Bélgica: olhar para o passado é essencial para aproveitar os talentos do presente

Que você já deve estar farto de ouvir falar dessa tal de ótima geração belga, isso nós já sabemos.  Porém, o punhado de bons jogadores do time atual não deve conseguir pelo puro e simples talento que esbanja algo mais no Mundial: para se dar bem, Bélgica tem que fazer do passado um ensinamento, e isso pode ser mais simples do que se imagina.

Técnico do time atual, Marc Wilmots viveu a fase de decadência da primeira grande geração, sob a desconfiança de uma torcida extenuada pelo excesso de expectativa e a falta de resultados sólidos. Um vice na Euro de 1980 e o quarto lugar na Copa do Mundo de 1986 foram os poucos marcos de um grupo de jogadores cunhados pelo quase.

Durante os primeiros tempos de ouro da Bélgica que se criaram os grandes jogadores da história do futebol local. De Eric Gerets a Enzo Scifo, de Georges Grün a Bart Goor, de Franky van der Elst a Jan Ceulemans. Agora, um time que conta com o goleiro colchonero Courtois, do capitão citizen Kompany, o cabeludo Fellaini e o talentoso dez Eden Hazard tenta deixar sua marca, não sendo apenas mais um combinado de bons jogadores.

Nas linhas a seguir você confere uma cronologia do talento belga, por onde passa o caminho pelo sucesso no Brasil e quem devem ser os responsáveis por fazer esse time andar.

Anos dourados

Entre as edições de 1982 e 2002, a Bélgica marcou presença em todas as Copas do Mundo. O ponto alto dessa boa fase do futebol local se deu, principalmente, logo no início da década de 80, com o vice-campeonato da Eurocopa. Sob o comando do treinador Guy Thys, a equipe passou em primeiro em um grupo que tinha ainda Itália, Inglaterra e Espanha; na decisão, derrota para a Alemanha Ocidental, o que não necessariamente minimizou o feito - muito pelo contrário.

Bélgica participou de todas as Copas entre 1982 e 2002

Nos anos seguintes, muitas Copas do Mundo, e em grande parte delas, o time avançou pelo menos às oitavas. Mesmo após a saída do até hoje emblemático Thys, outros treinadores assumiram, e, de certa forma, até que conseguiram manter o bom desempenho, como Paul Van Himst e Robert Waseige. Em 1986 um sabor especial, quando os belgas só foram freados pela Argentina, futura campeã, nas semifinais.

Se a década de 80 foi toda pautada em boas campanhas onde o time falhou justo quando o talento deveria se sobressair, as Copas de 1990, 1994 e 1998 foram diferentes. Em 90, na Itália, se classificou para a segunda fase, mas caiu para a Inglaterra nas oitavas, na prorrogação, com um gol a um minuto do fim. Em 94, derrota para a Alemanha por 3 a 2 em grande jogo de Völler, enquanto em 98, sequer passou da fase de grupos, com três empates em três jogos.

As decepções de um time que combinava jogadores de bom desempenho por clubes mas não encaixaram colocaram uma pressão ainda maior sobre a campanha em 2002. Com um elenco envelhecido, e já somente com apenas os traços mais realçados da boa geração, caiu nas oitavas diante do Brasil; gols de Rivaldo e Ronaldo foram o início de um problema que viria a durar por longos anos.

Recomeço marcado por decepções

Para dar uma nova cara ao time, a Federação Belga resolveu apostar em Aimé Anthuenis, técnico em evidência no futebol local, vindo de seguidos títulos nacionais, por Genk e Anderlecht. Conhecedor das equipes de menor apelo e tido como um estudioso da base, apesar de um nome pouco conhecido, pareceu ser o cara certo para guiar a reconstrução. E foi só uma impressão.

Anthuenis não conseguiu levar a Bélgica à Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, e isso lhe custou o cargo. O técnico então passou o boné para René Vandereycken, este com mais experiência no futebol internacional, o que não foi suficiente pra resolver os problemas. Alvo de duras críticas pelo estilo de jogo defensivo, não garantiu vaga nem para a Euro de 2008, nem para a Copa de 2010 - terminando em quarto lugar em seu grupo das Eliminatórias. A vexatória campanha fatalmente culminou em outra troca de comando.

