Por um mundo com mais Andressinhas e mais Marcos
Andressinha e Marcos Planela em encontro emocionante em Pelotas (Foto: Leandro Lopes / Diário Popular))

Por um mundo com mais Andressinhas e mais Marcos

A grande história do futebol feminino nas Lobas, do Esporte Clube Pelotas, na formação de cidadãs e atletas pelo técnico Marcos Planela; Entre elas, Andressinha, da Seleção Brasileira

HenriqueKonig
Henrique König

"Ser Loba, nem melhor e nem pior, mas diferente. Loba não é caça, Loba é caçadora." São dois lemas do departamento feminino de futebol do Esporte Clube Pelotas. Está no extremo sul do país um dos grandes exemplos de resistência da modalidade para meninas de várias idades, orientadas pelo coordenador e técnico Marcos Planela. Uma delas, aos 21 anos, já cresceu muito na carreira e serve de espelho para as demais que estão começando. Trata-se de Andressinha, atualmente meio-campista da Seleção Brasileira da técnica Emily Lima e defensora do Houston Dash, dos Estados Unidos.

O departamento das Lobas surgiu há 20 anos. A temporada 2016 foi de comemorações pela marca alcançada, cientes de que muito trabalho ainda está por vir, tanto dentro do Pelotas como no futebol feminino em geral no Brasil. Marcos Planela sempre esteve à frente do projeto. O interior brasileiro pelo futebol masculino é repleto de abnegados, pessoas que por muito lutam e tão pouco pedem em troca. No feminino então, seria necessária uma palavra mais honrosa.

As Lobas foram campeãs invictas do Campeonato Gaúcho no centenário do clube, em 2008. Foi a maior conquista coletiva. Como trata-se de reconhecimento de trabalho, deve-se levar em consideração que foram 13 chegadas à semifinal nesses 20 anos. Em 2016, o estadual contou com a participação de 13 equipes, o que prova não ser tarefa fácil estar entre as finalistas.

Comemoração do título gaúcho em 2008 (Divulgação)

Na 20ª temporada das Lobas, a semifinal reservou fortes emoções com o enfrentamento com o Black Show. No jogo de ida, placar de 2 a 1 para as meninas de Guaíba. Na volta, no estádio da Boca do Lobo, as áureo-cerúleas precisavam da vitória por qualquer placar, pois saldo de gol não era critério de desempate. Mesmo assim, o jogo estava empatado até os acréscimos, quando conseguiram o segundo gol com Julia Cipriani, devolvendo o marcador e levando a decisão ao pênaltis. Porém, a classificação ficou mesmo com o Black Show. Na final, a equipe do Canoas/Duda sagrou-se bicampeã do estado no duelo da região metropolitana.

De volta ao calendário das Lobas, o título do sub-17 não escapou. O triunfo na final foi justamente sobre o Black Show, diante de uma Boca do Lobo com poucos torcedores, muitos familiares e colegas da base, mas que elas agradecem a cada um presente.

Passados 20 anos, as formações de cidadãs e atletas são os reais motivos de comemorações no Pelotas. Foram 20 atletas convocadas para seleções brasileiras durante o período, dentre as selecionadas na base ou até para categoria adulta. O maior espelho para a geração atual é a meio-campista Andressa Machry, a Andressinha.

De Roque Gonzales para detonar pelo mundo

Andressinha nasceu no noroeste do estado do Rio Grande do Sul, na pacata cidade de Roque Gonzales. O município dela fica a 599 km de Pelotas. Seu pai, Elizeu Machry conta que no Pelotas foi a primeira oportunidade dela com o futebol de campo, pois na pequena Roque Gonzales, de pouco mais de 7 mil habitantes, seus primeiros passos se deram no futsal.

Marcos Planela acreditou no potencial da jovem e ela chamou atenção como descoberta. Logo aos 14 anos, teve sua convocação para seleção brasileira sub-17. A partir disso, a carreira promissora não parou. Foram altos voos para a jovem do interior gaúcho, em atuações, comprometimento e desempenho para crer que pode ir ainda mais longe. Apesar disso, a humildade é uma de suas principais características e ela não esquece das origens.

Andressinha teve a oportunidade de voltar a Pelotas no mês de dezembro, exatamente um dia após a conquista do Torneio Internacional de Manaus pela seleção. Foram quatro gols em quatro jogos na competição, sendo dois deles na final contra a Itália. O placar foi de 5 a 3 e Andressa contribuiu com dois belos tentos: um em cobrança de falta no ângulo, sobre a barreira e fora do alcance da goleira, e outro também de fora da área, em bela finalização da perna direita.

