Há 100 anos, nascia Yustrich, um dos primeiros representantes do chamado "futebol raiz"
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O futebol é um esporte que traz personagens marcantes e que rende muitos contos. Alguns são fictícios, outros não. No Brasil, a bola trouxe diversos nomes que prenderam a atenção e aguçaram a criatividade de seus adeptos. Um deles marcou época por onde passou, seja para o bem ou para o mal. O nome dele é Dorival Knipel, mas a história o conhece como Yustrich.

Se estivesse vivo, Yustrich estaria completando 100 anos de vida neste 28 de setembro. Dono de uma personalidade controversa, capaz de causar tumultos, criar inimizades por onde passou, mas também o respeito de outros, o ex-treinador ganhou o apelido de “Homão” por seus 1,85m.

Em tempos de futebol moderno, onde marketing pessoal, dinheiro e fama ditam o curso da história, Yustrich é um dos pioneiros do chamado "futebol raiz", onde jogar bola é o necessário. Conheça aqui, na VAVEL Brasil, um pouco da história deste profissional que ganhou os holofotes de cena futebolística em cima de vitórias e muita polêmica, mas que nos últimos anos de vida foi esquecido por quase todos.

Yustrich jogador: semelhança com argentino renderam-lhe apelido

Dorival Knipel nasceu em 28 de setembro de 1917, na cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. De família alemã, chegou ainda criança ao Rio de Janeiro. Teve uma vida relativamente curta como jogador de futebol. Foram quase dez anos repartidos em quatro clubes, todos no Rio de Janeiro: Flamengo, Vasco, América e Andarahy. 

Foto: Revista dos Grandes Técnicos Brasileiros

No Andarahy, ganhou o apelido de Yustrich, pela semelhança física com o goleiro argentino Juan Elias Yustrich. Viveu seu melhor momento no Flamengo, onde ganhou quatro títulos cariocas, dentre eles, o primeiro tricampeonato rubro-negro entre 1942 e 1944. No ano seguinte, foi emprestado ao Vasco da Gama, e ao final do contrato decidiu abandonar a carreira.

Na estreia como treinador, campeão mineiro

Após pendurar as luvas, Yustrich partiu para um novo caminho: a de técnico de futebol. Formou-se em Educação Física pela Escola Nacional de Educação Física, da Praia Vermelha, atual UFRJ. Teve a primeira oportunidade como treinador no América-MG em 1948. A missão do recém-treinador era impedir o tricampeonato mineiro do Atlético e tirar o Coelho de uma fila que durava mais de 20 anos.

A campanha foi muito boa até a decisão contra o Galo. Foi aí que Yustrich arrumou a primeira confusão de sua carreira, justamente com o atacante argentino Valsechi, ídolo da torcida. O jogador chegava atrasado aos treinos e o técnico não tolerava indisciplinas. A diretoria americana conseguiu contornar a situação. No final das contas, o América venceu o Atlético por 3 a 1, e o treinador faturou seu primeiro troféu, porém, ganhava a mancha de ser durão e intolerante.

De campeão mineiro pelo Galo a expulso do clube pelos jogadores

Em 1951, Yustrich teve a primeira oportunidade de treinar o Atlético-MG. Acabou vice-campeão perdendo para o Villa Nova, no Independência. Com a mesma base do ano anterior, levou o Galo ao título estadual de 1952, sendo a primeira das cinco taças seguidas que o alvinegro viria a conquistar na década de 1950. 

No entanto, nem tudo eram flores na primeira passagem de Yustrich pelo Galo. Reza a lenda que ele foi expulso do clube pelos jogadores. A justificativa é que alguns atletas do elenco foram preteridos pelo técnico. Logo em seguida, seguiu para o Villa Nova, e Martin Francisco treinaria o Atlético.

Yustrich faz história no Porto-POR após 16 anos de jejum

Após treinar o Villa Nova, em 1953, e o América-MG, em 1954, Yustrich seguiu para Portugal, onde trabalhou no Porto. A missão dele não era das mais simples: quebrar a hegemonia da dupla Benfica/Sporting, que durava 16 anos. 

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Contudo, Yustrich fez muito mais. Além de faturar o título da temporada portuguesa 1955/56, faturou também a Taça de Portugal, a primeira da história dos Dragões. No entanto, em 1956, brigou com o presidente e foi demitido. Retornou ao Porto no ano seguinte respaldado pelo presidente eleito Paulo Pombo. Porém, em 1958, houve nova confusão, desta vez, com o atacante Hernani. 

A confusão aconteceu após a vitória do Porto por 5 a 0 em cima do Clube Oriental. Yustrich ordenou aos jogadores que agradecessem ao apoio do torcedor. Hernani não foi e alegou que não estava ali para fazer "palhaçadas". Nos vestiários do Estádio das Antas, os dois brigaram com direito a agressões. Mesmo assim, deu tempo para vencer o Campeonato Português de 1958/59, antes de regressar ao Brasil e treinar o Vasco da Gama.

