VAVEL entrevista Pipo Derani. Brasileiro vai competir pela Ford nas 24 horas de Le Mans
(Fotos: FGCom, Ford e Onroak Automotive. Arte: Hugo Alves)

Tudo começou na penúltima etapa do European Le Mans Series em 2014. Pilotando um Oreca 03 pela equipe Murphy Prototypes, Pipo Derani chegou em terceiro lugar na penúltima etapa em Paul Ricard.

O resultado surpreendeu, e no circuito português de Estoril, um sexto lugar na classe LMP2, poderia ter desanimado o brasileiro. A ELMS, é conhecida pela alta competitividade. Foi o suficiente para dar um passo além. O Mundial de Endurance.

Agora com um Ligier #28 JS P2, na classe LMP2, Derani dividiu o protótipo com o colombiano Gustavo Yakamán e Ricardo González do México na temporada 2015. Sua equipe, a G-Drive Racing do Russo, Roman Rusinov, era parceira técnica da Onroak Automotive, fabricante do Ligier.

Na época, o brasileiro sabia que ao contrário da ELMS, o WEC era um passo importante e natural em sua carreira nas provas de longa duração. “É um momento muito emocionante para mim e eu não posso esperar para começar no Campeonato Mundial de Endurance da FIA”, disse Derani. “Eu já tenho um sentimento muito bom dentro da equipe e do pacote e o pacote que temos é muito forte, de fato. Eu vou estar correndo para terminar o que comecei em 2014, quando competi no ELMS. Meus objetivos e ambições com a minha nova equipe é vencer, mas tenho em mente que tenho muito a aprender e é com esta mentalidade que eu estou entrando no WEC. Estou confiante de que este será um ano muito bom para mim.” Completou.

O começo em 2014. Pilotando pela Murphy Prototypes na ELMS. (Foto: Divulgação)
O começo em 2014. Pilotando pela Murphy Prototypes na ELMS. (Foto: Divulgação)

Derani estava em uma equipe “de fábrica”. Com uma pilotagem agressiva, e sabendo conservar o carro, o brasileiro se destacou no campeonato. Das oito provas, o Ligier #28 subiu no pódio em seis oportunidades. Terminou na quarta colocação em Le Mans, e não completou a penúltima etapa em Shanghai. Com o resultado, Derani e seus companheiros, terminaram na terceira posição entre as equipes da classe LMP2.

Estrear nas 24 horas de Le Mans, foi o ponto alto de um ano cheio de novidades. “Foi uma experiência única. Nunca achei que fosse ficar tão cansado em um dia de corrida, como hoje. Uma experiência que só vivendo realmente a gente sabe como é. Estou muito feliz, mas estou ‘quebrado’ risos, mas foram bons pontos para o campeonato, porque terminar essa corrida era extremamente importante, porque a pontuação era dobrada, e agora é focar na briga pelo título nas próximas etapas”, comemorava Derani na época.

Para 2016, a parceria com a Onroak continuou, porém com outras cores. A G-Drive, acabou se associando com a Oreca, e Derani, foi transferido para a Extreme Speed Motorsports. O time americano, liderado por Scott Sharp, partia para seu segundo ano no WEC. O time com o icônico patrocínio da Tequila Patron, alinhou dois Ligier JS P2. Derani pilotou o #31 ao lado de Ryan Dalziel e Chris Cumming.

O ano foi de resultados prósperos. Das oito etapas disputadas, o Ligier #31, subiu no pódio em quatro oportunidades. Ao contrário de 2015, Le Mans foi uma prova para ser esquecida. Enfrentando problemas na suspensão, a 16º posição na classe LMP2, foi uma vitória.

