Como um homem mudou a história de um país

O ano de 2015 foi marcado por acontecimentos e sentimentos negativos. Não é preciso listar a sequência de eventos, intolerância, preconceito e inúmeros outros fatores, já que tivemos que conviver com isso quase vinte e quatro horas por dia.

E, quem considera o futebol como apenas mais um assunto sem importância, onde 22 pessoas correm atrás de uma bola, está completamente enganado. Já vimos antes esse esporte mudar um país e, quem sabe com este exemplo, ele possa ajudar a mudar o mundo também.

O que Didier Drogba já fez dentro dos gramados não é difícil de se encontrar. Ídolo do Chelsea, o atacante conquistou a Premier League quatro vezes (2004-05, 2005-06, 2009-10 e 2014-15), a Copa da Liga Inglesa três (2004-05, 2006-07 e 2014-15), a FA Cup quatro (2006-07, 2008-09, 2009-10, 2011-12), a Community Shield duas (2005 e 2009) e, o mais importante, uma UEFA Champions League, onde se sagrou herói do título.

Didier é, sem dúvidas, o maior jogador da história da Costa do Marfim. Ele comandou seus companheiros à classificação da primeira Copa do Mundo do país em 2006, além de participar dos Mundiais de 2010 e 2014. Pelo fraco elenco, sua seleção nunca conseguiu passar da primeira fase da competição e, após a Copa no Brasil, ele anunciou sua aposentadoria do time nacional.

Eu não consigo expressar o quanto agradeço aos fãs por todo o amor e apoio recebidos durante esses anos. Todos os meus gols, todos os meus limites, todas as nossas vitórias são para vocês - eu amo vocês”, declarou na época.

Mas sua importância para a Costa do Marfim – e para o mundo, por que não – ultrapassa as barreiras futebolísticas. Em uma nação que sempre foi dividida por guerras e conflitos étnicos, Didier Drogba conseguiu silenciar armas e promover o diálogo, se tornando o símbolo da paz de uma população arrasada.

Em dezembro de 1999, o presidente da época sofreu um golpe de Estado e foi destituído, dando início a um período tenso e, mais tarde, em setembro de 2002, a uma guerra civil. Resumidamente, o país se dividiu em dois, com o norte do território sendo controlado por rebeldes que apontaram as armas contra o outro lado, o do governo oficial. Após a declaração do conflito, em três anos, foram mais de 3 mil mortos e 700 mil refugiados. Não havia possibilidade de acordo de paz e o país estava cada vez mais separado.

Nessa época (2005), Didier Drogba fazia sua segunda temporada pelo Chelsea, da Inglaterra. Aos 28 anos, ele dava a um povo tão abalado pelo massacre no lugar onde viviam, um motivo para se orgulhar. Sabendo disso, o atacante, em outubro daquele ano, se reuniu com seus companheiros no vestiário após uma vitória da Seleção sobre Sudão – que garantiu a classificação para a Copa do Mundo de 2006 –, e todos gravaram uma mensagem para o povo marfinense.

"Homens e mulheres da Costa do Marfim. Do norte, do sul, leste e oeste. Nós provamos hoje que todos os marfinenses podem coexistir e jogar juntos com um objetivo em comum: se classificar para a Copa do Mundo.

Nós prometemos a vocês que a celebração iria unir o povo. Hoje, nós imploramos a vocês, de joelhos (todos os jogadores se ajoelharam diante da câmera): perdoem! Perdoem! Perdoem! Um país tão cheio de riquezas na África não pode se acabar em guerra. Por favor, deponham suas armas, organizem eleições e as coisas vão melhorar. Nós queremos nos divertir, então parem de disparar suas armas. Queremos jogar futebol, então parem de disparar suas armas".

A partir daquele momento tudo começou a mudar. O diálogo foi aberto e os líderes consideraram acabar com as armas. A Costa do Marfim havia ganho uma importante figura.

Em 2006, Drogba ganhou a Bola de Ouro da África, que premia o melhor africano da temporada. Ele levou a taça a Abdijam, capital da Costa do Marfim e mostrou ao então presidente, Laurent Gbagbo. Declarando vontade de reconquistar a paz no país, Didier convidou Gbagbo a ir com ele mostrar o troféu ao povo de Bouaké, capital controlada pelos rebeldes. E, então, contrariando as expectativas da maioria, ele aceitou.

Era a primeira vez que uma autoridade do governo central pisava ali desde 2002 e o presidente foi recebido por milhares de pessoas que celebravam o ato de paz. Esse foi o começo para o acordo que, no ano seguinte, foi assinado; cessar fogo. Ele tinha conseguido. "Isso não vai parar por aqui. Toda a seleção virá aqui, iremos jogar aqui", avisou Drogba.

Há anos o time não disputava um jogo oficial no norte do país. Mas, em junho de 2007, essa barreira também foi quebrada. Pelas eliminatórias da Copa Africana das Nações, a vitória por 5 a 0 sobre Madagascar ainda contou com uma pintura de Drogba no último gol. "Cinco gols para apagar cinco anos de guerra", dizia a manchete de um jornal.

Ali começaram as negociações para algo que o jogador tanto pediu: eleições livres, que ocorreram três anos depois. Por seu envolvimento na liderança pelo processo de paz em seu país, Drogba foi apontado como uma das 10 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2010. O atleta já construiu alguns hospitais pelo país com seu próprio dinheiro e no último natal foi até um abrigo com crianças órfãs para levar a elas algum amor.

O objetivo do texto é, nada menos, que inspirar pessoas. Tentar fazer com que em 2016 tenhamos mais coisas boas do que ruins para lembrar. Mostrar que o amor ao próximo, por mais que às vezes pareça pouco, pode mudar a vida de alguém e, quem sabe, o mundo.

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