Em ano de Mundial no Brasil é essencial enaltecer os 10 anos passados sobre a esplendorosa organização portuguesa do Europeu de Futebol de 2004. Uma década depois da selecção de Scolari, Felipão encontra-se agora a orientar a formação anfitriã da Copa 2014 e comparando os convocados de Paulo Bento, apenas dois nomes se repetem: Hélder Postiga e o inevitável capitão, Cristiano Ronaldo.

Um país pequeno geograficamente mas historicamente grandioso no desporto rei marcou o futebol com uma brilhante campanha no Euro 2004, com uma selecção que contava com estrelas que dispensam qualquer tipo de apresentações: Ricardo Carvalho, Deco, Rui Costa, Ronaldo e Figo. Na memória de todos ficou o golo de Nuno Gomes à Espanha, as luvas que Ricardo dispensou para eliminar os ingleses, o golo magistral de Maniche frente à “Laranja Mecânica” e, claro, as lágrimas que todo o povo lusitano derramou, com o dramático golo de Charisteas, na fatídica final entre Portugal e Grécia.

Portugal viu-se grego na Fase de Grupos

Para disputar o Europeu de 2004, o nosso país construiu e remodelou 10 estádios que receberam 16 selecções, que levaram Portugal a ser o foco da Europa durante este campeonato, tendo recebido, só neste período, 10 000 jornalistas de todo o mundo e um milhão de turistas, sendo considerado pela FIFA, o melhor Europeu de sempre.

A selecção das Quinas compunha o Grupo A, em conjunto com as formações da Grécia, da Espanha e da Rússia e o pontapé de saída deste europeu foi dado entre a selecção de todos nós e a Grécia. A cerimónia de abertura decorreu de forma arrepiante, perante um lotado estádio do Dragão, repleto de adeptos esperançosos numa boa campanha portuguesa no Europeu. Para o 1º jogo, o seleccionador Scolari foi amplamente contestado por incluir no onze inicial jogadores como Fernando Couto, Rui Jorge, Rui Costa e Simão. O que criou polémica foi a exclusão de Ricardo Carvalho, Nuno Valente mas, principalmente, de Deco e Ronaldo, da equipa base.

Ainda assim, foi com o 4x3x3 habitual que a equipa entrou em campo para defrontar a Grécia, no que viria a ser um desastre na estreia que se esperava de sonho. Aos 7 minutos da partida, as bancadas do Dragão gelaram pela primeira vez, com o ex jogador do Benfica Karagounis (um dos sobreviventes que irão estar presentes neste Mundial de 2014), a bater o guardião Ricardo, deixando a defesa nacional completamente incrédula. A jogar em vantagem, os gregos recuaram ainda mais no terreno, como viria a ser apanágio em toda a competição e, quando se esperava uma reacção lusa, foram os helénicos a estar mais perto do 0-2 do que Portugal do empate. Aos 51 minutos consumou-se o pesadelo, com a Grécia a beneficiar de uma grande penalidade, que acabou por ser convertida por Basinas, aumentando a vantagem para 0-2. Com as entradas de Deco e Ronaldo, a selecção melhorou e CR7 acabou mesmo por reduzir a desvantagem para 1-2, já em período de compensação. A desconfiança nas opções de Scolari fazia antever uma mudança radical para o jogo da 2ª jornada frente à Rússia.

Para a 2ª jornada da Fase de Grupos, Portugal era obrigado a vencer e, depois da teimosia de Scolari na primeira partida, o treinador apostou em Nuno Valente, Ricardo Carvalho e Deco, para a difícil batalha frente à Rússia. A entrada de Portugal no jogo foi guerreira e aproveitando a base do Porto de Mourinho, o meio-campo composto por Costinha, Maniche e Deco, manobrou a equipa e aos 7 minutos, o centro-campista Maniche inaugurou o marcador no estádio da Luz, colocando em êxtase toda uma nação. Apesar da magra vantagem, Portugal mostrou sempre ter o controlo de jogo e, com segurança a defender, não abdicou nunca do contra-ataque. Rui Costa ampliou a vantagem ao minuto 89, recolocando Portugal no caminho dos Quartos-de-Final do Euro 2004.

