Sergio Hernández: "Magnano conquistou pelo basquete brasileiro o que muitos outros gostariam de conquistar"
Hernandez chegou ao Brasília nessa temporada e já conquistou o título da Liga Sul-Americana (Arte: Walter Paneque)

O argentino Sérgio Hernandez, técnico do Brasília, é, antes de mais nada, um vencedor. Bicampeão da Liga das Américas pelo Penarol (ARG), ganhador de diversos torneios e medalhas internacionais com a seleção da Argentina, ‘Oveja’, como é conhecido, já tem um título com a equipe candanga: a última Liga Sul-Americana.  Ele ainda mira as duas competições que pretende ganhar até o final do ano: a Liga das Américas e o NBB.

Mas engana-se quem pensa que a vitória a qualquer custo é o que satisfaz o treinador de 50 anos. A formação da equipe e a filosofia do jogo coletivo são o principal objetivo de seu trabalho. “Quero que meu time seja o melhor que pode. Se isso nos levar ao título, muito bom. Se não, ficarei feliz ao fim da temporada”, revelou em entrevista exclusiva à VAVEL Brasil. E o técnico leva essa ideia para sua vida: “Trabalho e tento viver cada dia com excelência no que tenho que fazer".

Dedicado ao basquete quase em horário integral, Hernandez se mostra um entusiasta dos jogadores brasileiros, que defende das críticas recentes de Oscar Schimidt. “É uma mentira muito ruim que o brasileiro não sinta a camisa de sua seleção”, disse em referência às declarações do Mão Santa, que chegou a pedir a demissão do também argentino Ruben Magnano. “Ele falou mais com a emoção do que com a razão. Magnano conquistou pelo basquete brasileiro o que muitos gostariam de conquistar”, avaliou, citando, além dos resultados, melhorias no jogo coletivo e na defesa.

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

VAVEL Brasil: Apesar de vencer a Liga Sul-Americana, o Brasília teve um começo ruim de NBB. A equipe, no entanto, vem em uma sequência de vitórias e tenta reagir na competição. O que ainda falta para esse time se tornar um concorrente ao título do Novo Basquete Brasil?

Sergio Hernandez: A verdade é que, sem querer dar desculpas, quando o time estava completo, nós perdemos um só jogo (Flamengo). Tivemos muitos jogos sem Alex, sem Artur, sem Alírio – que vai ficar quase toda a temporada fora -, jogamos sem Nezinho também... É difícil para qualquer equipe. Só o Flamengo, por exemplo, teve que lidar com as contusões de Marcelinho e Marquinhos. Não só no NBB como em qualquer liga do mundo, quando se tem fora jogadores importantes, se tem dificuldade. Esse NBB é muito nivelado, não tem muita diferença entre o time de baixo e o de cima. Agora o time está jogando melhor e está aprendendo a jogar com a ausência também, já que ganhamos os últimos dois jogos sem Alex, Artur e Alírio. O Brasília é um candidato ao título, apesar de ainda ter muito por fazer.

VVL: Qual é a análise do grupo de jogadores que você tem?

SH: Eu tenho um grupo muito forte, com experiência. Jogadores como Nezinho, Alex, Artur, Osimani, Goree, Rossi, que jogaram muitos anos em alto nível, alguns na Europa, e jogaram na seleção de seu país, tanto os brasileiros como o uruguaio Osimani. Goree foi uma estrela na Europa, campeão da Euroliga pelo CSKA Moscow. Ainda tem muitos jogadores novos na reserva, como Ronald, Isaac, Maxwell, Bruno. Então, quando precisamos de energia, os mais jovens dão. Se precisarmos de experiência, os mais velhos dão. Se completo, é um time muito poderoso. Gosta de ganhar. Tem uma mentalidade muito forte, por isso foi 3x campeão do NBB e campeão da Liga Sul-Americana, porque tem uma personalidade muito especial, não importa o jogo.

VVL: Quais são os principais adversários do Brasília na luta pelo título?