Se engana quem pensa que ela viria contrariada para uma viagem de atravessar o país, de Manaus a Pelotas, de um dia para o outro. Com o sorriso no rosto, Andressa atendeu a todos e todas na Boca do Lobo. A imprensa quis contar as histórias dessa volta ao passado e das novidades com outra camisa amarelinha. As crianças e adolescentes vieram prestigiá-la com o olhar cheio de esperança e admiração.

Sempre ao lado do professor Marcos Planela, ela concedeu entrevista coletiva em que a VAVEL Brasil esteve presente e trouxe questionamentos. A cerimônia contou com a presença de Moacir Elias, presidente do conselho deliberativo do Esporte Clube Pelotas. Com o microfone em mãos, ele abriu a sessão com os cumprimentos a Andressa e Marcos, com uma frase: "O que seria dos lobos sem as lobas?".

Entrevista coletiva na Boca do Lobo (Foto: Henrique König / VAVEL Brasil)

Na abertura das perguntas, o papo foi sobre seleção brasileira. Andressinha fez parte da seleção olímpica nos Jogos Rio 2016, com oportunidades de mostrar seu jogo e evoluir, ao lado de atletas consagradas, como Marta e Cristiane. Estas duas não estiveram no Torneio de Manaus e o protagonismo pairou sobre a nova geração. O Brasil mudou o comando técnico entre a Olimpíada e o fim de ano, com o treinador Vadão saindo para entrada de Emily Lima, primeira técnica mulher da seleção. Andressinha avaliou a troca:

"O Vadão e a Emily possuem filosofias diferentes. A Emily dá importância a detalhes, bola parada, ao toque de bola. Achei legal da parte dela nos dizer para não esquecermos o que o Vadão havia nos passado, que ela veio para somar. Mesmo com pouco tempo, logo nos primeiros trabalhos na Granja Comary, ela nos passou slides, a forma como ela queria. Nós assimilamos a filosofia dela. Ela não chegou à toa, é merecedora, se preparou. Quem trabalha sempre alcança", disse.

A conquista do Torneio Internacional de Manaus foi o heptacampeonato para o Brasil na competição, o primeiro título com a técnica Emily Lima. Além de Andressinha, outro destaque da equipe brasileira foi a atacante Beatriz. A companheira comentou sobre a importância de Bia: "Ela é uma grande jogadora. Já temos um entrosamento muito bom, porque tivemos convocações na sub-17 e na sub-20. Jogar com grandes jogadoras facilita", acrescentou.

Andressinha demonstrou tanta humildade que se restringiu a falar da companheira e não sobre ela própria, quando foi elogiada pela facilidade em participar de cobranças de falta e escanteio, com precisão nos chutes. Marcos Planela fez questão de elogiá-la. Segundo o coordenador do feminino do Pelotas, a jogadora possui um potencial nato e um intelecto que aponta para um futuro promissor. Chega a projetá-la entre as melhores atletas do mundo nos próximos anos.

A conciliação entre estudos e esporte

No Houston Dash, Andressinha atua com a atualmente eleita melhor jogadora do mundo pela Fifa, a estadunidense Carli Lloyd. A gaúcha recebeu o convite para atuar no Houston após a disputa dos Jogos Pan-Americanos em 2015. Segundo ela, é uma grande experiência e o viés do futebol feminino nos Estados Unidos é completamente oposto ao Brasil. Lá, a atividade é mais voltada às mulheres, com incentivo e sendo comum ver praticantes nas escolas e nos lugares públicos.

"Os Estados Unidos valorizam o futebol feminino, mais até do que os homens. A média de público do Portland é de 20 mil pessoas por jogo", destacou Andressinha. Ela aborda que as jogadoras precisam manter uma sequência com passagem pelo futebol universitário e só depois são agregadas à liga profissional. Como Andressinha é estrangeira, não precisou passar por essas etapas. Mesmo assim, ela possui o ensino médio completo e iniciou seus estudos em nível superior no curso de Educação Física. Atualmente, precisou trancar a universidade, mas logo deve retomar o outro caminho.

"Andressinha é a prova viva de que é possível conciliar o esporte e os estudos", avalia Marcos Planela. "Não podemos tomar o futebol masculino como exemplo. O modelo dos Estados Unidos exige o Ensino Médio completo das atletas. Se formos pegar no Brasil, há o incentivo para que os meninos sejam jogadores e até está comprovado em pesquisas que a maioria deles não vai ser", comentou Marcos sobre a necessidade dos estudos para os atletas. Ele completa a análise com o tempo de duração das carreiras. São jogadores que a encerram pelos 35 anos. O que fazer depois? É a pergunta que fica para quem não pensou na formação educacional antes.

