Copa do Mundo VAVEL: a história do Mundial de 1990
Foto: Editoria de Arte/VAVEL Brasil

Copa do Mundo VAVEL: a história do Mundial de 1990

Itália no centro das atenções, Alemanha tricampeã, Brasil eliminado pela Argentina nas oitavas e vários outros aspectos protagonizaram a 14ª edição do torneio de futebol mais importante do mundo

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Taynã Melo

A 14ª edição da Copa do Mundo foi realizada em um dos países mais tradicionais do futebol. A Itália teve a oportunidade de sediar pela segunda vez o principal evento futebolístico que existe. Com um dos campeonatos nacionais mais disputados e um dos países mais visados no esporte bretão, a Terra da Bota pôde receber as melhores seleções do planeta naquele instante.

Ciao, mascote da Copa 1990 (Foto: Divulgação/Fifa)

País-sede

Para ter avanços em relação à edição anterior, a Fifa liberou as verbas para melhorias na infraestrutura, transportes e comunicações – um dos principais problemas do México em 1986. Foram três anos de muitas obras. Alguns locais foram bastante premiados e todos os locais selecionados antecipadamente receberam melhorias. Foram 12 cidades ao todo: Roma, Milão, Nápoles, Turim, Bari, Verona, Florença, Cagliari, Bologna, Udine, Palermo e Gênova. Para se ter uma ideia, o Estádio Olímpico de Roma e o San Siro receberam melhorias. Outros, como o Luigi Ferraris, em Gênova, foi demolido e completamente reconstruído. Turim e Bari receberam novos estádios, o Delle Alpi e o San Nicola, respectivamente.

Pôster oficial da Copa 1990 (Foto: Divulgação/Fifa)

Nas Eliminatórias, Itália e Argentina não precisaram participar. De acordo com o regimento da Fifa, o país-sede e o atual campeão mundial tinham vagas automáticas na Copa do Mundo. Alguns países tradicionais não conseguiram a qualificação. França, Polônia, Dinamarca, Portugal, Hungria e Paraguai não foram bem em seus continentes. Outros incidentes também tiraram duas seleções da disputa do Mundial. Por ter jogadores com idade adulterada no Mundial Sub-20, o México ficou fora. Por incidentes em 1989, o Chile também foi banido da disputa.

Três países fizeram a estreia na história dos Mundiais. A Costa Rica representou a Concacaf, a Irlanda garantiu a vaga pela Uefa e os Emirados Árabes Unidos conseguiram a vaga na Ásia e tinham Carlos Alberto Parreira no banco de reservas. Já outros voltavam após muito tempo: Egito, Estados Unidos, Colômbia, Romênia, Holanda e Suécia.

Etrusco, a bola oficial da Copa 1990 (Foto: Divulgação/Fifa)

Alemanhã tricampeã

Apenas Brasil e Itália tinham conquistado três títulos mundiais. A Alemanha tinha um time forte e chegou ao seleto grupo. Não foi fácil, mas conseguiu impor sua força e talento dos seus convocados e comandados. Comandados pelo ídolo Franz Beckenbauer – o segundo a conquistar o Mundial como jogador e treinador, além de Zagallo, Lothar Matthäus, Rudi Völler e Jürgen Klinsmann, os germânicos foram eficientes na defesa e no ataque. Foram sete jogos, com cinco vitórias e dois empates, com 15 gols marcados e apenas cinco sofridos.

Taça do tricampeonato presente na celebração dos 20 anos da conquista, em 2010 (Foto: Getty Images)

Brasil 90: eliminação precoce e doída

Após a eliminação no Mundial de 1986, o ciclo de Telê Santana à frente da Seleção Brasileira foi encerrado. Sem muito tempo para pensar em substitutos, após algumas recusas, Carlos Alberto Silva foi chamado e acionou o convite. O início do trabalho foi com o Pré-Olímpico de 1987. Apesar da irregularidade no trabalho, veio o título e a chance de conquistar o ouro inédito na Olimpíada de 1988, em Seul. Na Coreia do Sul, porém, o Brasil ficou com a prata ao ser derrotado de virada pela União Soviética por 2 a 1.