SH: Ainda não tenho certeza. O time que está jogando melhor basquete no NBB é o Flamengo. Não só está ganhando, como está em um nível muito alto. Tem jogado muito bem coletivamente, e tem valores individuais muito grandes, como Laprovittola e Marcelinho. Agora com a adição de Tony Washam e a volta de Marquinhos, terá um plantel extremamente competitivo. Depois, gosto muito de Uberlândia. São José e Bauru não estão muito bem, porém têm bons elencos. E aí tem equipes como Palmeiras, Mogi das Cruzes, Paulistano, Pinheiros. Como dizem, esta é a edição mais competitiva da história da liga.

VVL: Quais são as suas expectativas para a Liga das Américas, dessa vez por um time brasileiro?

SH: A Liga das Américas tem que ser a liga mais importante. É onde jogam times do Canadá até a Argentina. É como a Euroliga para nós. Já tem um prestígio muito grande, e terá ainda mais com o passar do tempo. Tive a possibilidade de ser campeão da primeira edição do torneio, voltei a ganhar mais uma vez, já fui eliminado. Gosto muito dela e o objetivo desse ano é ganhar, assim como era nos últimos anos. Temos uma primeira fase muito difícil, creio que estamos no grupo da morte, com o Regatas Corrientes, a melhor equipe argentina, o Halcones de Xalapa, que é intenso em sua cidade e tem muitos jogadores da seleção do México, e a equipe da Venezuela (Marinos de Anzoátegui), que tem um bom plantel. Se passarmos deste grupo, vejo muitas chances de sermos campeões.

VVL: Sergio, você treinou a Seleção Argentina de 2005 a 2010 e ainda foi auxiliar técnico em outras ocasiões. Passou pela sua mão a geração de Luis Scola, Pablo Prigioni, Manu Ginobili, entre outros.  Esta é a melhor geração da história do basquete argentino?

SH: Sim, sem dúvidas. Essa é a geração dourada, porque tem uma conquista histórica, a medalha de ouro em Atenas. Nos últimos 12, 13 anos, a Argentina quase sempre esteve entre os 4 primeiros nos torneios internacionais, permanecendo em terceiro no ranking mundial. E, felizmente, deixa um caminho para jogadores mais novos como Campazzo, Delías, Bortolín, Mata, que agora estão jogando pela seleção. Quando esses jogadores usam a camisa da Argentina, já têm uma identidade. Sabem que têm que jogar com atitude, com uma mentalidade muito forte. É o maior legado que essa geração deixa, o exemplo, mais importante que todas as medalhas.

VVL: Essa próxima geração tem a capacidade de manter a Argentina entre os 4, 5 melhores do mundo?

SH: A vida, o sucesso e o fracasso têm muito a ver com como se comandam suas expectativas. Não dá para falar que a Argentina continuará entre os 4 primeiros do mundo, porque isso nem potências como Sérvia, Lituânia e Rússia podem fazer. Existem momentos e momentos, gerações e gerações. O fundamental é que a Argentina mantenha uma identidade, não que fique em um lugar ou outro. A ideia é que se você der uma camiseta preta e uma branca para duas seleções, possa saber qual é a Argentina, pelo seu jeito coletivo de jogar basquete. Depois, se você pode continuar subindo ao pódio, melhor, todo time joga para isso. O basquete no mundo tem uma disputa muito forte, mais do que se acredita na América do Sul. É muito complicado chegar entre os primeiros.

VVL: Você treinou jogadores e equipes brasileiras e argentinas durante sua carreira. Qual é a principal diferença entre essas duas escolas de basquete?