Yustrich ganha o último Campeonato Mineiro antes da era Mineirão

Após retornar ao Brasil, Yustrich teve passagens rápidas por Vasco da Gama, Atlético-MG e Bangu até parar no tradicional Siderúrgica, da cidade de Sabará. A Tartaruga, mascote do time sabaraense assustava os grandes, mas não conseguia chegar ao título. O último havia sido em 1937.

Yustrich, ao centro, com Odilon Chagas Ferreira, no Estádio Praia do Ó em 1980. Foto: Ana Cristina/Arquivo Pessoal

Nas mãos de Yustrich, e de seu auxiliar Zezinho Miguel, o Siderúrgica foi campeão mineiro em 1964 ao vencer o América no Estádio da Alameda. O time de Sabará teve apenas uma derrota, e o título foi o último campeonato estadual antes da inauguração do Mineirão. O "Homão" ainda treinou o "Esquadrão de Aço", como ficou conhecida a equipe até o Estadual de 1965.

Yustrich, primeiro em pé da direita para esquerda, com o Siderúrgica campeão de 1964. Foto: Divulgação/Siderúrgica

Yustrich retorna ao Galo e ainda comanda a Seleção Brasileira

Foto: Reprodução

Yustrich voltou ao Atlético em 1968 e recebe o elenco que, anos mais tarde, viria a ser campeão brasileiro. Com ele, o Galo iniciaria uma fase de vitórias e momentos de euforia com a torcida atleticana. Além disso, o "Homão" seria fator primordial na carreira do centroavante Dario, que cresceu nas mãos do treinador.

Ainda em 1968, Yustrich e o Atlético representaram a Seleção Brasileira em um amistoso contra a Iugoslávia. Com direito a vestir a camisa canarinho, o Brasil venceu por 3 a 2. A vitória fecharia o ano e prometia muitas alegrias para 1969.

Em 1969, o Atlético não ganhou títulos, mas tinha um time de respeito. O momento de maior êxtase foi a vitória sobre a Seleção Brasileira, que viria a ser tricampeã do mundo em 1970, por 2 a 1, no Mineirão. O Galo jogou com a camisa da Federação Mineira de Futebol, mas após o jogo, os jogadores tiraram a camisa e desfilaram em volta olímpica pelo estádio com o uniforme atleticano, fato que teria desagradado o técnico João Saldanha.

Passagens por Flamengo, Corinthians e outros times até encerrar a carreira em 1982

Após passar pelo Atlético-MG, Yustrich retornou ao Flamengo após 25 anos para colocar "ordem na casa". No começo, tudo aconteceu bem. O time ganhou a Taça Guanabara e o Torneio Internacional de Verão. Porém, o rubro-negro caiu de produção e após derrota para o Bangu, o técnico foi demitido. Retornou ao América-MG para comandar o clube no Brasileirão de 1971.

Foto: Estadão

Em 1972, teve a primeira passagem pelo Cruzeiro. Enquanto o elenco fazia excursão por vários países sob comando de Orlando Fantoni, Yustrich era contratado. No retorno a BH, o anúncio da demissão de Fantoni gerou consequências. Inconformado, Tostão, ídolo do time, anunciou sua saída do clube. Raul, que estava de saída após pegar o passe, resolveu ficar no time celeste. O treinador ficou apenas três meses, e voltou para o América-MG.

Em 1973, Yustrich foi contratado pelo Corinthians, mas não atingiu a regularidade esperada. Foram 63 jogos, com 23 vitórias, 25 empates e 15 derrotas, de acordo com Almanaque do Corinthians, de Celso Unzelte, deixando o clube paulista no começo de 1974. Logo em seguida treinou o Coritiba, Villa Nova e América-MG, até retornar ao Cruzeiro em 1977.

No time celeste, Yustrich conquistaria o Campeonato Mineiro, com a colaboração extrema de Procópio Cardozo, que trabalhava nas categorias de base do clube, e foi vice-campeão da Libertadores de 1977. No entanto, o ambiente era péssimo, os jogadores rejeitavam a presença e os métodos de trabalho abertamente. A gota d'água foi a derrota para o Remo por 4 a 0, no Pará, e o empate em 1 a 1 contra o Fast-AM, pelo Brasileirão. Yustrich acabou demitido.

Foto: Divulgação/Democrata-GV

Logo em seguida, Yustrich ainda treinou Bangu, retornou ao América-MG, e em 1981 comandou o Democrata de Governador Valadares. Como técnico da Pantera, levou a equipe à conquista da Taça Minas Gerais. 

