nada facilitou a vida ao novo treinador. Será hoje fácil criticar a performance de Vitória, mas tal seria - sejamos sinceros - precipitado e injustificado, pelo menos a nível global: um homem sozinho raramente é herói singular e muito raramente é o abismo de uma instituição colectiva tão grande como o Benfica. O clube falhou na abordagem da temporada 2015/2016, ponto final. Quanto mais cedo o universo benfiquista o perceber, mais cedo dará a justa hipótese a Vitória de mostrar que pode ter sucesso no Benfica.

E relembrem-se disto: até Jorge Jesus Cristo Supestar, ventilado por tantos (comentadores à cabeça) como a consumação deflagrante e dantesca do Benfica (como se esta dependesse de um homem apenas...) agora de si órfão, precisou de perder três campeonatos e quatro Taças de Portugal consecutivos para, realmente, atingir a redenção profissional suprema (só consumada no bicampeonato) e ver a sua qualidade unanimemente reconhecida. Sim, demorou, mas foi. Podemos contar até os craques que lhe passaram pelas mãos - demorou (de Setembro de 2009 a Maio de 2014, apenas uma Liga)...sim, mas acabou por acontecer. Haverá que dar tempo a Rui Vitória para mostrar se tem ou não qualidade para guiar o Benfica ao sucesso. Até Jesus precisou.

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