SH: Primeiro que a Argentina tem uma herança europeia muito grande. Quase todos nossos avós são espanhóis, italianos, alemães... O país e nossos jogadores têm um jeito mais europeu. Já o Brasil tem um jeito mais americano. Os argentinos sempre admiraram mais o basquete europeu, enquanto os brasileiros estiveram mais ligados à NBA. E assim se definem escolas diferentes. Aqui (Brasil) se tem muito mais facilidade em jogar no um contra um, existem jogadores mais atléticos, maiores, que têm melhor biotipo para jogar basquete. Na Argentina, é muito raro encontrar um jogador com mais de 2,05 m. Portanto, a necessidade de se jogar coletivamente - porque se não, não ganharíamos nunca – faz com que o argentino tenha mais interesse por esse estilo de jogo. Não que o brasileiro não se interesse, mas é diferente, ele não precisa tanto. Aqui você pode juntar 5 caras com mais de 2,10 m de altura com facilidade. Na Argentina, tem apenas um jogador de 2,10. Scola tem 2,05 e isso é muito. Aqui tem jogadores como Leandrinho, Nezinho, que fazem coisas individualmente com facilidade. Ou caras como Ronald, de 2,11 m com 22 anos, atleticamente muito bom. Para eles é complicado ter uma concepção de que o jogo coletivo é muito importante. Outra coisa é que a Argentina já tem 30 anos de liga organizada, enquanto aqui a liga tem 6 anos apenas. O Brasil tem toda a capacidade de se tornar uma potência, mas precisa de paciência, trabalho e tempo. A organização está boa. Quando se tem 6 anos, mal se começou a falar, né? E você pode ter certeza que a criação de uma liga profissional avança em dezenas, centenas de anos o nível da organização de um esporte no país. Para dar resultado na seleção brasileira, precisa de uns 5, 10, 15 anos mais. O mais importante é que os jogadores, as equipes, os técnicos estão procurando jogar mais coletivamente, dedicando mais atenção à essência do jogo. E isso assegura um futuro muito bonito para o Brasil.

VVL: Você já pôde identificar falhas importantes na organização do basquete brasileiro?

SH: Importantes mesmo, não. Tem algumas coisas com as competições sul-americanas, com a infraestrutura em algumas cidades, mas eu acho que tem que se prestar mais atenção aos detalhes. Tem de ser mais rígido com as coisas de regulamento e organização. Por exemplo: não entendo como um time pode mudar de horário de jogo a cada dia. No domingo joga às 16h, na quinta às 18h, outro dia às 20h, no sábado às 11h e por aí vai. Porque o produto é o que mais importa. Não existe time mais importante que a liga toda. A gente que consome o basquete vai continuar consumindo. Mas isso não basta. Você precisa agregar outro público, e para isso é preciso que se identifique a liga como um produto. Um cara pode tentar acompanhar um time. No primeiro jogo, sábado às 18h, ele pode ir. No próximo, às 11h, ele já não pode, porque trabalha. Quando arruma isso, volta a ser às 18h. Esse cara não vai mais a um jogo. E se ninguém consome a liga, ela deixa de ter valor. O lado esportivo está bom, melhorando. Mas tem que seguir apostando no marketing, na difusão do NBB.

VVL: Recentemente, o basquete brasileiro tem sido agitado por declarações e opiniões envolvendo a ausência de jogadores da NBA em jogos da Seleção Brasileira, , seja por férias, força de contrato ou contusões. O pivô Nenê chegou a ser vaiado no jogo da NBA no Brasil e é , ao lado de Leandrinho, constantemente criticado por Oscar Schmidt. O que você pensa da ausência dos jogadores de suas seleções e da atitude de Oscar em criticá-los?

