Várzea: ainda existe amor à camisa
Foto: Diego Luz/ VAVEL Brasil

Dizem que o sonho de todo menino é se tornar um jogador de futebol. Independente da facilidade ou não com a bola no pé, oportunidades surgem, seja no asfalto da frente de casa ou no gramado de uma grande equipe. Quando esse menino cresce e o mundo lhe mostra a realidade, há outras formas dele se realizar.

O mundo globalizado de hoje em dia tem tirado as raízes dos jogadores com o clube. Dificilmente teremos casos como dos goleiros Marcos e Rogério Ceni, ídolos e atuantes por apenas um time. O milionário futebol, os sonhos de grandes títulos, a vida na Europa, o glamour das grandes cidades...

Tudo isso pesa para tirar brasileiros cada vez mais cedo dos gramados nacionais, mas ainda há um reduto onde a paixão pelo futebol, o amor pelo esporte, a vontade de ganhar faz atletas de fim de semana suar a camisa. Camisa essa que não tem a mesma tecnologia. Bolas que não tem a beleza, campos, muitos deles sem arquibancas, sem grama padrão-Fifa, sem vestiários. Mas mesmo com tudo isso, a várzea ainda tem muito a ensinar.

Sonho de voar alto de um menino

Grêmio Bom D'Copus

Franco da Rocha, cidade na região metropolitana de São Paulo, situada ao noroeste da capital. Município dormitório e com problemas como toda cidade de médio porte. Na parte esportiva, o futebol e o futsal dominal, com quadras e campos espalhados. Estreiando na segunda divisão local, o time de nome sugestivo buscava alçar voos maiores após anos de amistosos, pequenos torneios e muitas idas e vindas de jogadores.

Oriundo de um time de uma mini-empresa, um grupo de amigos decidiram caminhar por forças próprias e criaram o Bom D'Copus. Com o Homer Simpson de mascote e dois copos brindando, a equipe mantinha a tradição da várzea de ter nomes engraçados, fortes e que põe respeito. Seja por meio da camisa exaltando o bairro ou a "força da amizade", ou simplesmente mostrando que são bons na hora de tomar uma gelada, os times amadores são bem originais no seu marketing.

Grande parte do elenco do Grêmio

O presidente e fundador é um corretor de seguros. Marcelo Ribeiro, morador do bairro da Vila Bela, muitas vezes troca o fim de semana de descanso com a família, para acompanhar seu time. Seja dando suporte, broncas, brigando com quem se opor ou até mesmo sendo zagueiro, o corinthiano esquece as "facilidades" de se torcer para uma equipe grande, para viver as dificuldades da vida real. 

Sem renda, patrocínio, estrutura ou coisa assim, o time vive de mensalidade dos jogadores. Durante a semana, mensagens informam sobre o próximo jogo, além de servir como cobrança e confirmação dos jogadores. Num elenco de cerca de 25 atletas, há muitos furos e ocorrem partidas que contam com apenas dois ou três reservas.

Sem campo para mandar jogos, o time do Grêmio perambula por cidades para jogar contra rivais e árbitros caseiros. Nesse caso sim, existe juíz da casa, inclusive podendo pegar times de origem duvidosa, onde perder em casa é impossível. E é nisso que surge confusão, brigas, ameaças e jogadas fortes.

Presidente e muitas vezes treinador

Estruturas de elenco e campos

Em toda cidade de São Paulo e arredores, existem muitos campos de futebol. Dos mais variados tipos e tamanhos, o Grêmio viaja para jogar e encaras as dificuldades de cada uma. As particularidades ditam, muitas vezes, até o rumo da partida. Uma grama perfeita, se aproximando de nível profissional, deixa o jogo mais rápido, mas a maioria dos locais tem a terra como terreno. Seja ela apenas no meio campo, apenas nas áreas ou em todo o local, a poeira sobe, deixa a bola viva e as jogadas ríspidas fáceis de acontecer. Isso quando não chove e o barro toma conta dos uniformes.