Por questões políticas, Carlos Alberto Silva deixou o comando da Seleção Brasileira. Ricardo Teixeira assumiu a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e anunciou a contratação de Sebastião Lazaroni, jovem tricampeão carioca – Flamengo 1986 e Vasco 1987/1988. No início do trabalho, a base da Amarelinha era o time cruzmaltino com a inserção de outros atletas. O primeiro páreo foi a Copa América de 1989. Sofrida, com atuações aquém do esperado, a conquista do título veio após 40 anos. Um pouco de alívio, mas veio a pressão nas Eliminatórias Sul-Americanas. Um triangular era formado e apenas o líder garantia vaga na Copa. Após fáceis vitórias diante da Venezuela, o Brasil sofreu para superar o Chile e se classificar.

Na lista de 22 jogadores convocados, Lazaroni foi o primeiro a convocar mais jogadores que atuavam no futebol internacional em relação a atletas que atuavam no Brasil. Uma das principais críticas às convocações era a insistente ausência de um meio-campista criativo. Apesar de boas opções, como Neto, Raí e até mesmo Zico, todos os pedidos e apelos foram ignorados.

Na fase de grupos, o Brasil foi sorteado no Grupo C, ao lado de Suécia, Escócia e Costa Rica. Na estreia, as boas jogadas feitas pelas pontas deram a vitória à Amarelinha diante da Suécia por 2 a 1. Careca marcou os gols brasileiros. No segundo jogo, duelo contra os costarriquenhos. Foi um duelo de ataque contra defesa. Cinco bolas na trave, mas a vitória foi apenas de 1 a 0, com tento assinalado por Müller. No terceiro jogo, as críticas permaneciam, não teve melhora significativa e o Brasil venceu novamente de maneira simples, com mais uma vez Müller como salvador da pátria.

Nas oitavas de final, dois eternos arquirrivais que apresentavam um futebol pobre. Enquanto o Brasil capengava apesar das vitórias, a Argentina sofria e se arrastava no Mundial e garantiu uma vaga apenas na repescagem. No campo, os brasileiros foram superiores, criaram mais chances e assustavam. Mas o polêmico clássico terminou com um resultado reverso graças ao contra-ataque. Aos 35 minutos do segundo tempo, Maradona deixou Dunga, Alemão, Ricardo Rocha e Mauro Galvão para trás e acionou Caniggia. Sozinho, o atacante driblou Taffarel, empurrou para o gol vazio e acabou com o sonho brasileiro.

Gol da Argentina que adiou por mais quatro anos o sonho do tetracampeonato (Foto: Getty Images)

Artilheiro em uma Copa fraca de gols

Um dos pontos a serem lamentados na Copa do Mundo de 1990 foi a pouca quantidade de gols. Deveras, esta edição do Mundial tem a pior média de gol em toda a história – apenas 2,21 gols marcados por jogo. O artilheiro foi do país anfitrião. Com seis gols em sete jogos, o atacante Salvatore Schilacci. À época com 25 anos e na Juventus, o jogador foi um personagem importante para a Azzurra, com gols em momentos providenciais. Graças aos seus tentos, o sonho do tetracampeonato pôde ser desfrutado até a semifinal, quando veio a eliminação. Ao fim das contas, o terceiro lugar conquistado diante da Inglaterra.

Schilacci, artilheiro da Copa 1990 (Foto: Getty Images)

Dupla surpresa

O Mundial na Itália teve algumas surpresas. A Inglaterra ficou com o quarto lugar, o melhor desempenho em toda a história sem ser em 1966, quando conquistou a taça em seu território. Porém, seleções que dificilmente estava no imaginário dos torcedores que chegariam longe colocaram seu lugar na história.

A Irlanda chegou longe sem vencer um jogo sequer, uma façanha e tanto. Após três empates na primeira fase, avançou depois de sorteio com a Holanda – a única vitória na Copa. Nas oitavas, encarou a Romênia e venceu nas penalidades máximas. O feito durou até às quartas de final, quando a Itália desbancou com vitória simples.

