Guia VAVEL da Copa Libertadores: Atlético-PR
Time estará no grupo 1 da Libertadores (Arte: Walter Paneque/VAVELcom)

Retornando, surpreendentemente, à competição que lhe reservou o vice-campeonato na edição de 2005, o Atlético Paranaense entra na Copa Libertadores da América com a expectativa de passar sem sofrimentos pela fase de grupos e, embalado pela torcida, se tornar um azarão lá na frente. Em 2013, contando com um planejamento inovador e peculiar da diretoria, além de possuir um elenco modesto, mas que se valorizou no final, o Furacão passou por cima de poderosas equipes do Brasil e alcançou a vaga ao terminar na terceira colocação do certame nacional. Entretanto, faltava um último teste; a fase preliminar da competição continental, ao contrário do esperado, se mostrou dura - e muito - com a equipe do Paraná.

Sofrimento, vontade e emoção. Assim podemos resumir a forma que o Atlético conquistou a classificação para a segunda fase da Copa Libertadores da América. Após voltar de Lima, no Peru, com uma derrota por 2 a 1 para o Sporting Cristal na bagagem, o time rubro-negro desafiou tudo que era possível, incluindo o sistema cardiológico de cada torcedor presente na Vila Capanema, e chegou ao triunfo heroico depois de 110 minutos que já entraram para a história.

Por outro lado, até então a preocupação era o que rondava na cabeça dos adeptos. Tendo em vista a brilhante campanha realizada na temporada passada, uma saída ou outra era praticamente inevitável, mas o desmanche acabou sendo maior. O presidente Mário Celso Petraglia, famoso por suas atitudes polêmicas e imprevisíveis, resolveu não renovar o contrato de três importantes peças do staff atleticano; Vágner Mancini, treinador e responsável pelo crescimento dos ânimos do grupo de 2013, foi a principal perda no quesito. Moraci Sant'Anna, consagrado preparador e considerado como o homem que deu o tão elogiado condicionamento físico aos atletas, não teve seu vínculo extendido. Alberto Valentim, ex-jogador que desempenhava a função de auxiliar técnico, seguiu o mesmo caminho.

A reconstrução ainda está em andamento, e, até agora, dá sentimentos contrastantes para a torcida. Após a partida de jogadores titulares importantes como Paulo Baier, Éverton, Léo e Luiz Alberto, e dos bons coadjuvantes Dellatorre, Bruno Silva e Pedro Botelho, o clube trouxe algumas caras novas, mas ainda deixa a desejar em alguns setores. Miguel Angel Portugal, espanhol que estava no Bolívar, chegou, juntamente com toda sua comissão técnica, para ser o comandante em 2014. Na zaga, quem assumiu a posição ao lado do incontestável Manoel foi Cleberson, jovem atleta que demonstrou ter qualidade em 2012 mas foi prejudicado por lesões no ano seguinte. As laterais, que de uma hora pra outra ficaram completamente escassas, tiveram suas lacunas bem preenchidas por Sueliton (Criciúma), Carlos Cesar (Atlético/MG), Natanael (Cuiabá) e Lucas Olaza (River Plate/URU).

Paulinho Dias, vindo da Chapecoense, deu sinais de que irá compor a parte defensiva junto com Deivid ou João Paulo, deixando Hernani como opção no banco de reservas. Contudo, é no setor da meia-cancha que as coisas tendem a complicar. Fran Mérida, compatriota do treinador, mostrou ter qualidade para exercer a função de camisa 10, mas participou das partidas diante do Sporting Cristal somente como substituto - sendo fundamental no jogo da volta. Em ambos os jogos, Portugal teve que colocar Nathan, garoto de 17 anos, em campo; o jovem foi bem, mas ainda tem muito a ser lapidado e não pode ser tratado como peça-chave. Zezinho, titular nessa nova fase, visivelmente não tem os requisitos para ser o armador da equipe. O setor carece de reforços, que devem chegar logo.

O ataque, a princípio, está bem servido. Marcelo, que cansou de infernizar a vida das defesas adversárias em 2013, dispensa comentários e certamente será crucial para uma eventual boa campanha do Atlético. Éderson, o baixinho que foi artilheiro isolado do Brasileirão e era cotado para se transferir, ficou, começou o ano com dois gols e espera provar que seu período de matador não era apenas uma boa fase. Bruno Mendes, ex-Botafogo, Mosquito e Douglas Coutinho tem tudo para formarem um banco de reservas de alto nível. A cereja no bolo, inevitavelmente, pode ser Adriano. Caso o jogador, que já assinou com o clube, está em ótimas mãos e passando por uma fase de compromissos rigorosos, se ajude, o torcedor do Furacão terá o gosto de ver um dos melhores centroavantes do país atuando pelo seu time.