Leekens iniciou projeto que resultaria em vaga na Copa

De olho em 2014, porém com mais uma Euro pela frente, os belgas sabiam que uma geração mais técnica e melhor preparada estava por vir. Coube a Georges Leekens voltar ao comando técnico, posto que havia ocupado entre 1997 e 1999, para recolocar o time nos eixos. Leekens apostou alto, e pagou pelo excesso de coragem, o que não necessariamente significa que não tenha pavimentado o terreno para o próximo treinador, um dos destaques de 2002, o ex-meia Marc Wilmots.

Leekens trocou a seleção pelo Brugges consciente do que havia armado. "Montei um time excelente, fiz o melhor que puder, e creio ter colocado a equipe no caminho certo. Sei que cumpri 90% do que era necessário. Agora temos que esperar pra ver se a vaga para 2014 será alcançada", disse em 2012, confiante e ciente do que havia pela frente. Sem a vaga na Euro, Wilmots, seu assistente, se tornou o novo comandante.

Sob a batuta de Wilmots, a seleção belga chegou ao quinto lugar no ranking da Fifa, recorde histórico, e se classificou em primeiro no grupo das Eliminatórias. Com mais de um bom jogador pra cada posição, o elenco foi muito bem utilizado e moldado para atender às necessidades, e talvez esse tenha sido um dos grandes méritos do treinador.

História viva no comando, e com uma prorrogação inesperada na carreira

Ídolo de Standard Liège (BEL) e Schalke 04 (ALE), Wilmots foi um meia armador de sucesso. Na seleção começou cedo, passando pelos times sub-19 e sub-21 até chegar aos profissionais, onde estreou em 1990, quando foi chamado para sua primeira Copa do Mundo; não entrou em campo, mas viria a entrar nas outras três seguintes, jogando em 1994, 1998 e 2002. Foram ao todo 70 partidas pela Bélgica e 28 gols marcados; é até hoje o belga com mais tentos em Copas, com quatro anotados.

O currículo já denuncia a importância de Marc Wilmots para o futebol belga, porém, o próprio ex-meia admite que não era como treinador que pensava continuar sua carreira. Ao jornalista Lucas Rilke, do periódico alemão Spiegel, chegou a confessar que, na verdade, planejava apenas permanecer no senado da Bélgica: “Me filiei ao partido liberal porque pensei em entrar na política, esse era meu plano, fui até eleito senador. Nunca quis ser treinador, mas gosto de ajudar. Quando eu era auxiliar e meu antecessor saiu [Leeskens], sobrou pra mim. Eu já estava lá, não tinha como fugir do desafio.”

Apesar de ter deixado a vaga no senado em 2005 e sofrido com as críticas, acusado de debandar de um posto que lhe tinha sido concedido por direito, os seus planos de continuar na política seguem de pé, mas foco agora é a seleção. Com contrato até janeiro do próximo ano, sequer sabe se vai permanecer para 2018, quando acredita que o time belga estará no auge.

 “Nunca quis ser treinador, mas sobrou pra mim”

O técnico, que afirmou ainda “que o objetivo maior para 2014, se classificar, já foi atingido, e o que vier daqui pra frente é lição a ser assimilada”, conta com outro velho conhecido do torcedor belga pra comandar o time: Vital Borkelmans, ex-defensor. Agora auxiliar de Wilmots, apesar de sempre ter sido bom reserva, ficou por quase uma década no grupo da Bélgica. Convocado de 1989 a 1998, disputou 22 jogos pela seleção e conhece bem o sabor da decepção.

Nenhum dos dois viveu o momento passageiro de conquistas, ainda que não em forma de títulos, mas de resultados, na década de 80, mas sabem bem o que é fracassar quando se é esperado um desempenho acima da média. A dupla, agora, tem uma grande oportunidade para alcançar o que não conseguiu dentro de campo, e evitar que outra geração caia nas armadilhas do talento por si só.

Semelhanças com o passado não se limitam ao contexto

Toda comparação é odiosa, diria o filósofo. Porém, em dados momentos, com as dadas proporções guardadas e a distância, comparar faz bem e ajuda um tanto a exemplificar questões. No caso da Bélgica, o espelho pra que os talentos de hoje tenham ou não o mesmo fim que os de ontem está justamente no passado recente do time.

Na meta, uma esperança: já são três temporadas de Thibaut Courtois brilhando com a camisa do Atlético de Madrid. A atual, aliás, termina com o arqueiro chegando à final da Uefa Champions League e indo para uma janela de transferências provocante no que diz respeito ao seu retorno ao Chelsea, desejo de jogar, concorrência com Petr Cech e preferência de José Mourinho. Mas o que interessa mesmo é o quanto que o jogador, que individualmente tem tido atuações impecáveis, pode ajudar a Bélgica a romper barreiras.  