Foto: Getty Images

A sensação da Copa 1990 foi a seleção de Camarões. Considerado depois como o “segundo time de todos os torcedores”, a equipe africana conquistou o carinho com um futebol ofensivo e envolvente. Na primeira fase, uma goleada sobre os Emirados Árabes Unidos, uma derrota contra a Iugoslávia e um empate diante da Alemanha nos minutos finais. Nas oitavas, o veterano Roger Milla foi fundamental em roubar a bola do lendário goleiro René Higuita para vencer por 2 a 1. Nas quartas de final, o sonho foi interrompido, mas pagou caro pela derrota sofrida pela Inglaterra por 3 a 2. Foi o melhor desempenho na história camaronesa e repetido por uma seleção africana apenas em 2010, com Gana.

Roger Milla e sua eternizada comemoração dançante em Camarões, sensação da Copa 1990 (Foto: Getty Images)

Laranja Mecânica de volta, mas longe do sucesso

Após o vice-campeonato em 1978 e o histórico carrossel, a Holanda voltou a disputar uma Copa do Mundo em 1990. Campeã da Eurocopa dois anos antes, a expectativa era que o time europeu tivesse um desempenho apresentável, mas foi visto atuações bem abaixo da crítica. A equipe ficou no Grupo F, ao lado de Inglaterra, Irlanda e Egito. Foram três empates. Na última partida, diante dos irlandeses, os países fizeram uma partida completamente apática, até porque o empate deixava tudo igual entre ambos nos critérios de desempate. Em sorteio, a Irlanda levou a melhor nas oitavas de final e enfrentou a Romênia. A Holanda não teve a mesma sorte e encarou a Alemanha. Tensão, expulsões e derrota por 2 a 1. A falta de atuações convincentes custou caro.

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Fase de grupos

Por ser país-sede e por ter conquistado o último Mundial, Itália e Argentina, respectivamente, seriam cabeças de chave. Alemanha Ocidental, Bélgica, Brasil e Inglaterra foram os outros. Dentre os 24 países, avançavam os dois primeiros de cada chave, além dos quatro melhores terceiros colocados.

Na primeira fase, apenas Itália e Brasil tiveram 100% de aproveitamento, com três vitórias em três jogos. Camarões, Alemanha Ocidental, Espanha e Inglaterra foram líderes nos outros grupos, enquanto Argentina, Colômbia, Uruguai e Holanda avançaram como os melhores terceiros colocados.

Oitavas de final

Por causa do bom desempenho de algumas seleções na primeira fase e de um aproveitamento não tão bom de outras equipes, alguns confrontos nas oitavas de final foram bem aguardados. O superclássico entre Brasil x Argentina, o duelo entre Itália x Uruguai e os confrontos tradicionais europeus entre Alemanha x Holanda e Inglaterra x Bélgica foram alguns dos destaques. Foi o último mundial antes da reunificação da Alemanha, assim como o derradeiro para Tchecoslováquia e Iugoslávia, que se dividiram em dez nações a partir de 1993. Nessa fase, seleções tradicionais e campeãs deram adeus, como Brasil e Uruguai, e outras surpresas seguiram, como Camarões e Irlanda.

Caniggia e o gol da eliminação brasileira na Copa 1990 (Foto: Getty Images)

Quartas de final pouco disputadas

Sofrimento para países que entraram em conflito anos antes, mas a pouca média de gols deixaram os jogos com possibilidades de sofrer grandes interferências nos resultados. A exceção foi Camarões x Inglaterra. Apesar do jogo ter ido à prorrogação, o placar final de 3 a 2 agradou a todos pelo confronto disputado de maneira aberta, com boas oportunidades para os oponentes. Em todas as outras partidas, mínima vantagem. De maneira simples, a Itália venceu a Irlanda e a Alemanha bateu a Tchecoslováquia. A Argentina sofreu e conquistou a classificação apenas nas penalidades diante da Iugoslávia após empate sem gols no tempo normal e no tempo extra. Méritos para o iluminado goleiro Goychochea.

