Análise táctica VAVEL: águia cautelosa derruba nota artística do leão
Águia supera leão no intenso duelo táctico.

Análise táctica VAVEL: águia cautelosa derruba nota artística do leão

No rescaldo do mega derby, conheça ao pormenor as lutas tácticas entre Jorge Jesus e Rui Vitória, que resultaram no 0-1 a favor dos encarnados.

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Francisco Dias

No duelo intenso da escaldante noite de sábado, as águias de Vitória triunfaram sobre os leões de Jesus, num encontro tacticamente apaixonante. A postura cautelosa do técnico encarnado superou o futebol positivo e ofensivo do estratega de Alvalade, valendo no final dos 95 minutos a eficácia de Mitroglou para definir o 0-1 final. Acompanhe ao detalhe, as variâncias no xadrez dos treinadores em VAVEL Portugal. 

Vinte cinco minutos de domínio territorial benfiquista

No relvado de Alvalade, o Benfica entrou fiel ao 4-4-2 clássico de Rui Vitória com o intuito de tentar controlar o esférico em posse logo no inicio. O Sporting começou tacticamente instável com Bryan Ruiz e João Mário a alternarem de posições sistematicamente variando os verde e brancos de um 4-2-3-1 e um 4-4-2. Neste período inicial, Samaris e Renato dinamizaram o futebol encarnado o que resultou num domínio territorial dos vermelhos. As movimentações constantes dos médios e dos extremos das águias obrigaram William e Adrien a recuarem no terreno e o Sporting perdeu assim o fulgor que poderia ter caso os médios se soltassem do duplo pivot. O domínio da posse de bola não resultou no entanto em oportunidades de golo para os encarnados uma vez que o último reduto leonino resolveu com eficácia todas as incursões rápidas que tinham inicio quase sempre nos pés de Renato. Os instantes iniciais foram demasiado presos tacticamente, mas ainda assim acabou por ser a equipa mais convicta em campo a aproveitar uma desconcentração defensiva para marcar. Ao minuto 20, Jonas descaiu para a ala esquerda e deu um nó aos defesas do Sporting e colocou na área, onde Mitroglou apareceu solto aproveitando a débil abordagem leonina ao lance.

No golo reside o segredo táctico dos 20/25 minutos iniciais. De um lado o Benfica com o sistema habitual a assumir o controlo do esférico e do outro o Sporting na expectativa e com William e Adrien demasiado recuados no xadrez. As movimentações de Jonas ditaram esta desconcentração defensiva dos leões uma vez que, ao contrário do que sucedeu nos 3 derbys anteriores, desta vez Rui Vitória deu ordens claras ao brasileiro para se envolver na pressão alta aos centro-campistas do Sporting, levando os leões a recuar no terreno perdendo assim liberdade para construir jogo para os jogadores da frente. Jonas surgiu no meio, na extrema-esquerda e na extrema-direita, sendo este posicionamento “vagabundo” o principal factor de desequilíbrio que obrigou Ewerton e Coates a saírem das suas posições fixas para perseguirem o inteligente ponta-de-lança das águias. Depois do golo benfiquista, o controlo territorial e o ligeiro ascendente no jogo não mais voltariam ao futebol encarnado.

Foto: Facebook do SL Benfica
Foto: Facebook do SL Benfica

Vinte minutos finais da primeira parte: leão acordou, mas pouco

Após o golo sofrido, o Sporting mudou ligeiramente o seu modelo táctico encostando Bryan Ruiz a Slimani no ataque, por forma a obrigar o Benfica a ter maiores cautelas nas abordagens aos ataques de Alvalade. Com João Mário fixo na extrema-direita e Bruno César na esquerda, faltou no entanto maior atrevimento a Jorge Jesus que não abdicou do posicionamento fixo de William Carvalho e Adrien como dupla de meio-campo defensivo. As águias recuaram no terreno e neste período final da primeira parte o Sporting conseguiu subir ligeiramente o seu rendimento, equilibrando claramente a percentagem de posse de bola.

Apesar do 4-4-2 de Jesus não ter sido tão audaz nesta fase como devia, o Sporting conseguiu ainda assim desbloquear a muralha sólida do Benfica com destaque para um lance desenhado pelo flanco esquerdo, em que Bruno César cruzou para a área e, no alívio mal feito da defensiva encarnada, surgiu à entrada da área o lateral Jefferson, que rematou um míssil que apenas foi travado pela barra. Este lance reflecte outra alteração no xadrez de Jesus, na medida em que o lateral sportinguista passou a ter via verde para subir pelo flanco esquerdo, e foi por pouco que esta incursão veloz não resultou na igualdade. O Benfica, por sua vez preferiu recuar de forma estratégica e foram raras as ocasiões, nesta fase do jogo, em que as águias conseguiram voar até à área de Patrício. O golo de Mitroglou acabou por ser o único remate direccionado com as redes verde e brancas, uma vez que Rui Vitória optou por fechar a sua baliza a sete chaves formando um bloco coeso e duro, que abdica completamente de tentar chegar ao 2º golo. Ao intervalo, o resultado era um pouco enganador, mas no futebol o pragmatismo e eficácia são também factores que desequilibram um adversário. 