A estreia no WEC, pela G-Drive em 2015. (Foto: AdrenalMedia)
A estreia no WEC, pela G-Drive em 2015. (Foto: AdrenalMedia)

Foi nos EUA que o brasileiro obteve seus mais importantes resultados até então. Derani fez história ao vencer as 24 horas de Daytona, abertura da IMSA e as 12 horas de Sebring, segunda etapa do certame. Ao lado de Scott Sharp, Ed Brown e Johannes van Overbeek, Derani,foi primordial para a obtenção da vitória. O gosto de dever cumprido foi ainda maior, por conta do sempre controverso BoP, imposto pela IMSA, em detrimento aos protótipos DPs. Mesmo mais lentos, e tecnologicamente inferiores, acabaram dominando a temporada.

Quando conquistou a vitória em Sebring, o brasileiro não conseguia acreditar nos resultados. “Foi sensacional! Inacreditável vencer Daytona e Sebring no mesmo ano”, celebrou Derani. “Foi uma corrida extremamente difícil, começando no seco, depois no molhado e a paralisação com a bandeira vermelha. Também fiz um stint longo com pneus slicks na chuva e depois, no final, as duas últimas horas foram pura emoção”, lembrou.

Para 2017, Derani vai competir de forma integral o IMSA Weathertech nos Estados Unidos. Alinhando um Nissan DPi, baseado na nova versão do Ligier JS P217, o brasileiro, pode se considerar piloto de fábrica da Nissan, nesta nova era que, dos campeonatos organizados pela ACO.

Uma segunda vitória, não foi possível. Enfrentando problemas com o turbo do motor Nissan, a melhor colocação possível, foi um quarto lugar. Derani dividiu o DPi com Scott Sharp e Ryan Dalziel.Ao contrário do WEC, que limitou a classe LMP2, com apenas 4 fabricantes, autorizados a fornecer protótipos (Oreca, Onroak Automotive, Dallara e Riley) um de motor (Gibson), nos EUA, a IMSA, tem uma maior parcimônia quanto aos seus carros.

Brasileiro foi o responsável pela vitória do primeiro LMP2 no quintal dos DP. (Foto: Divulgação FGCom)
Brasileiro foi o responsável pela vitória do primeiro LMP2 no quintal dos DP. (Foto: Divulgação FGCom)

Os fabricantes, podem desenvolver tanto motor, quanto carenagem, em cima de um dos quatro chassis homologados pela ACO. A Nissan, volta a competir de forma oficial, desde 2015, quando o Nissan GT-R LM NISMO, acabou não tendo o desempenho esperado pela equipe, que abandonou o projeto.

Já no WEC, o brasileiro foi confirmado como piloto da equipe Ford Chip Ganassi Racing, em três etapas do Mundial de Endurance (Silverstone, SPA-Francorchamps e 24 horas de Le Mans). Derani vai partilhar o Ford #67 com Andy Priaulx e Harry Tincknell.

Em entrevista exclusiva para a Vavel Brasil, Derani revela detalhes desta nova fase da carreira, bastidores do desenvolvimento de protótipos, planos para o futuro e métodos de preparação para a prova.

Vavel: Pipo, sua contratação pela Ford, para disputar as 24 horas de Le Mans, e algumas etapas do WEC, mostra o bom momento que você passa pela carreira. A Ford, venceu em Le Mans 2016, venceu Daytona este ano. As chances de uma vitória na classe GTE-PRO são grandes. Como você está encarando essa mudança na carreira?

Pipo Derani: Sem dúvida, é uma oportunidade incrível. Desde que comecei a correr sonhava um dia estar numa equipe como a Ford Chip Ganassi Racing. Encaro com muita gratidão a todos da equipe por esta oportunidade e muito animado para ajuda-los a manter estes bons resultados, me esforçando ao máximo para ajudar a equipe a lutar por mais títulos este ano.

Vavel: Você vai dividir o Ford #67 com os britânicos Andy Priaulx e Harry Tincknell. Já se iniciou alguma espécie de preparação, testes em pista?

Pipo Derani: Ainda não testei com o carro, mas em breve participarei de testes de pré-temporada.

