Rio Football Academy forma talentos brasileiros no futebol americano
Aluno da RFA em jogo contra o BH Eagles/Reprodução Jayson Braga

Uma dupla de meninos desfila suas chuteiras na grama munidos de camisas azuis estampadas com o nome de Beckham e o número 13. Nada de David, o uniforme pertence a Odell Beckham Jr., wide receiver (WR) do New York Giants, time de futebol americano. Apesar de ainda iniciante no Brasil, o esporte multiplica termos em inglês nas falas dos meninos de 8 a 21 anos que treinam na Rio Football Academy (RFA), única escolinha de futebol americano da cidade do Rio de Janeiro e que já começa a exportar jogadores para os vizinhos do Norte das Américas.

O evento inaugural visava ser apenas um dia de treinos para apresentar o esporte, em novembro de 2014, mas o clube do Zico viu cerca de 30 meninos vorazes pela bola oval. Portanto, Patrick Dutton, WR do Flamengo FA, e Ramon Martire (Mamão), quarterback (QB) do Botafogo Reptiles e da seleção brasileira (Brasil Onças), fundaram a RFA, um espaço para a molecada aprender o tradicional esporte americano.

Depois de dois anos, a escolinha está agora num condomínio na Barra da Tijuca, o Santa Mônica Residência, e conta com três treinadores: Samuel Saraiva, WR do Vasco da Gama Patriotas, Patrick e Mamão. O trio comanda mais de 100 alunos da categoria sub-21 e mais de 50 na sub-15. Os mais velhos treinam até três vezes por semana e os mais novos, duas, com trabalhos físico e técnico, às terças e quintas-feiras, às 17h, com 1h para cada propósito. Já aos sábados, o treino é variado e em três horários: 11h, 13h e 15h. 

Coaches Mamão, Dutton e Saraiva/ Reprodução RFA
Coaches Mamão, Dutton e Saraiva/ Reprodução RFA

"Acho que 60% dos atletas que chegam aqui nunca tiveram experiência com o esporte e só assistem à liga americana (NFL). Muitos nem sabem que existe um campeonato brasileiro. Do restante, 20% vêm por indicação de alguém dos times (profissionais) e 20% chega sabendo jogar. Quando um menino entre 8 e 14 anos entra no projeto, a gente tenta ensinar a base do futebol americano, ele aprende praticamente todas as posições. Quando faz 15 anos, continua treinando na categoria mais nova e começa alguns treinos com os mais velhos, para fazer a transição aos poucos. Quando sobe de categoria, ele escolhe uma posição, um pouco por indicação nossa e um pouco pelo que ele quer fazer", informa Dutton.

No Brasil, ainda não há campeonatos de base, pois poucos times conseguem se manter. A solução são os desafios, eventos em que o mandante faz as honras e a premiação. No dia 19 de outubro, a RFA foi até São Paulo para uma revanche contra o Corinthians Steamrollers. O primeiro jogo fora permeado de brigas com acusações de que os Steamrollers teriam escalado jogadores acima de 21 anos. 

O segundo encontro foi bem diferente. Os cariocas venceram por 34 a 6, placar que prova a evolução física e mental dos meninos, segundo Lucas Oliveira, free safety (FS) e capitão da defesa: “Não vou mentir, quando a gente vai jogar contra geralmente os caras são maiores, só que a gente acaba ganhando pela técnica. Ter um corpo menor, não significa que nossas porradas são mais fracas ”. Para consagrar um ano de sucesso, a RFA derrotou o BH Eagles por 43 x 0 em casa no dia 3 de dezembro. 

O Oliveira engrossa a lista de atletas da RFA que vai tentar a sorte no continente vizinho. Já são dois nos Estados Unidos e dois no Canadá. Ele se mudou depois de um ano treinando no Rio. Se inscreveu, mandou um vídeo com seus melhores momentos e foi selecionado. Lá, vai cursar os dois últimos anos do Ensino Médio e pretende seguir para uma universidade. "Comecei a jogar porque meus amigos me acharam rápido e acabei me interessando. Agora, busco por algo maior, porque aqui no Brasil o futebol americano é muito menor", disse o menino de 17 anos.

Lucas Oliveira em academia de universidade canadense/ Reprodução RFA
Lucas Oliveira em academia de universidade canadense/ Reprodução RFA

Oliveira pode se inspirar em seus amigos. No Canadá, um dos meninos da academia viveu uma história peculiar: o árbitro do jogo gostou da técnica do garoto e perguntou para o técnico sobre ele. Ao saber que era da RFA, o juiz disse que havia conhecido o trabalho da escola pelo Instagram. O time também está bem representado nos Estados Unidos, tem carioca com bolsa garantida para um time da primeira divisão do universitário, a principal janela para a National Football League.

A NFL é a liga esportiva mais bem-sucedida do mundo, com 17 dos 30 times mais ricos do planeta e média de público de 68.776 pessoas, em 2015. O único brasileiro na competição é Cairo Santos. O paulista de 25 anos é kicker do Kansas City Chiefs desde 2014. Segundo Dutton, essa posição é mais fácil para os brasileiros, que já crescem chutando bola, do que as outras que demandam mais fundamentos do esporte, algo que os americanos aprendem desde a infância.

"Para um brasileiro ter chance de jogar futebol americano, tem que sair daqui muito cedo e já ir com alguma base. Nossos meninos de 8 a 12 anos são os que têm mais chance. O Cairo é uma inspiração, principalmente para os mais velhos. Os outros não têm tanto espanto porque não acompanhavam NFL três anos atrás e não sabem o que é não ter um brasileiro", assegura o WR do Flamengo FA. 

Reprodução RFA
Reprodução RFA

Uma recente pesquisa da ESPN.com e da American Football International (AFI) apontou o Brasil como o terreno mais fértil para o futuro americano pela rápida expansão do esporte, com mais 8.500 praticantes e 108 equipes profissionais. A RFA pretende contribuir cada vez mais nesse avanço e as redes sociais são ferramentas essenciais para o crescimento do projeto. Com dez mil seguidores no Instagram e mais de cinco mil fãs no Facebook, muitos estrangeiros conhecem o trabalho que é feito no Rio. No dia das crianças, Cairo usou apenas imagens dos treinos da RFA para mostrar para o mundo como é ser uma criança que pratica futebol americano no Brasil. 

"Muitos meninos estão deixando outros esportes para praticar futebol americano, o que é um marco bem legal. Tenho certeza que essa geração vai ser muito acima da minha. O que eles aprendem aqui em dois meses, a gente levava dois anos, por falta de informação, de local para treinar, de quem ensinar. Acho que daqui a cinco anos, a gente vai ver uma evolução muito grande" conclui Dutton, orgulhoso e esperançoso com seu projeto.

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