Gelar cerveja na neve, comunicação por mímicas: como é a vida de um brasileiro na Rússia

A 30 dias da Copa do Mundo, a VAVEL Brasil preparou um especial sobre como é sobreviver no país sede do próximo Mundial

Gelar cerveja na neve, comunicação por mímicas: como é a vida de um brasileiro na Rússia
Rússia se prepara para receber a Copa do Mundo (Foto: Divulgação / GettyImages)

Quando se fala da Rússia,  vem logo a cabeça as temperaturas abaixo de 0ºC, cidadãos com AK-47, ursos pelas rua e claro as tradicionais vodkas. Mas como é viver em um país conhecido como mais louco do planeta? 

Por incrível que pareça, a Rússia é um país normal, apesar de todas as lendas, a antiga URSS faz calor, as pessoas não vivem alcoolizadas e muito menos andam armadas no metrô. E ainda é possível encontrar carne boa para se fazer um churrasco. 

Faltando 30 dias para o país sediar a Copa do Mundo, a VAVEL Brasil fez um especial contando como um brasileiro sobrevive no país, que culturalmente, é totalmente diferente do Brasil. 

Quem nos apresenta o a sede da próxima Copa do Mundo é Ricardo Augusto, 29, analista de sistema, o qual teve a oportunidade de viver em Moscou durante um ano e meio.

Idioma

No Brasil e na maior parte do mundo, utilizamos o alfabeto latino, mas na Rússia é diferente, a língua é composta pelo alfabeto cirílico, o que torna incomum pessoas falarem em outro idioma, como inglês por exemplo.  Ricardo confessou que nos primeiros meses se viu como um analfabeto: 

"O idioma é o primeiro ponto que um brasileiro vai ver de grande diferença lá. O alfabeto cirílico russo vai confundir bastante os brasileiros. Até mesmo algumas letras que você acha que sabe o que é, não será bem o que parece (como o N e o I do alfabeto cirílico, н e и respectivamente). "

"Nos primeiros 3 meses fiquei como um completo analfabeto. Decorei umas 20 palavras, umas 3 frases e utilizei muita mimica. Depois de 3 meses fiz algumas aulas de russo só pra aprender o som das letras, e isso fez uma diferença absurda, principalmente nos metrôs, pra ler as estações".

Viver se comunicando por mimica ou com poucas palavras rende boas histórias em situações simples, como pedir um sorvete:

"Uma coisa interessante que aconteceu, eu estava com mais dois brasileiros em uma lanchonete e queríamos ir no Burger King na sequência tomar um sundae. Aproveitamos que a garçonete sabia um pouco de inglês e perguntamos pra ela como se falava sundae em russo, para facilitar as coisas . O problema foi que nós esquecemos que sundae se pronuncia igual a sunday ( Domingo em inglês) e nós não explicamos pra garçonete o contexto do que queríamos. Resultado foi  o pessoal do Burguer King recebeu três brasileiros pedindo um domingo e  acabaram rindo muito da nossa cara"

Placa avisando motoristas com pessoas distraídas no celular ( Arquivo Pessoal)
Placa avisando motoristas com pessoas distraídas no celular (Foto: Arquivo Pessoal)

Temperatura

Moscou é conhecida por seus invernos rigorosos, com temperaturas  congelantes que chegam a sensação térmica de de -67ºC e sempre duradouras. Porém o torcedor que for assistir a Seleção na Copa do Mundo deverá deixar seu casaco em casa e pegar o protetor solar: 

"Outra coisa que surpreende os Brasileiros, e com certeza muita gente não vai esperar por isso na Copa do Mundo, é o calor. Eu cheguei no Verão e peguei temperaturas entre 28 e 35 graus. Apesar de no inverno Moscou passar dos -25 graus, no verão passa dos 30 graus positivos facilmente. Lá existe muitos parques, praças e diversos eventos que proporcionam muita diversão em todo verão. E se por um lado no inverno quase não vemos a luz do dia, no verão tem luz solar iluminando a cidade até próximo das 22hs."

Em todas ocasiões, dá pra tirar proveito de alguma coisa. Gelar cerveja de forma rápida é um desafio para os brasileiros, mas não na Rússia: 

"O inverno inteiro a temperatura ambiente era muito abaixo da temperatura dos nossos freezers. Em cada andar do prédio que morávamos havia uma sacada compartilhada para o andar inteiro. Era uma área que raramente tinha a neve recolhida, então a neve ficava bem alta. Com isso, naturalmente nós brasileiros com pressa de cerveja gelada podíamos enterrar nossa cerveja e voltar depois de poucos minutos para busca-las muito mais geladas do que ficariam no nosso freezer", contou Ricardo.