Segunda parte: massacre táctico de Jesus não demoliu a muralha defensiva de Rui Vitória

Para os segundos 45 minutos, o estratega Jorge Jesus percebeu que tinha de dar maior liberdade técnico-táctica a William Carvalho e Adrien Silva. A leitura do treinador leonino foi bem feita, uma vez que não se justificava manter um duplo pivot no miolo perante um Benfica que se recusava em construir lances de ataque continuado e até de contra-ataques. Esta segunda-parte foi dominada territorialmente e, em termos de oportunidades de golo pelo Sporting, sendo o papel de William muito interessante de analisar. O trinco de Alvalade iniciava as incursões leoninas para o ataque procurando linhas de passe curtas, que permitissem a Adrien, João Mário e Bryan Ruiz combinarem entre eles para assim tentar desbloquear a muralha defensiva do Benfica. Assistimos, em campo, ao William dos velhos tempos ficando a questão: está finalmente o William de volta à posição certa que lhe garante maior rendimento? A verdade é que o futebol leonino ganhou dinâmica e verticalidade e o Benfica mostrava fragilidades em contrariar o domínio do seu oponente.

Com Adrien e João Mário a participarem activamente nas triangulações com Ruiz e Slimani, foi possível analisar que estes quatro jogadores mudavam sistematicamente de posições, baralhando a rígida defesa encarnada, que acabou por agradecer aos Deuses os leões não terem tido a frieza necessária para concluir as jogadas. Com o passar dos minutos, Jorge Jesus arriscou tudo e colocou em campo Téo e mais tarde, Gelson e Schelotto. As substituições, curiosamente acabaram por individualmente não resultar numa melhoria significativa no ataque às águias, mas estas alterações permitiram a João Mário e Bryan Ruiz mudar de posições, aumentando o caudal ofensivo sportinguista para níveis ainda mais avassaladores. É verdade que Téo entrou mal na partida, mas o facto de preencher um espaço na frente permitiu a Slimani e Ruiz saírem das marcações cerradas, levando o argelino a desenhar o ataque mais letal dos leões às redes encarnadas.

Foto: Facebook do Sporting CP
Foto: Facebook do Sporting CP

Numa jogada lindíssima a nível técnico e táctico, o Sporting combinou colectivamente de forma soberba, com Slimani a cruzar numa posição que não é a sua habitualmente (facto que baralhou a defesa da Luz), encontrando na cara do golo Bryan Ruiz, que ainda hoje deve estar a pensar “como é que eu falhei isto?”. O Benfica, pelo comando de Rui Vitória protagonizou 45 minutos de sofrimento para os seus adeptos, uma vez que recuou em demasia nas quatro linhas com Samaris e Renato a servirem de muro adicional à muralha de quatro defesas benfiquistas, que se mantiveram fixos ao longo da segunda parte.

Nos últimos vinte cinco minutos, Rui Vitória colocou em campo Fejsa, compondo assim uma dupla de médios com o grego Samaris, que foram o espelho da táctica defensiva que o técnico aplicou para a segunda parte. As águias poderiam perfeitamente ter servido um café a Rui Patrício, uma vez que o guardião sportinguista não teve sequer que sujar as luvas. O Benfica terminou o encontro com apenas um ponta-de-lança, que no fundo serviu mais para ajudar nas tarefas defensivas do que propriamente para fazer cócegas aos tranquilos centrais dos leões.

Em suma, a eficácia dos primeiros instantes do empolgante derby definiram a vitória do Benfica, que lhe permitiu chegar à liderança isolada da Liga NOS. O pragmático Rui Vitória não quis correr o risco de perder 6 clássicos numa só época e puxou a corda atrás, depois de marcar o primeiro e único golo do duelo. O Sporting, por sua vez, pecou na falta de eficácia com que encarou as redes das águias, e não foi capaz de transformar o lindíssimo jogo ofensivo que construiu em festejos para os quase 50 mil espectadores presentes em Alvalade.

Foto: Facebook do Sporting CP
Foto: Facebook do Sporting CP

Na luta de xadrez, Rui Vitória deu o xeque e mostrou a Jesus que defender foi a melhor arma para impedir o mate, que poderia ter acontecido com o ataque demolidor que o Sporting imprimiu. Assim se jogou o melhor espectáculo que o futebol português pode proporcionar em termos técnicos e, sobretudo, tácticos, com dois treinadores que orgulham o futebol luso.

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