Miguel Ángel Portugal, o comandante

Treinador do Atlético desde o início de janeiro, ainda não podemos cravar o que Miguel Portugal planeja fazer com seu novo elenco. Jornalistas que acompanharam o dia-a-dia no Centro de Treinamentos do Caju revelaram que o espanhol pretende utilizar o 4-2-1-3, prezando pela ofensividade e transição veloz. O que vimos do comandante nos jogos da fase preliminar da Libertadores, principalmente no primeiro - onde a organização tática foi completamente nula -, foi um pouco diferente, mas podemos esperar um time atacante e com linhas de pressão altas nos próximos meses.

Portugal, natural da Espanha, teve uma sólida carreira como meio-campista, se destacando ao vestir a camisa do Real Madrid por quatro anos. Ainda passou por Rayo Vallecano, Castellon, Burgos, Valladolid e Córdoba, antes de trocar a chuteira pela prancheta, em 1995. O ex-jogador continuou sua trajetória pelo país natal, chegando a um retorno ao time do Santiago Bernábeu, trabalhando com a categoria juvenil dos merengues. Já como treinador, passou por Toledo e Racing Santander, depois de também voltar ao Córdoba, e acertou sua ida ao Bolívar/BOL na metade de 2012.

No clube boliviano, teve sucesso imediato e caiu nas graças da torcida. Em 2012/13, levou sua equipe à terceira colocação do Apertura e conquistou o título do Clausura. Já na temporada seguinte, ficou com o vice-campeonato do Apertura. Todavia, a carreira de Miguel não se limita aos treinamentos e preleções na prática, tendo em vista que o espanhol já escreveu dois livros a respeito da metodologia e filosofia do futebol. Ele também tem em seu currículo passagens pelo cargo de diretor esportivo do Córdoba, de 1990 a 1995, e secretário técnico do Real Madrid, em 2007 e 2008.

Marcelo, o veloz e habilidoso atacante do Furacão

Típico atacante que costuma infernizar a vida das defesas adversárias, Marcelo fez uma temporada pra ninguém colocar defeito em 2013 e tem tudo para repetir, ou até mesmo superar o nível em 2014. O jogador de 22 anos, nascido em Maringá, é mais uma cria da renomada categoria de base do Atlético, e certamente será peça fundamental para os planos do clube.

Sua principal qualidade consiste na facilidade em deixar qualquer marcador pra trás, beneficiando-se da velocidade e da habilidade, antes de concluir ou dar oportunidade aos companheiros. Éderson, artilheiro do último Campeonato Brasileiro, sabe bem disso e tem muito a agradecer à Marcelo - que, por sua vez, contabilizou sete assistências na competição. Além da grande capacidade de criar jogadas, o atleta também tem poder de decisão e volta e meia dá uma de matador em frente ao gol. O caminho para parar o Furacão começa em marcá-lo.

Como o Atlético Paranaense joga

Como citado anteriormente, o esquema que será utilizado por Miguel Portugal no restante da temporada ainda é uma incógnita, mas tudo indica para um 4-2-1-3 com foco no ataque veloz, bem como vimos no Atlético em 2013. Algumas peças podem ser diferentes, mas, a princípio, os jogadores exercerão funções bem parecidas com as quais Vágner Mancini os delegava.

A principal mudança pode acontecer no flanco esquerdo do ataque, onde Douglas Coutinho - dono da posição no jogo de volta contra o Sporting Cristal - ou Adriano, caso tenha condições e assine com o clube, terá como objetivo maior a chegada na grande área, com um papel defensivo consideravelmente menor em relação ao que Éverton desempenhou na campanha anterior. Algumas mudanças podem acontecer, mas, utilizando as peças que o treinador tem a sua disposição no momento, o time base seria esse: Weverton; Sueliton, Manoel, Cleberson e Natanael; Paulinho Dias (João Paulo) e Deivid; Fran Mérida; Marcelo, Éderson e Douglas Coutinho (Adriano).