SH: Eu treinei a Argentina por 6 anos e joguei contra o Brasil cerca de 14 vezes, entre todas as competições. E sempre joguei contra Leandrinho, Varejão,  Splitter, muitas vezes com Nenê também, Huertas, com todos. E ainda joguei muitas vezes sem Ginobili, Nocioni. Um jogador profissional não pode servir sua seleção todo ano, isso é impossível. Existem jogadores de 30 anos atrás que falam: “Nós jogamos sempre pela seleção”. Mas eles tinham outra vida, a maioria jogava em seu país. Então as seleções eram os sonhos deles, pois ali jogavam em nível internacional. Hoje em dia, os jogadores já jogam em nível internacional, têm uma exigência muito forte, têm contratos, um desgaste físico enorme. Então é normal que em certo torneio uma seleção tenha algumas ausências. No entanto, o Brasil deve ser o time, junto com a Espanha, que esteve mais completo na maioria os últimos anos. A gente brasileira não pode ser tão dura com os jogadores que não puderam ir à Copa América, porque a maioria deles sempre estiveram com a seleção brasileira. Ganharam e perderam, mas eu posso nomear 10 torneios que joguei contra o Brasil com eles. Para mim, é uma mentira muito ruim que o brasileiro não sinta a camisa de sua seleção. Pelo contrário, um dos países em que os jogadores sentem mais a camisa é o Brasil. Não estou falando isso porque estou no Brasil, diria a mesma coisa na Argentina. O brasileiro defende suas cores com muita paixão e compromisso. Na Argentina, Ginobili não participou de muitos torneios, e ninguém tem dúvida de que ele ama a seleção argentina. Mas às vezes existem torneios em que ele não pode jogar, e tem que se entender isso.

VVL: Você acha que essa impressão vem do jogo mais individual dos brasileiros? A seleção acaba por sentir mais a ausência de um jogador como Leandrinho e Nenê do que a Argentina do Ginobili, por conta da sua individualidade?

SH: Pode ser. Já disse que a concepção do jogo, o jeito de jogar é distinto na Argentina e aqui. Mas tenho de ser honesto. Vi a última seleção brasileira na Venezuela. Ok, não jogou bem, não puderam ganhar, mas jogaram coletivamente, jogaram com disciplina, poderiam ter vencido. Se você não tem os jogadores mais importantes, pode jogar bem e mesmo assim não ganhará igual como se os tivesse. Pode ser que a ausência de Ginobili na Argentina seja menos sentida pela capacidade da seleção de compensá-la. Mas aqui tem algo diferente. Eu tenho certeza do que falo, e aqui o jogador tem compromisso pela sua seleção. Isso é o mais importante, depois você perde ou ganha. Existem torneios ruins e torneios bons, anos ruins e anos bons. Eu perdi várias vezes. Todos se lembram de quando ganhamos na Turquia (Mundial/2010), em Las Vegas (Pré-Olímpico/2007) e em Londres (Olimpíadas/2012), quando eu já não era o treinador. Mas também perdemos na República Dominicana (Pan/2004), em Porto Rico (Pré-Mundial/2009), em Mar del Plata (Pré-Olímpico/2011) eles jogaram muito bem, em altíssimo nível. Tem de se ter paciência, uma vez que a coisa não vai bem, não pode se irritar tanto com os jogadores. 

O que acontece é que Brasil e Argentina são os dois times clássicos da América do Sul hoje, e a Argentina tem um presente melhor. Então tudo que o Brasil consegue parece pouco, porque a Argentina está melhor. Compara-se constantemente com a Argentina, que está entre os três primeiros do mundo há 10 anos. Mas os últimos 10 anos do Brasil também foram bons. É difícil se classificar para quase todas as competições internacionais, chegar às oitavas de um Mundial, ganhar um Pré-Mundial, um Pré-Olímpico. Qualquer outro país da América do Sul ficaria super feliz se tivesse a trajetória do Brasil nos últimos anos. Mas o brasileiro é muito crítico. O balanço da seleção brasileira nos últimos anos é ótimo.

VVL: Ainda sobre Oscar, após a queda do Brasil na Copa América de 2013, o ex-jogador disse que Ruben Magnano deveria ser demitido do cargo de técnico da seleção brasileira, pois não soube convocar nem lidar com as estrelas da NBA. Até que ponto as críticas de Schmidt são justas neste caso?

