A imagem do Cruzeiro resplandeceu na América em 1976
Foto: Arquivo

Dentre tantas outras páginas heróicas e imortais do Cruzeiro, uma é especial para toda uma nação celeste. A conquista da Copa Libertadores da América de 1976 teve tudo o que se possa imaginar dentro de uma competição e embalada por decisão entre eternos rivais, como brasileiros e argentinos. O adversário foi o River Plate e o título só veio após um gol irresponsável de Joãozinho.

Aquela conquista veio com muito sofrimento, não apenas dentro de campo, mas fora dele, mostrando porque a festa do título foi tão marcante para quem estava em campo e para quem não mais poderia jogar pelo Cruzeiro com a mesma bravura dos companheiros.

O começo de tudo até a decisão

O Cruzeiro caiu em grupo com outro brasileiro, o Internacional, e dois paraguaios: Olímpia e Sportivo Luqueño. Nenhum dele foi páreo para os celestes, com direito a um 5 a 4 diante do Inter, logo na estreia, em 7 de março de 1976, e dois 4 a 1 sobre a dupla paraguaia. Os três jogos foram no Mineirão e a classificação veio com tranquilidade.

Joãozinho marca contra o Internacional na estreia (Foto: Arquivo)

Na segunda fase, era apenas três times: Cruzeiro, Alianza Lima (PER) e LDU (EQU). Na excursão fora do Brasil, os celestes venceram equatorianos e peruanos por 3 a 1 e 4 a 0, respectivamente. No retorno a Belo Horizonte, algo inesperável e trágico aconteceu com um dos craques do time.

Logo na chegada a BH, no dia 13 de maio de 1976, o ponta direita Roberto Batata, um dos craques do time, rapidamente deixou o grupo de jogadores, pegou seu carro, um Chevette, e foi até Três Corações para encontrar a mulher e seu filho. No KM 182, da rodovia Fernão Dias, o jogador se acidentou e faleceu na hora. A comoção foi geral entre o povo mineiro e, principalmente, os jogadores do Cruzeiro.

No jogo seguinte, o Cruzeiro enfrentaria novamente o Alianza e venceu os peruanos por 7 a 1, com quatro gols de Jairzinho e três de Palhinha. Por curiosidade, Batata vestia a camisa 7 e foi a maior homenagem que ele recebeu do clube mineiro. Fechando a fase, os cruzeirenses sacramentaram a passagem para a decisão com mais uma goleada: 4 a 1 sobre a LDU.

Decisão contra o River Plate: batalha em três atos

O Cruzeiro iria enfrentar ninguém mais, ninguém menos do que o River Plate. Só para se ter uma ideia, a equipe era composta por metade dos jogadores que foram campeões do mundo com a Argentina em 1978. Porém, o Cruzeiro tinha um conjunto melhor e isto fez toda a diferença.

No primeiro jogo, o Cruzeiro não margem para qualquer investida argentina e venceu por 4 a 1, com dois gols de Palhinha, Nelinho e outro de Valdo. Más descontou para o River. Como não existia qualquer critério de desempate, o segundo e decisivo jogo ficava para o Monumental de Nuñez, na Argentina.

Na primeira partida, o Cruzeiro sobrou e goleou por 4 a 1 (Foto: Arquivo)

O segundo jogo foi uma verdadeira batalha. Um jogo pegado, corrido, mas valeria qualquer sacrifício, pois se o Cruzeiro vencesse comemoraria o título. Contudo, com gols de Juan José Lopez e Gonzalez, contra um de Palhinha, o River Plate venceu por 2 a 1 e levou a decisão para um campo neutro.

Zezé Moreira, técnico do Cruzeiro na ocasião, reclamou muito da deslealdade dos argentinos.

"Os argentinos fazem de tudo dentro de campo. São sujos, desonestos. Vale tudo pra não perderem no campo deles. Esse jogo foi uma lástima. Se tivesse jogado assim antes, o Cruzeiro teria sido eliminado no Paraguai".

O palco era o histórico Estádio Nacional de Santiago do Chile, onde a Seleção Brasileira foi bicampeã do mundo em 1962 e onde o governo ditatorial comandado por Augusto Pinochet torturava e matava civís que eram contra o regime em 1973.

No dia 30 de julho de 1976, Cruzeiro e River Plate entraram em campo para decidir o título. Os celestes saíram na frente com Nelinho, cobrando pênalti no primeiro tempo. No segundo tempo, Eduardo fez um golaço e ampliou o placar. Empregnados pelo espírito de vingança, os argentinos empataram com Más e Urquiza.

Quando a partida caminhava para a prorrogação, eis que a molecagem de Joãozinho entra em ação. Aos 43 minutos, Nelinho se preparava para bater a falta. O ponta esquerda ficou ao lado da bola e quando o lateral tomou distância para chutar, João bateu a bola por cima da barreira, com ela descaíndo no gol de Landaburu, que sequer esboçou uma reação.

Raul chega no Aeroporto com a taça do título da Libertadores (Foto: Arquivo)

Piazza, capitão da equipe, relatou que não aguentava mais o jogo e pedia para a partida acabar.

"Se houvesse prorrogação, eu não teria dado conta. No intervalo, a dor no púbis estava insuportável e eu pedi pra pedi pra tomar infiltração, mas, no fim da partida, o efeito da anestesia já estava acabando"

Após a partida, mesmo com o gol e a festa dos jogadores, o técnico Zezé Moreira chamou o jogador Joãozinho de irresponsável e moleque. No entanto, quem iria se preocupar com isso? O título era do Cruzeiro. A América tinha cinco estrelas.

Ouça o gol do título na voz de Valdir Rodrigues, pela Rádio Guarani AM.

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