Opinião: Cenário político polarizado no Brasil contamina relação da torcida com Neymar, maior craque da geração
Lucas Figueiredo/CBF

"Torcedores brasileiros torcem para Neymar quebrar a perna", diz texto de publicação compartilhada por Raphinha no Instagram. Neymar jogou apenas um jogo pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo do Catar e já vem sendo alvo de diversas críticas. Os holofotes se viraram para Richarlison. Após duas edições de Copas com "9s" com péssimos desempenhos, o Brasil finalmente volta a ter um ídolo na posição de centroavante.

Assim como nas Copas do Brasil e da Rússia, Neymar recebe as mesmas críticas. A principal delas, "cai-cai". Entretanto, os mesmos que criticam ele desta maneira parecem ignorar o fato de que Neymar é um jogador extremamente caçado pelos adversários em campo. Não foi Neymar que escolheu não jogar aquela partida que resultou na amarga derrota para os alemães em 2014. Não foi Neymar que escolheu ficar de fora dos jogos da primeira fase da Copa do Catar.

Neste ano, há um diferencial: a manifestação estúpida de apoio de Neymar ao presidente Jair Bolsonaro nas semanas que antecederam o início da Copa. Se foi uma estratégia de sua equipe, que a demita. Se foi uma insistência particular do próprio Neymar, foi uma grande burrice.

Daria até para dizer que Neymar pediu por isso e teria que arcar com as consequências, principalmente por ignorar o cenário político conflituoso do Brasil e por arriscar a própria imagem no ano em que a seleção tem, mais uma vez, a chance de buscar o hexa.

Neymar pode ter pedido por isso, sim, mas ele não merece isso. Nos tempos atuais, é muito difícil exigir o mínimo de respeito aos posicionamentos políticos alheios, seja para lado A ou B. No entanto, é necessário que os brasileiros entendam: futebol não é política partidária e política partidária não é futebol.

Durante os governos Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, Neymar se encontrou com todos os presidentes e posou para fotos. A opinião de Neymar não pode sobressair ao talento como jogador e à importância em campo com a amarelinha.

O ídolo improvável Richarlison agora é associado à esquerda, em decorrência de suas importantes manifestações às causas sociais. A vinculação de Richarlison à política partidária é completamente estúpida. O Brasil, polarizado na política, se torna um país polarizado também no esporte. Neymar não pode ser visto como bolsonarista e Richarlison não pode ser visto como esquerdista.

Gleisi Hoffmann, presidente do PT, elogiou Richarlison após a partida contra a Sérvia. Além disso, de acordo com a imprensa, a equipe de transição do governo Lula e Alckmin comemorou quando Neymar foi substituído. Será que eles comemoraram a saída dele por que "Neymar é cai-cai" ou por que Neymar é bolsonarista? A resposta parece óbvia.

Copa é união. Copa é deixar de lado as diferenças políticas partidárias. Copa é ver todos os brasileiros nas ruas vestindo a amarelinha sem se preocupar em ser uma associação das cores do Brasil a Bolsonaro. A camisa da Seleção Brasileira não pode ter vinculação a Bolsonaro.

Futebol e política partidária não devem se misturar. É importante ressaltar isto a todo momento. Em período de Copa, é possível ver comentaristas e jornalistas esportivos com posicionamento político publicamente declarado criticando Neymar. Volto a pergunta: a crítica é por "Neymar ser cai-cai" ou por ser bolsonarista?

Raphinha, atacante da seleção, compartilhou uma publicação em que sai em defesa de Neymar. O maior erro do Neymar é, de fato, ser brasileiro. Messi e Cristiano Ronaldo são idolatrados em seus países. No Brasil, Neymar é "cai-cai e bolsominion" para muitos que nem sequer assistem aos jogos.

Vale ressaltar ainda que a manifestação em causas sociais e a associação disso ao futebol é válida, como a luta contra racismo, machismo e homofobia. Os jogadores têm quase um dever em se manifestar nessas causas. Agora, juntar política partidária e futebol não é correto.

Que Neymar volte e tenha destaque nessa Copa, independente de todas as caçadas que sofre dentro de campo e de todas as críticas. Hoje, a Seleção Brasileira consegue jogar sem Neymar, diferentemente de 2014, mas Neymar é, sem dúvidas, uma peça fundamental no elenco do técnico Tite.

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