Em 1994, Michel Preud'homme fazia o caminho inverso; já caminhando para a reta final de sua carreira quando conseguiu se consagrar na meta belga. "Saint Michel" por muito tempo ficou na sombra de Pfaff, até que em 1990 assumiu a titularidade e em 1994 recebeu o troféu Yashin de melhor goleiro da Copa do Mundo daquele ano. Chegou à Copa com 17 jogos na meta da seleção, enquanto Courtois chega com 16 - e 13 anos a menos.

La Louvière, a fábrica de craques deles: região industrial e centro da atividade econômica da Bélgica, deu ao futebol local a maior estrela da década de 90 e também o grande nome para esta Copa do Mundo. Mais do que um lugar comum, Enzo Scifo e Eden Hazard carregam tantas outras semelhanças que mais poderiam parecer delírios do que mera comparação.

"Não sou Scifo, e nem quero ser"

Scifo estreou na seleção belga com apenas 18 anos; já Hazard, a dois meses de completar essa idade. Se o primeiro recebeu a alcunha de "Pequeno Pelé", o mais jovem foi chamado de "Novo Scifo", e não a toa: a distância e sem saber quem é quem, não tem como negar que o estilo de jogo, os dribles, e o perfil são muito similares. Apesar das comparações que parecem ser indissociáveis, Eden tenta, aos poucos, se livrar das comparações: "Não sou Scifo e nem quero ser. As pessoas tem que se lembrar de mim como Eden Hazard, e é por isso que eu jogo", comentou.

Caso queira se livrar da alcunha de novo Scifo, para Hazard basta um final diferente de seu antecessor.

Talentos com raízes no Zaire: o que um dia já foi o Congo Belga e hoje é conhecido como Zaire também deixa seu legado na seleção nacional. Filhos de nativos, os irmãos Mbo e Émile Mpenza tiveram uma carreira apagada com a camisa belga. Nome da vez, Romelu Lukaku luta com todas suas forças – e uma pitada de sorte – pra conseguir mais.

Seu pai, Roger, chegou até a atuar na seleção do Zaire, mas foi na Bélgica que a família Lukaku encontrou seu espaço no futebol. Da base do Anderlecht ao sucesso na Premier League, parece ter se livrado das comparações com Drogba, pelo estilo de jogo e porte físico, e conta com a lesão de Benteke para deixar o banco de reservas, companheiro inseparável dos irmãos Mpenza.

Para o centroavante, a camisa 9 e uma titularidade que lhe cai no colo. Para os belgas, quem sabe um centroavante que faça valer a aposta e corresponda com gols; e quanto mais decisivos, melhor.

Caminho para não se decepcionar passa por não criar ilusões

Achar que o talento belga vai ser suficiente para que a equipe atue de forma avassaladora no Brasil atinge o limite de inocência. Como esperado, e como costuma ser em Copas do Mundo, o time bem organizado e com alternativas tecnicamente diferentes tem grandes chances de não fazer feio, o que não significa que transforme os desafios em amistosos.

Primeira fase traz desafios brandos; depois, dificuldade tende a aumentar

Na primeira fase, a Argélia deve ser o único adversário mais frágil. Experiente (ou envelhecido), o time da Rússia pode fazer jogo, assim como contra Portugal de Cristiano Ronaldo nas Eliminatórias. Já a Coreia do Sul, perigosa, veloz e com jogadores técnicos, também está distante de ser presa fácil.

Mesmo com as inevitáveis adversidades, tudo indica que a Bélgica vá sim passar da primeira fase, e daí em diante que a interrogação surge. Cruzamento é com o grupo que tem Alemanha, Portugal, Gana e Estados Unidos: qualquer adversário a partir das oitavas irá exigir o algo mais dos belgas, e é aí que o trabalho de Wilmots e Borkelmans será definitivamente posto a prova.

Muito provavelmente jogando com quatro zagueiros de origem na linha de trás e apostando, principalmente, no brilho de Hazard e eficiência de Lukaku, a Bélgica tem o mapa, mas ainda não conhece o caminho. A jornada no Brasil não permite testes e irá exigir que os garotos sejam homens de verdade; e se não for agora, que seja feita então a análise de Wilmots: quem sabe em 2018.

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