Intensidade, coletividade e catenaccio na vitória da Juventus sobre o Real Madrid

Massimiliano Allegri desembarcou no Juventus Stadium com a amarga tarefa de tentar melhorar o já dominante time moldado por Antonio Conte, hoje técnico da Azzurra. Depois de uma passagem meio sem sal pelo Milan (um título de expressão - Serie A -, 51% de aproveitamento), muitos não apostavam em seu trabalho, mas o italiano vem ganhando os críticos com bastante autoridade.

A primeira - e principal - mudança que promoveu foi a do esquema tático: do vitorioso 3-5-2/5-3-2 para um 4-3-1-2, ou 4-4-2 diamante, como preferir. A intenção era dominar mais a posse de bola e ter um homem extra no meio, facilitando a criação por esse setor. E deu certo. Para o confronto diante do perigoso Real Madrid, porém, ambos os sistemas foram utilizados em uma demonstração de maturidade e universalidade tática tanto do treinador quanto da equipe.

Ao contrário do que se pode observar durante a temporada e até mesmo a previsão deste que vos fala, a Juventus fez uso mais intenso da pressão, recuperando a bola no meio ou no campo ofensivo em algumas oportunidades. O Real também mostrou mais sede ao pote do que o habitual - quando geralmente espera o erro do adversário e marca em bloco médio/baixo - e, principalmente Gareth Bale avançava (Cristiano Ronaldo foi mais estático) na direção do esférico enquanto a linha de quatro atrás deles fazia ‘sombra’ na cobertura e focava mais nas possíveis linhas de passe.

Foi mais uma correria desnecessária do que um pressing bem executado. Kroos tinha a função de anular os efeitos de Pirlo, mas marcava apenas por zona e seus companheiros não seguiam a missão, dando liberdade ao regista italiano para fazer o que mais gosta: ditar o ritmo, lançar para a movimentação coordenada dos atacantes, comandar a partida lá de trás.

Passes de Pirlo no primeiro tempo: com inversões e lançamentos, desgastou a linha de meio-campo do Real

Os interiores desempenharam funções diferentes. Enquanto Marchisio era um passador e uma ‘base estrutural’ para as jogadas, se posicionando muitas vezes no halfspace* direito, Sturaro partia do lado esquerdo de Pirlo para o campo ofensivo, tendo o papel de receber tais bolas lançadas e tentar avançar desde as costas de Sergio Ramos - sem sucesso. Lichtsteiner foi uma das principais armas para a criação, se beneficiando da frágil marcação de Marcelo. Combinando com meias e procurando - com êxito - os centroavantes, foi um dos mais influentes na primeira etapa.

Os madrilenhos não encontravam outro recurso a não ser a finalização de média/longa distância para combater o bloco baixo (quando o adversário quebrava as primeiras onda de pressão) da Juve e só conseguiram infiltrar a linha defensiva depois dos 25 minutos. James não completava passes verticais, sendo restringido a inversões de jogo e toques laterais, enquanto Isco era mais agudo - alcançava Marcelo com um pouco mais de profundidade, mas parava na boa negação de espaços central implantada por Allegri.

*Halfspace: os dois espaços entre o centro do campo e as laterais. Oferece campo de visão privilegiado e uma marcação frágil para quem se posiciona neles. O termo vem do alemão Halbraum (tradução livre: metade do espaço/semi espaço) e vem sendo utilizado por treinadores importantes e em cursos da Federação Alemã.

Para o segundo tempo, Chicharito no lugar de Isco e a volta para o 4-3-3 que deu relativo sucesso ao Real. Tevez marcou da marca da cal, porém, e desde então o que se pode observar foi um típico catenaccio italiano. Devido também à entrada de Barzagli no lugar de Sturaro, alterando a formação para um 5-3-2/3-5-2 utilizado na época de Antonio Conte. Muitas vezes eram 11 homens alvinegros atrás da bola, compactados tanto horizontal quanto verticalmente, à la Mourinho: tendo o controle da partida sem a bola.

Manipulando os espaços e fazendo com que um dos melhores ataques do mundo seja reduzido à tentativas falhas de chuveirinho, inúmeros cruzamentos e, quando recuperada a posse, uma saída inteligente - e rápida. Llorente, que entrou no final, quase marcou em um desses contragolpes. Arturo Vidal, que começou como trequartista e se tornou interior no decorrer do embate, merece um capítulo a parte - esteve em toda parte do campo, foi produtivo com e sem a bola e completou mais interceptações que qualquer outro jogador.

Contando com conduções dos zagueiros - principalmente Bonucci, que foi o 'líbero' do trio - para provocar pressão e abrir espaços atrás, o chileno frequentemente recebia com uma larga faixa para explorar e foi motivo de dor de cabeça para Sergio Ramos, Kroos e eventualmente o time adversário inteiro, tamanha sua influência dentro das quatro linhas. Para Ancelotti, também; o experiente treinador certamente aprendeu uma lição com o desempenho do beque espanhol como meia e terá mais trabalho do que Allegri, que calou os críticos montou um coletivo taticamente sensacional.

Em um ótimo confronto, teve de tudo: intensidade, qualidade, gols e emoção. O curriculo e o histórico de ambos os treinadores, porém, nos leva a acreditar que os 90 minutos no Santiago Bernabéu serão ainda melhores.​

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