Para o último e decisivo encontro desta Fase de Grupos, Portugal e Espanha encontraram-se, num duelo ibérico e, em causa, estaria a passagem à próxima fase. Em pleno estádio de Alvalade, o empate chegava para os espanhóis seguirem em frente mas Portugal era mesmo obrigado a vencer, ficando célebre a frase de Scolari “é o jogo do mata-mata”. Depois de uma primeira parte equilibrada e muito disputada a meio-campo, Portugal arriscou no 2º tempo e, com um apoio forte do 12º jogador, a habilidade e a ambição de chegar mais longe vieram ao de cima, com Nuno Gomes a ser o obreiro do tento histórico que, aos 57 minutos colocou a equipa das Quinas nos Quartos-de-Final, onde viria a defrontar a Inglaterra. Neste tento, o ponta-de-lança, de costas viradas para a baliza, fugiu à marcação dos defesas e, como um verdadeiro avançado, encontrou espaço para rematar colocado e, à meia volta, bateu o guardião Casillas.

Contas feitas, Portugal apurou-se em 1º lugar com 6 pontos, tendo marcado 4 tentos e sofrido 2. A formação grega qualificou-se em 2º, com 4 pontos conquistados e em perspectiva para os Quartos-de-Final, acabaria por defrontar a selecção francesa.

Itália e Alemanha: as maiores desilusões

O Grupo B deste Euro era composto por: França, Inglaterra, Croácia e Suíça. Neste grupo difícil, a sorte do apuramento sorriu à França que se apurou em 1º (7 pontos) e à Inglaterra, no 2º posto (6 pontos).

O Grupo C foi considerado o grupo mais curioso e atípico de todo o Euro 2004, uma vez que, Suécia, Dinamarca e Itália acabariam por ficar empatadas, com 5 pontos, deixando a Bulgária em último, sem qualquer ponto conquistado. Com a igualdade pontual, o critério de desempate foi o goal average, que criou muita contestação para as hostes italianas, uma vez que, tanto a Suécia como a Dinamarca, tiveram maior diferencial e ocuparam mais duas vagas nos Quartos-de-Final. De fora da fase seguinte ficou surpreendentemente, a squadra azurra que tinha grandes ícones do futebol como: Canavarro, Vieri ou Del Piero.

Finalmente, o Grupo D que incluía República Checa, Holanda, Alemanha e Letónia. A outsider República Checa acabou por causar sensação neste grupo, apurando-se enquanto primeiro classificado, com 9 pontos, sagrando-se o melhor 1º de todos os grupos, com destaque para Nedved e Milan Baros, que acabou por ser o melhor marcador do campeonato. A outra formação apurada foi a Holanda, que amealhou 4 pontos, nas 3 partidas disputadas. A par da Itália, o maior fiasco do Euro foi a Alemanha, com a particularidade de se ter despedido de Portugal em 3º do Grupo D com 2 pontos e, consequentemente, sem alcançar qualquer vitória. As figuras mais mediáticas que ficaram de fora foram: Oliver Kahn, Kuranyi e, principalmente, Ballack que assim se despediram precocemente da competição.

Dos Quartos para as Meias: o herói sem luvas

Depois da derrota nacional frente à Grécia de Otto Rehhagel, poucos acreditavam na qualificação mas, a verdade é que, nem russos nem espanhóis tiveram armas para contrariar a garra e o querer de todo um povo lusitano que, assim, teve a oportunidade de, no dia 24 de Junho de 2004, enfrentar a difícil selecção britânica, orientada por Sven Goran Eriksson, ex-treinador do Benfica. Os ingleses tinham, entre outros craques, atletas como: Terry, Lampard, Gerrard, Beckham, Owen e a jovem promessa Rooney (que nessa mesma época se transferiu para o Manchester United onde viria a encontrar a também jovem promessa Cristiano Ronaldo) que tornavam esta formação favorita para a passagem às Meias-Finais. Galvanizados pelo apuramento, os guerreiros de Scolari entraram em campo para mais um “mata-mata”, com destaque para a estreia de Cristiano Ronaldo enquanto titular, com a particularidade de reencontrar em campo, alguns colegas de equipa do Manchester United.