O último time comandado por Yustrich foi o Cruzeiro, em 1982. O "Homão" assumiu a vaga do ex-zagueiro Brito, após campanha ruim do Brasileirão. Com o treinador, o time celeste fez excursões ao futebol europeu, venceu a Taça Minas Gerais, mas não levou o Campeonato Mineiro perdendo a decisão para o Atlético.

Yustrich encerra a carreira e passa a viver no anonimato

Yustrich encerrou a carreira de treinador aos 65 anos. O "Homão" passou a viver no anonimato e recusando entrevistas. O último momento com futebol ocorreu em 1987, quando o Porto-POR homenageou os campeões de 1955/56. O ex-treinador compareceu ao Estádio das Antas. Foi aplaudido de pé pelos torcedores, levando-o as lágrimas. 

Yustrich seguiu sua vida morando em Belo Horizonte, e no mais completo anonimato. Só voltou a ser notícia em 15 de fevereiro de 1990, quando faleceu. Yustrich montou equipes históricas, revelou jogadores e chegou a brigar com diretorias de clubes defendendo seus atletas, onde lutava por tudo de melhor em condições de trabalho. No entanto, alguns fatos louváveis do treinador foram ofuscados por tantas polêmicas e brigas por motivos considerados banais nos dias de hoje. 

Histórias e mais histórias de Yustrich

Foto: Revista dos Grandes Técnicos Brasileiros

Em 1964, quando treinava o Siderúrgica, Yustrich deu dinheiro a um funcionário da Belgo Mineira, empresa que administrava o clube, para que encharcasse o gramado do Estádio Praia do Ó antes do jogo contra o Cruzeiro, e depois sumisse por uns tempos. O rapaz transformou o campo em lamaçal. Resultado: o Siderúrgica venceu por 2 a 1. Apesar da reclamação disfarçada, o treinador agradeceu ao rapaz, que voltou ao trabalho normalmente. A história foi contada pelo ex-goleiro Djair, à Rádio Inconfidência, em 2014.

Em 1969, Yustrich teve papel importante na carreira de Dario. Belmiro, massagista do Atlético-MG, contou, à VAVEL Brasil, que o treinador colocou 30 bolas na grande área para o centroavante chutar a gol e sem goleiro. Sem muita técnica, o futuro ídolo atleticano acertou apenas quatro.

Em 1970, Yustrich brigou com o centroavante argentino Doval, por conta de seus longos cabelos loiros. Após o conflito, o atacante foi emprestado ao futebol argentino. Meses depois, o "Homão" foi demitido do Flamengo. Além disso, o treinador não gostava que jogadores usassem barba, roupas extravagantes, ausências ou atrasos aos treinamentos, e dizia que "jogador tem que agir como homem".

Foto: Reprodução/Revista Placar

Ainda no Flamengo, Yustrich, que estava de olho na vaga de técnico da Seleção Brasileira pesou nas críticas a João Saldanha. Ambos eram inimigos desde a partida entre Atlético-MG e Seleção Brasileira, em 1969. Saldanha, conhecido como "João Sem Medo" pegou um revólver e foi à concentração rubro-negra para um "acerto de costas". Para sorte de todos, o "Homão" não estava lá na hora. 

Em 1972, quando assumiu o Cruzeiro pela primeira vez, Yustrich proibiu os jogadores de falarem palavrões. Ele mesmo também se privou de citar palavras obscenas. Poucos atletas conseguiram cumprir a ordem. Outra atitude do treinador foi dar conhaque ao elenco para que os atletas pudessem se esquentar no frio. Palhinha, que raramente bebia, tomou e logo depois não se sentiu bem, pedindo para deixar o treino.

Foto: Vicente Lage/Arquivo Pessoal

Dez anos depois, no Cruzeiro, a chegada de Yustrich causou rejeição de Nelinho. A inimizade da dupla vinha desde 1977, e o lateral-direito declarou a imprensa que não gostaria de ter nenhum contato com o treinador. Dias depois, Nelinho deixou o time celeste e assinou com o Atlético-MG.

Ainda no Cruzeiro, Yustrich foi apelidado por alguns jogadores de "Capitão Gay", nome de um personagem do humorista Jô Soares no programa Viva o Gordo, da Rede Globo. A alcunha era devido à altura, 1,85m, e por seus 136kg. Tal apelido rendeu boas risadas entre os atletas do elenco. Por sua vez, o "Homão" dizia que não precisava estar em forma para correr.

Há quem diga que, em tempos de futebol "raiz" e futebol "nutella", Yustrich seria o precedente da cultura futebolística, onde extravagâncias seriam dispensáveis, e o que importa é apenas jogar bola. É por essas e outras que o "Homão" está na história do futebol brasileiro.

Foto: Almanaque do Cruzeiro
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