SH: Tenho um respeito e uma admiração muito grande por Oscar. Segui toda sua carreira. Há muito tempo não conversamos, mas eu tenho uma relação próxima com ele. Eu penso diferente em vários aspectos de sua opinião, que é mais forte que a minha por estar em seu país. Acho que ele usou mais a emoção do que a razão. Porque eu sei que antes de dizer isso, ele gostava de Magnano como treinador, porque tem entrevistas onde Oscar o elogia. Contudo, ele tem um sentimento tão grande pela seleção que se irritou muito nesse momento. Se há algo a se destacar positivamente em Magnano é que, nesse momento em que a situação foi ruim, ele continuou no cargo. Ele até poderia ser demitido, faz parte da profissão. Mas ele tem a segurança de que no próximo torneio a seleção jogará bem. Não concordo com Oscar sobre Magnano não saber lidar com as estrelas, entre outras coisas. Para mim, Magnano conquistou pelo basquete brasileiro o que muitos outros gostariam de conquistar. Mais defesa, mais jogo coletivo, melhoras pessoais, está fazendo um trabalho ótimo. Isso é o que penso, Oscar tem a sua opinião. Normal, não poderíamos todos pensar igual.

VVL: Vários jogadores estrangeiros, entre europeus e latino-americanos, jogam na NBA, alguns com grande sucesso, como Dirk Nowitzki, Manu, Pau Gasol, etc. Por que os técnicos estrangeiros não têm tanto acesso à liga?

SH: A NBA é muito singular para os técnicos. É muito comum termos técnicos que já jogaram na NBA,  com um passado pela liga. Segundo, como toda liga, tem política. O conceito da NBAé muito diferente das ligas do resto do mundo. Por isso, se você não jogou lá ou ainda se não começou muito jovem como assistente, é muito difícil que um time lhe ofereça um emprego.

Se semana que vem uma equipe de lá tenta me contratar, eu, Sergio Hernandez, quase 25 anos de profissional, 6 anos na seleção argentina, 2 Mundiais, 2 Olimpíadas, digo que não posso. Não tenho vergonha de dizer isso. As regras são muito diferentes, e elas modificam a tática do jogo. E não posso treinar em uma liga só na teoria, porque supostamente conheço as regras de lá, mas não tenho o costume. Minha ideia de jogo, a nível conceptual e tático, tem a ver com a regra da FIBA, não da NBA. É muito complicado que um time da NBA contrate um treinador FIBA que nunca jogou lá. Não digo que é impossível, nos últimos anos eu até gostaria muito de ser assistente da NBA. Não para me tornar técnico depois, não vivo sonhando com isso. Trabalho e tento viver cada dia com excelência no que tenho que fazer. Porque a vida me dá as oportunidades que tem que me dar. Se tiver que ser treinador da NBA, serei, e serei feliz. Entretanto, não gosto que o mesmo esporte, que faz o bem, pelo qual sou apaixonado, seja tão diferente em outro país, com outras regras. Eu gostaria de aprender mais, mas para aprender, tem que ficar lá dentro.

Imaginemos que Campazzo continue jogando assim e vá para a NBA. Ele precisará de um ano de adaptação. Porque não pode ficar mais de 3 segundos no garrafão na defesa, porque tem defesa ilegal, e isso modifica tudo. Acho que por isso as franquias não procuram um treinador estrangeiro, porque ele precisaria de um ano de adaptação, no mínimo, e técnicos não têm esse tempo. O jogador, sim. Você contrata um jogador, que joga 5, 10 minutos, vê vídeos, aprende, e no outro ano já joga mais tempo. Mas ele tem 12 jogadores em quadra no lugar dele enquanto isso. O treinador tem que ir e no primeiro dia estar preparado para treinar um time com as regras e o jeito da liga. Você pode conversar com outro treinador FIBA, que pode dizer: “Eu estou preparado para a NBA”. Ok. Eu, não. Tenho que ser honesto. E trabalhei com jogadores de lá, joguei contra Kobe Bryant, Lebron James, Kevin Durant, Dwyane Wade. Visitei os EUA muitas vezes, assisti jogos e treinos da NBA, tenho amigos que são treinadores na liga, mas isso é muito diferente de estar pronto para um emprego lá.

VVL: Existe algum arrependimento ou frustração em relação a sua curta passagem pelo basquete europeu? Você mantem as portas abertas para oportunidades vindas da Europa?

