Homens e Mulheres deveriam receber a mesma premiação? A verdade sobre a igualdade no tênis

Recentemente, o tenista francês Gilles Simon - 15º colocado no ranking da ATP - declarou em entrevista ao jornal alemão "Tages Anzeiger" que as mulheres da WTA não deveriam receber o mesmo que os homens da ATP. “As mulheres não geram a mesma quantidade de dinheiro que os homens, há 50 indicadores que o comprovam.” disse Simon e completou: "não é normal os prêmios repartirem-se de forma igual. Houve um tempo em que o tênis feminino era fantástico: quando jogavam Graf, Seles, Hingis, Clijsters, Henin, Capriati e as irmãs Williams. Depois desse tempo chegou a era de Federer, Nadal, Djokovic e Murray”.


Essa declaração gerou polêmica e discussão tanto fora quanto dentro das quatro linhas. Em relação à quantidade de dinheiro gerado por ambos, é dito que, como os homens jogam em torneios Grand Slam partidas melhores de cinco sets, enquanto as mulheres melhor de três sets, os tenistas da ATP deveriam receber mais, visto que passam mais tempo em quadra e, consequentemente, há um desgaste físico maior. A máxima utilizada para explicar essa lógica é simples: "Pagamento correspondente ao tempo jogado".

"Pagamento correspondente ao tempo jogado"

Porém, é necessário considerar que em média, biologicamente falando, os homens possuem uma força física maior que as mulheres. Desse modo, os indivíduos do sexo masculino estão aptos a realizar um esforço maior, isso é, jogar mais tempo que os do sexo feminino. Por isso que, como já é tradição no tênis, nos Majors os homens disputam partidas melhor de cinco sets, enquanto as mulheres, melhor de três.

Por conta dessa diferença física, diz-se que não existem partidas épicas no circuito feminino, enquanto estas estão presentes no masculino. Esse fato somado a outros fatores - como a atual geração do "Big 4" na ATP - levou Gilles Simon dizer que “As mulheres não geram a mesma quantidade de dinheiro que os homens".

“As mulheres não geram a mesma quantidade de dinheiro que os homens"

Esse fato pode até provar-se verídico, no entanto, a situação parece mudar. Na primeira edição quando o torneio de Wimbledon começou a dar premiações aos campeões foi em 1968, quando a vencedora da chave feminina - a norte americana Billie Jean King - recebeu apenas um terço da quantia que o campeão masculino - o australiano Rod Laver - recebeu. Aproximadamente 40 anos depois, em 2007, o Grand Slam inglês começou à conceder a mesma premiação tanto para os homens quanto para as mulheres.

Nas edições do US Open de 2013 e 2014, a final feminina teve índices de audiência maiores que a masculina

Ademais, nas edições do US Open de 2013 e 2014, a final feminina teve índices de audiência maiores que a masculina. De acordo com a empresa norte americana "Sports Business Daily", em 2013 a decisão entre a tenista da casa, Serena Williams, e Victoria Azarenka da Bielorússia atingiu a taxa de 4.9 pontos, enquanto o jogo entre o sérvio Novak Djokovic e Rafael Nadal da Espanha, atingiu apenas 2.8 pontos. No ano seguinte, a partida entre a mesma Serena Williams e a dinamarquesa Caroline Wozniacki teve mais telespectadores que a final entre o japonês Kei Nishikori e Marin Clic da Croácia. Mais recentemente na edição de 2015, os ingressos para a decisão feminina do Grand Slam norte americano se esgotaram antes dos tickets para a masculina.

Além disso, segundo um levantamento realizado pela companhia "SMG", utilizando os dados da "Nielsen", a audiência televisiva dos jogos da WTA no ano passado - em nível global - aumentaram 22,5% em relação ao ano de 2013.

Esses dados demonstram que, a cada ano que se passa, o tênis feminino vem se igualando - e em alguns casos, até superando o masculino. Por isso, foi assinado recentemente pela WTA, um contrato televisivo com o valor de US$ 525 milhões - um valor recorde na história.

Nesse contexto de mudança, a CEO da WTA, Stacey Allaster, recentemente declarou: "O tênis, inclusive os torneios Grand Slam, estão ligados à nossa sociedade moderna e progressiva em termos de igualdade. É inacreditável que, em pleno ano de 2014, ainda existam pessoas que pensem o contrário. É justamente por conta desses indivíduos que a WTA foi criada e essa sempre será a nossa luta".

"O tênis, inclusive os torneios Grand Slam, estão ligados à nossa sociedade moderna e progressiva em termos de igualdade."

A principal razão para a declaração de Allaster são pessoas como o ucraniano Sergiy Stakhovsky que disse em entrevista no início do ano que, a questão principal para ele refutar a igualdade entre premiações é que o tênis, assim como qualquer outro esporte, é um meio de entreterimento. Por isso, os tenistas deveriam ganhar diretamente do público do mesmo modo que os músicos recebem. O tenista da Ucrânia acredita que, se o pagamento fosse feito dessa maneira os tenistas da ATP receberiam muito mais que as tenistas da WTA. Entretanto, essa visão implica em considerar tenistas apenas artistas - não como trabalhadores - desse modo desconsidera-se que tanto as mulheres quanto os homens possuem a mesma rotina de trabalho e, mais do que isso, esforço diário. Além de igual probabilidade de complicações físicas, como lesões, no futuro.

"Não é possível acreditar que, ainda em 2014 existam atletas, principalmente mulheres, que não recebam o quanto fazem por merecer. Nós precisamos de uma mudança brusca. Ainda há muito a discutir sobre esse tema. Precisamos de pessoas para liderar e investir." completou Allester. Um dos melhores exemplos históricos é a tenista norte americana Billie Jean King que, mesmo décadas depois de se aposentar, ainda é lembrada como símbolo da luta pela igualdade de gênero. Durante sua carreira, a tenista dos Estados Unidos realizou muitas ações na busca por esse ideal, inclusive protagonizando em 1973 a "Batalha dos Sexos", jogo no qual ela enfrentou o compatriota Bobby Riggs, com o objetivo de conscientizar e promover a ideia de igualdade dentre os tenistas e seus fãs.

Billien Jean King e Bobby Riggs se cumprimentam na "Batalha dos Sexos"

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