Falta esse amor à camisa no futebol atual

O manto do time é um capítulo à parte. Não existe essa de trocar camisa com rival. O que foi usado no sábado será lavado e já ficará pronto para o próximo fim de semana. E nem há a possibilidade de um jogador atuar por dois times de várzea. Se ele fizer isso, muito provavelmente sairá dos dois. E no Bom D'Copus, não tem salário ou pagamento por jogo. Muito pelo contrário. Eles pagam para manter o time, além de comprar acessórios médicos e pagar a lavação de roupa, sempre incubida à alguém do elenco.

A preparação para os jogos passa pela chegada no local e a ansiedade em saber se os companheiros chegarão ou não em tempo. Após isso, a montagem de quem começa jogando, sempre tendo em base naqueles que estão presente, além da presença frequente de cada um. Os vestiários são uma incógnita. Podem ser bons lugares com separação e segurança, mas também pode ser apenas um barranco atrás das redes sob a vista de todos. Os pertences pessoais de cada um fica na responsabilidade dos reservas, além deles serem os "médicos" e os treinadores.

Seja terra ou grama rala, a bola rola

Busca na primeira divisão e decepção nos pênaltis

Com as cores laranja e preto, o time é formado numa mescla de jovens e veteranos. Isso porque a várzea é democrática. Não tem essa do time de meninos dar show contra uma equipe mais velha. O toque de bola, o posicionamento e o aproveitamento das falhas ditam a partida. E essa equipe do bairro da Vila Bela, ou Paradinha para os conhecidos, foi aprendendo com as quedas a montar uma estrutura em busca de uma vaga na primeira divisão de sua cidade.

O time é novo e o presidente Marcelo Ribeiro banca muito dos custos com dinheiro próprio

Tudo bem que não era nada muito difícil, mas traumas recentes, principalmente em disputas de pênaltis, elevavam o drama da equipe laranja. Por algumas vezes seguidas, o Grêmio foi eliminado nas penalidades, mas dessa vez, o time conseguiu a vaga na semifinal da competição e uma das quatro posições que dariam acesso à elite municipal. 

O título não veio, mais uma vez por um golpe do destino. Um gol contra selou a derrota e nem a enorme pressão dada durante todo o restante da partida deu uma nova esperança, nem que fosse nos pênaltis. A derrota na semifinal tirou a chance de levantar o caneco, mas o principal objetivo estava conquistado.

Já em um torneio com participação de vários times de cidades vizinhas, a equipe do Grêmio novamente chegou nas semifinais. Com uma estrutura melhor, torcidas comparecendo e maior visibilidade, a equipe laranja e preto lutou muito para segurar um zero a zero enfrentando um time com jogadores que tinham passagens por equipes profissionais. No lance final, o travessão tirou o sonho da vaga na final.

Lance de perigo

Com isso a partida foi aos pênaltis e, mesmo o goleiro Mário fazendo duas defesas, o Grêmio não foi eficiênte e saiu derrotada, para desespero e lamentação de seu presidente Marcelo.

O jogo é um detalhe

Apesar das vitórias e das derrotas, esse time da várzea é apenas mais um entre milhares espalhados pelo Brasil, que ainda mantém a tradição da alegria, da habilidade, do amadorismo e do improviso, que sempre caminhou ao lado dos times grandes. Não a parte ruim da palavra amador e improviso, mas a chance de fazer coisas simples e extrair acertos deles. Hoje, o pragmatismo, a competição, o medo de perder dos profissionais tem tornado o jogo chato. A Seleção muitas vezes acontece isso.

Todos têm famílias, compromissos e responsabilidades. Mas a várzea é a chance de realizar o sonho. É a chance de homens terem o sorriso daquela criança que foram e que desejavam serem famosos pelos gramados do mundo. Infelizmente a vida não deu a chance maior, mas cada fim de semana de jogo, esse atletas amadores fazem de um campo de terra, uma final de Copa do Mundo.

Lema da equipe

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