Quem nunca quis gelar cerveja na neve?  (Foto: Arquivo Pessoal)
Quem nunca quis gelar cerveja na neve? (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Transporte 

Uma das maiores cidades do mundo, Moscou é super organizada principalmente com transporte coletivo. Apesar da difícil comunicação, Ricardo não sofreu para se locomover no dia a dia, exceto quando pegava táxi:  "O transporte também foi outro ponto que me impressionou. Existe metrô pra todo lado e o preço da passagem usando o "bilhete único" deles é em torno de 2 reais. A sinalização dos metrôs é excelente e em diversas estações há músicos de rua. "

"O trânsito é horrível, no horário de pico chega a ser pior que o trânsito de São Paulo (por mais difícil que isso possa parecer) e os motoristas ignoram completamente o conceito de "direção defensiva". Andar de táxi pode ser assustador, principalmente quando está nevando e eles parecem ignorar o fato que a neve pode escorregar. "

Gastronomia 

Brasil e Argentina são conhecidos pela qualidade das carnes principalmente no churrasco. Na Rússia o que domina na a culinária  é Solyanka (uma sopa picante que pode ser feita com carne, peixe ou cogumelos).  O que ninguém imagina é que um dos melhores lugares para se comer carne, é na terra de Vladimir Putin:


"Uma das coisas que me surpreendeu foram as carnes. Eu imaginava ter dificuldades pra encontrar carnes boas principalmente por conta das sanções, mas no final das contas eu comia carne muito melhor na Rússia do que no Brasil. Lá não tem a mesma variedade e quantidade que temos no Brasil, mas eu conseguia comer carnes de primeira qualidade pela metade do preço do Brasil."
 

Segurança pública 

O governo de Vladimir Putin é marcado por ser pouco tolerante com manifestações e crimes, tendo altas punições. A criminalidade no país é realmente baixa, segundo Ricardo Augusto, o motivo para tal é o  pequeno número de desempregados:

"De todos os pontos positivos acho que o de maior destaque é a segurança de poder andar de noite, pra qualquer lado, com celular na mão filmando tudo sem medo de ser um gringo perdido, sem medo de ser assaltado. Dificilmente você vai ouvir falar de furtos ou assaltos (arrastão nem existe no dicionário russo). Uma vez eu perguntei para um colega se a cidade sempre foi assim, se nunca tiveram problemas com furtos e assaltos e a resposta que ouvi é que agora tem bastante emprego pra população, então não precisam mais roubar. "
 

Russos com estrangeiros 

Anfitriões da Copa do Mundo, a tendência que todo país receba milhares de turistas nos próximos meses, a fama de que os russos são fechados, é valida, exceto se for com brasileiro: 

"Os russos não costumam gostar de estrangeiros, porém eles amam os brasileiros e nossa cultura. Coisas que me surpreenderam lá em relação a isso foi encontrar russas que não falam inglês mas falam português fluente. Inclusive elas me levaram pra fazer capoeira, assistir o Festival Brasileiro de Cinema. Outras coisas como Michel Teló e novelas também fazem muito sucesso por lá." explicou Ricardo. 
 

Causos 

Mas a Rússia não leva a fama de ser um país  louco  atoa, Ricardo sofreu na pele algumas situações inusitadas como invasão da polícia local em  seu trabalho com enormes armas, para apenas uma vistoria: 

"Um evento bem impactante na memória de todos com certeza foi o dia que a polícia invadiu a empresa. Era uma manhã de quarta-feira como qualquer outra, até que algumas pessoas armadas entraram na empresa (não tinha identificação de polícia nas roupas, mas as pessoas da empresa disseram que eram da polícia) procurando por documentos que teoricamente não tinham nada a ver conosco. Apenas disseram pra gente não falar em português em voz alta e pra não chamarmos muito a atenção deles. "

"Alguns minutos depois a empresa já estava infestada de caras portando pelo menos um fuzil e uma pistola cada (alguns tinham também machados e outros acessórios). Mandaram a gente se afastar dos computadores e guardar os celulares, depois mandaram todos pro corredor, onde ficamos alguns minutos tentando entender o que estava acontecendo. Eles falavam em russo e ninguém traduzia nada, então só entendiamos palavras soltas como internet, computador e telefone. Como eles estavam armados, imaginamos que o correto seria seguir o movimento dos russos que trabalhavam com a gente ". Finalizou