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Semifinais decididas nas penalidades

Quatro seleções tradicionais e campeãs mundiais se enfrentaram nas semifinais. No Estádio San Paolo, em Nápoles, Argentina e Itália mediram forças e abriram a fase decisiva. Apesar de jogar em casa, o estádio tinha muitos torcedores argentinos e outros simpatizantes pela Albiceleste por causa de Maradona, ídolo do Napoli. A festa dos italianos antes do jogo era grande, uma vez que a classificação à final já era dada como certa por alguns. A euforia ficou ainda maior quando Schilacci abriu o placar aos 28 minutos de jogo. Porém, a Argentina foi buscar o empate após falha do goleiro Zenga e oportunismo de Caniggia. O time comandado por Carlos Bilardo adiantou a marcação e segurou os anfitriões até a prorrogação, mesmo com um a menos na reta final do tempo extra. Nas penalidades, brilhou a estrela de Goychochea. O goleiro defendeu as cobranças de Donadoni e Serena, os sul-americanos venceram por 4 a 3 e foram em busca do tricampeonato.

Foto: Getty Images

Do outro lado da chave, Alemanha e Inglaterra protagonizaram outro jogo recheado de expectativas pela tradição das seleções no Delle Alpi, em Turim. Durante toda a partida, o panorama foi de equilíbrio, com destaque para os setores defensivos, enquanto os jogadores de ataque tentavam ameaçar em chutes de fora da área. As redes balançaram no segundo tempo. Aos 14 minutos, Brehme arriscou, a bola desviou em Parker e encobriu Shilton. A Inglaterra foi buscar o empate aos 35, quando o lateral-direito se redimiu com uma boa jogada que resultou no gol de Lineker. Na prorrogação, o equilíbrio predominou com uma grande defesa de cada arqueiro e uma bola na trave para cada país. Nas penalidades máximas, veio o desequilíbrio. A Alemanha foi eficiente e converteu todas as cobranças, enquanto os ingleses desperdiçaram as duas últimas e encerraram suas trajetórias na Itália.

Foto: Getty Images

Reencontro, revanche e Alemanha tricampeã

O Estádio Olímpico de Roma recebeu 73.063 presentes no dia 8 de julho de 1990 para a disputa da grande final. Foi o reencontro e a reedição da final de quatro anos antes, algo que nunca tinha acontecido na história. O jogo iria consagrar um novo tricampeão. A Alemanha entrava em campo como favorita, uma vez que a Argentina se arrastou até a decisão, com jogos prolongados, ataque pouco eficiente e preciosismo de Goycochea. Além disso, os Hermanos tinham problemas. Maradona estava em má forma física e Carlos Bilardo não podia contar com quatro jogadores por suspensão – Olarticoechea, Sergio Batista, Giusti e Caniggia. A preferência do torcedor italiano foi apoiar a Alemanha, ainda rancorosos pela derrota na semifinal. O hino argentino foi vaiado durante sua execução e Maradona não gostou nada da postura.

Foto: Getty Images

Durante toda a partida, o prognóstico foi cumprido à risca. Melhor, mais completa e com peças de desequilíbrio, a Alemanha foi ao ataque e desperdiçou a chance de definir a partida no primeiro tempo. Foram oito oportunidades apenas na etapa inicial. Os argentinos permaneciam acuados e inofensivos. No segundo tempo, a situação se repetiu e os germânicos ainda tiveram mais facilidade. Aos 20 minutos, a Albiceleste expôs o descontrole emocional e o nervosismo. Monzón tinha entrado no intervalo e foi expulso após cometer falta dura em Klinsmann. A vitória teuta veio apenas nos minutos finais. Em pênalti polêmico aos 40 minutos, Sensini cometeu falta em Rudi Völler. Na cobrança, Brehme colocou a bola no canto e garantiu a vitória simples e o tricampeonato. A Argentina ainda teve mais um expulso e as reclamações contra o árbitro mexicano Edgardo Codesal permaneceram. Ao fim das contas, festa germânica e título conquistado 36 anos depois.

Lance que decidiu a Copa do Mundo 1990: Alemanha tricampeã (Foto: Getty Images)

Seleção da Copa 1990

Foto: Hugo Alves/Editoria de Arte/VAVEL Brasil
Foto: Hugo Alves/Editoria de Arte/VAVEL Brasil

 

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