SH: Eu tentei no ano de 2003, na segunda divisão da Espanha. Tive uma proposta para continuar, mas quis voltar para a Argentina porque não gostei da organização do time em questão (Alerta Cantabria Lobos) e o Boca Jrs fez uma oferta boa. Para que eu vá para a Europa, teria que ser para um time que dispute coisas importantes. E esses times não olham pro mercado sul-americano. Mesmo tendo treinadores de muito sucesso olímpico e internacional, eles não vão para a Europa, e se vão, é para times pequenos. E para dirigir um pequeno na Europa, eu prefiro dirigir um grande na América. Não tem essa necessidade de ir à Europa por ir. Se o desafio esportivo for maior na Europa do que na América, eu vou. Mas esse tipo de proposta não existe.

VVL: Quais campeonatos de basquete você acompanha? Tem um ou mais times preferidos? Quais são seus jogadores favoritos?

SH: Gosto muito de ver a Euroliga. Acho que a ordem é NBA, Euroliga e ACB. Depois, vai do gosto de cada um. As outras ligas não são tão competitivas. Estou impressionado com a regularidade do Real Madrid, há muito tempo não vejo um time que jogue tão forte e que se entregue tanto. Quantos aos jogadores, quando você já é profissional, não tem essa coisa de ter tanta admiração por um jogador ou outro. No entanto, se me pergunta para dizer um jogador, terei que falar de Kobe Bryant. Joguei contra ele 4 ou 5 vezes e gosto muito , além da técnica e da parte física, da sua mentalidade muito forte. É um jogador muito competitivo e vencedor. Na Europa, eu poderia assistir 10 partidas seguidas de Juan Navarro. Acompanho tudo, não tenho tanta informação, mas hoje, com a internet, você pode ver a liga que quiser.

VVL: Essa é uma pergunta que me pediram para fazer pela internet: qual é o maior jogador da história do basquete sul-americano?

SH: Acho que é (Manu) Ginobili. No entanto, eu tenho apenas 50 anos. Ainda tem o Carl Herrera, campeão com o Houston Rockets. Não dá para esquecer dos que não jogaram na NBA: Oscar, Horácio Lopez, Piculino Ortíz. Graças a Deus, existem muitos jogadores de várias épocas. Se você perguntar para um cara de 80 anos, ele dirá que o jogador de sua época é o melhor. Mas acho que é Manu, 3x campeão da NBA é o maior, campeão olímipico, da Euroliga.

VVL: De onde vem o apelido “Oveja” (Ovelha)?

(Risos) Quando eu era jovem, tinha um cabelo como o de uma ovelha negra e treinava um time de crianças. Um menino então me disse: “Você parece uma ovelha”. E isso foi engraçado para aquele grupo, que começou a me chamar assim. O apelido pegou tanto que, depois em uma reunião, um menino me perguntou: “Oveja, por que te chamam de Sergio?”.

VVL: Como você definiria o técnico Sergio Hernandez? Como acha que os seus jogadores te veem?

SH: Acho que tenho muito compromisso com os jogadores. Quando estou em um time, quero ganhar. Tento convencer o jogador de um modo de vida, gosto que ele aprenda a aprender, a treinar e ser melhor a cada dia.  Como eu digo para eles, quando você sai de quadra, você tem que ser um melhor jogador do que quando entrou. Igualmente como equipe. Não dá pra terminar um treino sem saber o que treinou. Porque o compromisso mais importante é consigo mesmo. Não tem que procurar ser melhor que o adversário. Quando você treina para ser melhor que os outros, pode ser negativo em dois aspectos: você não precisar de muito para ser melhor que outros e então não se dedicar tanto, ou então quando se põe uma expectativa alta demais e as chances de frustração são maiores. Quero que meu time seja o melhor que pode. Se isso nos levar ao título, muito bom. Se não, ficarei feliz ao fim da temporada. Se sou campeão, mas não cheguei ao potencial máximo do time, não serei feliz.

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