Planela é exigente com as Lobas. Cobra a frequência escolar e boas notas nos boletins das jogadoras de todas as categorias de base. Um exemplo a ser seguido pelos demais departamentos de futebol feminino e masculino.

A valorização a quem merece

Andressinha recebeu o título de sócia do Pelotas pelo presidente do conselho, Moacir Elias.
(Foto: Leandro Lopes / Diário Popular)

Mesmo depois que deixaram de ter a relação entre jogadora e técnico, Andressinha e Marcos Planela seguiram em contato. Ele conta que é comum trocarem mensagens pelo WhatsApp após cada partida da atleta nos Estados Unidos. Marcos procura se manter sempre informado sobre o futebol feminino pelo Brasil e pelo mundo e é com grande satisfação que recebe notícias de sua amiga.

"Eu utilizo a Andressinha diariamente como referência. É uma referência dentro e fora de campo, por comportamento. É uma pessoa simples e acessível", afirmou Marcos na sala de imprensa que esteve tomada pelas meninas das categorias de base, que puderam conhecer um ídolo.

Andressinha destacou não possuir um ídolo máximo dentro do futebol. Para ela, o argentino Lionel Messi é o melhor do mundo. Ela comentou a honra de poder atuar ao lado de jogadoras como Marta e Cristiane, um sonho de quem as assistia pela televisão. A despedida de Formiga também foi muito emocionante para Andressinha. Foi na despedida da volante que a gaúcha marcou os dois gols na final. Ela afirmou que "ao final do jogo, não sabíamos se comemorávamos ou ficávamos tristes, pois era o último dela".

Outros grandes exemplos para Andressinha estão na família. Filha única, morava com seus pais e sua avó. O pai, Elizeu Machry foi quem mais acreditou na carreira da meio-campista. Segundo a filha, ele sempre incentivou e nunca a obrigou. No coração da eterna loba há um espaço especial ao primeiro técnico Planela: "Marcos é um guerreiro. Depois de 20 anos e ainda se dedicar tanto... Faltam mais pessoas, mais Marcos no mundo".

Para o próximo ano, o Brasil não deve disputar a Copa Algarve e só joga nas datas Fifa. Andressinha comunicou sua prioridade por grandes atuações no Houston. Em sua temporada de debutante, jogou em apenas sete partidas, mas já obteve premiação de revelação da Liga dos Estados Unidos. De acordo com a jogadora, é através de seu trabalho no clube que deve lutar para manter seu espaço na seleção.

Marcos Planela segue com suas funções abnegadas em Pelotas. Faz parte da coordenação do novo projeto da Seleção Gaúcha. A equipe em fundação disputaria o Campeonato Brasileiro na vaga do Brasil de Pelotas, mas o outro clube da cidade não a conseguiu pela Série B masculina. Planela criticou o modo de composição do Campeonato Brasileiro Feminino. Segundo ele, não foi a melhor forma de escolha dar as vagas para os clubes mais bem posicionados no futebol masculino. "É como você premiar uma mulher só pelo trabalho do marido", comentou.

Ele acredita em um avanço, mas com o olhar crítico e o pé atrás de quem vive o meio. Considera interessante o período de cinco meses de disputa do Brasileiro, mas critica a extinção da Copa do Brasil. As duas competições poderiam ter espaço no calendário.

Na temporada de 20 anos das Lobas, uma semifinal no estadual adulto, o título na categoria sub-17 e a possibilidade da conquista na categoria sub-15, com disputa adiada para janeiro. A luta diariamente por mais apoio, por pessoas que levem a sério o serviço e os contratos assinados. Para o encerramento do ano, a visita em instituições carentes no projeto Loba Solidária, que leva doações a orfanato.

O calendário de 2016 foi finalizado com os aplausos na visita de Andressinha. Ela atendeu a cada pequena lobinha e aos demais fãs. Com a humildade de quem pode alçar grandes voos, com o sorriso de quem valoriza as origens. Nem melhor e nem pior: mas diferente. Da Boca do Lobo e das Lobas,  por um mundo melhor. Por um mundo com mais Andressinhas e mais Marcos.

Sessão de autógrafos de Andressinha (Divulgação / Esporte Clube Pelotas)
Sessão de autógrafos de Andressinha (Divulgação / Esporte Clube Pelotas)
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