Mesmo longe da Arena da Baixada, a força da torcida prevalece

Não é de hoje que a torcida do Atlético comparece em peso aos jogos e desempenha um papel importante em busca de resultados positivos. A força proveniente das arquibancadas de qualquer cancha em que o Furacão atue sempre dará aquele empurrão que, muitas vezes, os jogadores precisam para chegar ao triunfo. Um exemplo pode ser buscado em poucos dias atrás, na heroica classificação para a fase de grupos da Libertadores. Na Vila Capanema.

O estádio, nomeado como Durival de Britto e Silva, vem sendo a casa do time paranaense desde o início de 2013, após Arena Joinville, Ecoestádio e Gigante do Itiberê receberem algumas partidas mas não terem caído nas graças da torcida. Na casa do Paraná Clube, o Atlético encontrou um lugar perfeito para substituir a Arena da Baixada, que ainda está em obras, e exerce uma grande pressão sobre os adversários. Uma prova disso é que, na temporada passada inteira, apenas uma equipe teve o prazer de sair de lá com os três pontos.

A Vila deve receber todos os jogos do Atlético nessa segunda fase e, eventualmente, as oitavas e quartas de final. A partir da semi-final, caso chegue lá, o clube provavelmente terá sua casa oficial como mais um aliado na disputa pelo torneio.

Surpresa e decepção: Atlético fez história, mas a campanha de 2005 não teve final feliz

Em 2005, como a situação se desenha neste ano, o Atlético chegou na Libertadores da América com um time bom e pronto para surpreender, mas poucos apostavam numa campanha tão épica e marcante. Com grandes atuações, vitórias suadas, triunfos nos pênaltis e brasileiro ficando pelo caminho, a equipe de Curitiba fez jus ao apelido e passou como um Furacão até pintar na decisão, diante do São Paulo. Antes disso, no mata-mata, havia deixado Cerro Porteño, Santos e Chivas Guadalajara pra trás.

E é aí que entra um capítulo histórico. Independentemente do discernimento de cada indivíduo, o caso ficou marcado. Até então, nunca duas equipes do mesmo país haviam alcançado a final da competição - fato que veio a se repetir um ano depois, quando o Internacional levou a melhor sobre o próprio São Paulo. Tudo estava pronto para um grande embate, com ambas as torcidas fazendo sua parte em suas respectivas arquibancadas, certo? Errado. A Conmebol, entidade responsável por organizar e regularizar o torneio, exigia que, para um estádio receber a decisão, o mesmo precisaria cumprir algumas normas internas e dispor de, no mínimo, 40 mil lugares.

A Arena da Baixada, na época, passava longe de ter essa capacidade - o número exato era 25.412. Mas o grande problema, que até hoje ronda a cabeça do torcedor e até mesmo da diretoria atleticana - como, recentemente, o próprio Petraglia ressaltou -, não foi esse. Tendo amplo conhecimento das regras que deviam ser cumpridas à risca, o Atlético tomou uma atitude e, em apenas quatro dias, contando inclusive com a ajuda de adeptos, uma arquibancada metálica foi construída no setor que hoje é conhecido como Brasílio Itiberê. A estrutura seria capaz de receber 16 mil espectadores, elevando o público possível total para aproximadamente 41 mil.

No dia 4 de junho, tudo estava pronto e um laudo confirmando a nova capacidade da Baixada foi entregue. A Conmebol, por sua vez, ignorou seu próprio livro de regras, dando pretexto para muitos apontarem ligações de nomes fortes do São Paulo com a entidade, e emitiu o seguinte comunicado: "La decision está tomada. Son ordens superiores. Ou el Paranaense juega em Porto Alegre, ou que procure la justicia". A decisão estava tomada, e, com a ameaça de ser rebaixado de divisão no campeonato nacional além de sofrer outras grandes sanções, não restou alternativa ao Furacão.

A equipe foi até o Rio Grande do Sul e, como mandante em campo neutro, levou do Beira-Rio um empate em 1 a 1. Na volta, no Morumbi, o placar foi totalmente diferente, um 4 a 0 aplicado com autoridade pelo tricolor paulista, que levou mais um caneco pra sua vasta salá de troféus. Entretanto, a mesma mão que decretou o impedimento do Atlético jogar em sua própria casa, assinou o primeiro - e único - asterisco na história da decisão da Copa Libertadores da América.

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