A dura batalha não começou da melhor maneira para a equipa das Quinas e, logo aos 3 minutos, Michael Owen aproveitou a displicência de Costinha e Ricardo, com o ponta-de-lança britânico a aplicar um chapéu, que balanceou as redes lusas, acabando por silenciar todo um estádio da Luz que, desde cedo percebeu, que sofrer seria o desino até ao apito final. Depois do golo sofrido, Deco, Ronaldo e Figo deliciaram a Europa do futebol, compondo uma tripla inigualável neste torneio. O caso de Ronaldo levou mesmo as bancadas ao rubro, com fintas e dribles que apenas eram travados com faltas dos desamparados Campbell, Gary Neville e Terry. A selecção de todos nós dominou toda a restante partida e, com tanta propensão ofensiva, era inevitável chegarem ao empate.

O minuto 83 tornou-se talismã para a formação lusitana e, já com Rui Costa em campo, destaque para um lance do maestro número 10, que transportou o esférico até Simão Sabrosa que, em combinações com Ronaldo, permitiu a CR7 desfazer-se da marcação de Ashley Cole e, com um cruzamento estupendo, encontrou o gigante Hélder Postiga que saltou mais alto que todo o último reduto inglês que cabeceou de forma contundente, repondo a igualdade. Começava assim a desenhar-se mais um episódio épico da equipa das Quinas.

No prolongamento, Portugal entrou mais confiante, com Rui Costa a ser o rosto da ambição de dez milhões de portugueses. O número 10 substituiu Deco no tempo regulamentar e foi essencial para a meia hora extra, onde o criativo teve arte e engenho para controlar todo o miolo luso. Quando ao minuto 110, o mago seguiu em direcção à baliza de James, a respiração de todos os portugueses susteve-se por instantes, até ao momento em que o emblemático número 10 atirou sem hipótese, com um pontapé fulminante, que ainda embateu na barra mas que consumou uma reviravolta completamente histórica para a memória de todos os portugueses. Com o pensamento na Meia-Final, a defesa lusa perdeu a concentração e, ao minuto 115, Lampard repôs a igualdade a duas bolas e levou, assim, a decisão deste jogo impróprio para cardíacos, para as grandes penalidades.

Perante um banco de suplentes português munido de confiança e nervosismo, Scolari decidiu quem iria marcar as grandes penalidades e viu David Beckham começar a lotaria dos pénalties. O emblemático capitão britânico, especialista em lances de bola parada, falhou de forma escandalosa o primeiro tiro e permitiu a resposta do mágico Deco que colocou Portugal em vantagem. De seguida, Owen não vacilou diante de Ricardo, igualando a contagem. O ex-jogador do Benfica, Simão fez a habitual paradinha e devolveu a vantagem, perante os adeptos, que nem unhas tinham já para roer. A 3ª ronda de pénalties ditou a brilhante conversão de Lampard e o triste falhanço de Rui Costa que, ainda assim, não perdeu o brilho da sua exibição.

Com o score igualado, Terry e Ronaldo não tiveram dificuldade em prolongar a igualdade e, consequentemente, prolongaram também a ansiedade de todos os adeptos. A tensão continuou com os golos de Hargreaves e Maniche que assistiram também às penalidades amplamente bem convertidas por Cole e Hélder Postiga. Como se não bastasse ser um jogo impróprio para cardíacos, eis que Hélder Postiga resolve imprimir um pénalti “à Panenka” que levou os portugueses a um ataque de nervos. À 7ª marcação surgiu o momento de todas as decisões quando Ricardo, depois de conferenciar com o king Eusébio (imagem marcante de todo o Euro 2004), o guardião decidiu protagonizar um momento único na história do futebol e, numa decisão intuitiva e repentina, tirou as luvas e, de forma guerreira defendeu o tiro de Vassell. Galvanizado pela defesa e encorajado por todos os portugueses, o mesmo Ricardo converteu a grande penalidade decisiva e, com um remate colocado e rasteiro, fez respirar de alívio, toda uma nação que prolongou os festejos pela noite fora.