Vavel Brasil: Pipo, em 2016, as vitórias nas 24 horas de Daytona e 12 horas de Sebring, em cima dos Daytona Prototypes, surpreenderam até a IMSA, que por conta do BoP, acabava privilegiando os DP. Este ano com a nova classe DPi, o desempenho do novo Nissan DPi, ficou aquém do esperado. Faltou desenvolvimento, ou os protótipos Cadillac foram de alguma forma beneficiados pelo BoP?

Pipo Derani: Não acho que ficamos aquém do esperado. Tivemos um problema de turbo praticamente a corrida inteira que acabou mascarando nossa performance verdadeira. Além disso, com certeza o BoP não estava muito bom para o Nissan dando uma grande vantagem aos Cadillacs neste começo de temporada. Mas com o tempo, com certeza, o IMSA vai equilibrar o BoP de forma justa. Precisam apenas de um pouco mais de tempo.

Um novo desafio em 2017. Disputar Le Mans pela Ford. (Foto: Ford Performance)
Um novo desafio em 2017. Disputar Le Mans pela Ford. (Foto: Ford Performance)

Vavel: Ao contrário de muitos jovens pilotos que buscam um reconhecimento na Fórmula 1, você acabou indo para o mundo do endurance. Falta incentivo, ou mais divulgação para que mais pilotos descubram que pode haver uma carreira de sucesso, longe da F1?

Pipo Derani: A “cultura” da Fórmula 1 ainda é muito forte, mas hoje já vemos mais garotos no kart de olho em outras categorias. Eu fiz o caminho de fórmula até chegar um ponto em que a Fórmula 1 se tornou algo distante e felizmente tive a chance no endurance e me encontrei. Mas isso não significa que não correria de fórmula outra vez. Se for uma oportunidade boa, numa equipe competitiva, eu correria novamente.

Vavel: Você teve a oportunidade de pilotar em 2016, com três diferentes fornecedores de pneus (Michelin, Dunlop e Continental). Qual a principal característica de cada um. A adaptação do Ligier para compostos da Continental, utilizados na IMSA foi fácil?

Pipo Derani: No IMSA, não temos a opção de utilizar um outro pneu a não ser a Continental. Não é um pneu bom, mas é igual para todos. No WEC, andei com o Dunlop e Michelin, cada um com seus pontos forte e fraco, a Dunlop com uma vantagem em pista seca e o grande suporte técnico dado à categoria LMP2. A Michelin com um pneu de chuva muito bom.

Vavel: Qual é sua preparação nos dias que antecedem uma prova?

Pipo Derani: Sempre tomo conta da minha alimentação, principalmente chegando perto das corridas. Acaba fazendo uma grande diferença em provas longas.

Vavel: Muitos pilotos utilizam simuladores para conhecer uma pista ou aprimorar suas técnicas. Este tipo de equipamento faz parte da sua preparação?

Pipo Derani: Já fiz na época de Fórmula, não é algo que faça parte mais da minha preparação.

Vavel: Caso não tivesse obtido sucesso no endurance, qual outra categoria gostaria de participar?

Pipo Derani: É uma pergunta difícil, existem várias categorias as quais um piloto pode se tornar profissional. O Endurance me deu esta oportunidade e estou muito feliz. Talvez a Formula Indy pela forma com que o automobilismo é gerenciado na América poderia ser algo interessante.

Vavel: A saída da Audi e da Rebellion Racing, deixou uma lacuna considerável na classe LMP1 do WEC. A falta de interesse das equipes, pode estar minando a classe, principalmente com mais fabricantes com a BMW, optando pela classe GT?

Pipo Derani: Sem dúvida, a saída da Audi e da Rebellion balançou a categoria LMP1. Talvez a GT seja o futuro do WEC principalmente agora após a FIA aprovar o novo título Mundial para a GTE Pro no WEC.

Vavel: Existem conversas sobre uma nova participação nas 24 horas de SPA?

Pipo Derani: Por enquanto não, mas é uma prova que gostaria de voltar a participar!

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