França cai aos pés dos gregos

Para além da grandiosa eliminatória de Portugal frente à Inglaterra, destaque para a eliminação da França de Zidane frente à Grécia, no estádio Alvalade XXI, com o tento solitário a ser marcado pelo mal-amado dos portugueses, Charisteas. Outro grande jogo desta fase opôs a Suécia de Ibrahimovic e Larsson e a Holanda de Davids e van Nistelrooy, no estádio do Algarve, com a “laranja mecânica” a vencer nas grandes penalidades, depois de um 0-0 no tempo regulamentar. A penalidade decisiva foi convertida pela actual estrela do Bayern, Robben, que levou os holandeses rumo às Meias-Finais, onde viriam a defrontar Portugal. O estádio do Dragão foi palco da última partida dos Quartos-de-Final, com a equipa mais goleadora da prova, a República Checa, a ultrapassar os dinamarqueses, com uma vitória esmagadora de 3-0. A dar vida ao marcador, destaque para Koller e para os dois tentos de Baros (viria a ser o melhor marcador do Euro com 5 tentos) que, assim, levaram os checos ao encontro da Grécia na Meia-Final.

Maniche espremeu a «laranja mecânica» rumo à final

Depois de, contra os ingleses “marchar, marchar”, seguiu-se a sempre dura selecção holandesa no caminho lusitano até à final da Luz. Para a Meia-Final, Portugal viria a defrontar a Holanda orientada por Dick Advocaat, que espelhava em campo, classe e qualidade de jogadores como: Davids, Seedorf e van Nistelrooy.

A postura nacional foi, desde início, de grande balanceamento ofensivo, com Maniche e Deco a distribuir jogo, de elevadíssima craveira técnica, que deixava a redondinha à disposição dos artistas, Figo e Ronaldo, que causaram o pânico na frágil defesa laranja. Sem espanto, o “menino de ouro” Ronaldo, inaugurou o marcador ao minuto 26, na sequência de um canto criteriosamente bem cobrado por Deco, com CR7 a fazer, assim, o seu 2º golo na competição. A final estava perto e Portugal não descansava enquanto não ampliasse a vantagem. À passagem do minuto 58, recordar o tiro de Maniche que é talvez um dos golos mais esbeltos da história do futebol. A forma como o número 8 português encheu o pé e colocou o esférico no ângulo é para ver, rever e voltar a ver. O tento na própria baliza de Jorge Andrade aos 63 ainda assustou mas o estádio de Alvalade era unânime em como seria inevitável viajar até ao outro lado de Segunda Circular, para disputar a final no estádio da Luz, no dia 04 de Julho.

Grécia defensiva matou os checos no contra ataque

O estádio do FC Porto foi palco da outra Meia-Final que opôs a Grécia e a República Checa. Do lado grego, tivemos a arte de bem defender, com uma táctica cautelosa de Otto Rehhagel, que explorava o contra-ataque e, do outro lado, uma República Checa que, a par de Portugal, jogou o melhor futebol do Euro, com grandes propensões ofensivas e com um poder de finalização atroz, que fez dos checos, o melhor ataque da prova.

A partida sorriu à táctica defensiva grega que, ao seu estilo apenas precisou de um tiro certeiro, para fazer “cheque-mate”, por intermédio de Dellas. Este golo solitário carimbou o passaporte para a final, que viria a ser de glória para os helénicos.

…e voltou a ver-se grego na final

O dia 04 de Julho de 2004 continuará sempre marcado como um dos dias mais fatídicos da história do futebol português. A grande final do Euro, entre Portugal e Grécia reunia expectativa, vontade e querer mas terminou, inexplicavelmente, em tragédia para uma selecção nacional que tinha o melhor conjunto de jogadores de sempre. Dificilmente voltaremos a ter estrelas com o potencial e carisma de Ricardo Carvalho, Deco, Simão, Rui Costa mas, principalmente, dos dois Bolas de Ouro, Figo e Ronaldo que, ainda assim, foram insuficientes para evitar o tento dramático que Charisteas converteu no fatídico minuto 57. A imagem de marca desta final é, sem dúvida, a de Cristiano Ronaldo, lavado em lágrimas que, ainda hoje é recordada, mas que nos deixa na expectativa que seja um bom pressagio para que, 10 anos depois, essas lágrimas se convertam em golos, festejos e que nos façam levantar a Taça do Mundial 2014 no Brasil.

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