Garrincha: Copas do Mundo, invencibilidade, polêmica e dribles
Garrincha em uma disputa de bola com um jogador de Portugal, em 1962 (Foto: Acervo Estadão)

Garrincha: Copas do Mundo, invencibilidade, polêmica e dribles

O irreverente jogador do Botafogo levantou duas taças mundiais com a Seleção Brasileira e 60 jogos sem perder

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Juliana Azeredo

“Campeonatinho mixuruca. Tem nem segundo turno”. Foram com essas palavras que Manuel Francisco dos Santos, Mané Garrincha, encerrou a participação na Copa do Mundo de 1958. Seu primeiro título com a seleção Brasileira e os primeiros passos para encantar o mundo com suas – mágicas – pernas tortas, dribles e a parceria histórica e invicta com Pelé. Mané participou de três Copas do Mundo, que lhe renderam dois títulos, sendo o nome da amarelinha em 1962. A camisa 11 sempre foi digna dos grandes craques do futebol, mas ninguém ficou tão marcado quanto o “Anjo das Pernas Tortas”.

Com 15 irmãos na família e de origem humilde, em Magé, no Rio de Janeiro, Mané já despertava interesse dos clubes quando ainda jogava de amador no Esporte Clube Pau Grande, originário do bairro em que ele residia. Foi levado para fazer os testes no Botafogo e acabou por ficar no clube durante, praticamente, toda a sua carreira (95% das partidas, de 1953 a 1965). Também jogou pelo Corinthians, em 1966, Flamengo (1969) e Olaria, mas já estava longe do futebol que o apresentou ao mundo.

Pela Seleção Brasileira, onde jogou de 1957 a 1966, Garrincha não abandonou seu jeito de jogar irreverente. Fazia o que queria com os adversários estrangeiros, chegava a “enfileirá-los” com seus dribles, como lembrou Didi em uma homenagem ao companheiro. “Eu fazia um lançamento e tinha vontade de rir. O Mané ia passando e deixando os homens de bunda no chão. Ele fila, disciplinadamente", disse.

Copa de 1958: Quem é Mané Garrincha?  

Foi durante a Copa de 1958 que o Brasil apresentou ao mundo  o garoto de 17 que viria a se tornar o maior jogador de todos os tempos e o gênio de pernas tortas com dribles impossíveis de conter, Pelé e Garrincha respectivamente. Além dos dois jovens, a seleção ainda contava com outros craques como Didi, Nilton Santos, Djalma Santos e Zito.

No Brasil, com a televisão presente em poucas cidades e sem alcance mundial, o jeito era acompanhar a competição pelo rádio ou ir para as ruas ouvir pelos alto-falantes nas frentes dos jornais. Encantados pelo que a seleção havia feito, um mês depois, a filmagem dos jogos já antecediam os filmes nos cinemas e, dizem os registros da época, que algumas pessoas viam cinco ou seis vezes o mesmo filme só para ver de novo os jogos de 58.

A Copa de 58 foi a sexta edição da competição mundial e contou com 16 seleções, sendo 12 européias e 4 americanas (Argentina, Brasil, México e Paraguai). O Brasil caiu no grupo 4, junto com a União Soviética, Inglaterra e Áustria. Terminou a fase de grupos em primeiro lugar com 5 pontos, 2 vitórias e 1 empate, contra a Inglaterra.

Foi no terceiro jogo da Seleção Brasileira, contra a temida, na época, União Soviética que o técnico Vicente Feola fez duas alterações. Pelé e Garrincha eram reservas imediatos de Joel e Dida mas, Pelé, recuperado de uma contusão, acabou por dar lugar a Mazzola. Segundo os jornais da época, a entrada de Mané só foi decidida na véspera do jogo em um treino secreto. Uma lenda da época diz que os atletas mais experientes, como Nilton Santos e Didi, que jogavam no Botafogo, mesmo clube de Mané, lideraram uma “rebelião” para obrigar Feola a escalar os dois futuros craques.

As mudanças no jogo contra a potência soviética deram certo e o Brasil venceu por 2 a 0, com dois gols de Vavá. Naquela vitória, Garrincha foi tão espetacular na partida que recebeu diversos elogios da imprensa internacional, como “assombroso” e “mercurial”. Com a classificação para as quartas de final encaminhada, a seleção do técnico Feola tinha a sua formação ideal. “Eles eram infernais. Ninguém os conteria. Se você marcasse o Pelé, Garrincha escapava e vice-versa. Se você marcasse os dois, o Vavá entraria e faria o gol. Eles eram endemoniados”, disse, uma vez, Just Fontaine, artilheiro da seleção francesa. O Brasil ainda bateu o retranqueiro País de Gales por 1 a 0, indo a Semifinal e dando um baile nos Franceses por 5 a 2.

O placar se repetiu na final contra os donos da casa, Suécia. Vavá e Pelé inspirados fizeram dois gols cada e a goleada se completou com o quinto gol de Zagallo. Todos os torcedores, inclusive os suecos, aplaudiram de pé os jogadores brasileiros e a história de Garrincha que se formava ali. Na seleção do mundo daquele ano, eleita por jornalistas, preenchia oito cadeiras com Gilmar, Bellini, De Sordi, Nilton Santos, Didi, Pelé, Vavá e, claro, Garrincha.

Pelé e Garrincha comemoram o título mundial de 1958, na Suécia (Foto: FASS)
Pelé e Garrincha comemoram o título mundial de 1958, na Suécia (Foto: FASS)

Copa de 1962: Prazer, eu sou Garrincha 

“Garrincha, de que planeta vienes?” essa era a manchete que estampava o jornal chileno El Mercúrio durante a Copa do Mundo de 1962. Se Maradona carregou a Argentina nas costas em 1986, Mané fez muito antes em 62. Com a lesão do camisa 10 brasileiro, no início do torneio, sobrou para o carioca ser Garrincha e ser Pelé e ir buscar, no Chile, o bicampeonato da Seleção Brasileira.

O Brasil estava no grupo 3 junto com a Tchecoslováquia, México e Espanha. A amarelinha terminou em primeiro lugar com 5 pontos (2 vitórias e 1 empate). O único empate foi logo na segunda partida da competição contra a Tchecoslováquia e teve um sabor amargo de derrota. A principal estrela do time, Pelé, com 21 anos na época, se contundiu e ficou fora do restante da competição. Garrincha assumiu a responsabilidade e virou referência no restante do mundial não só com dribles, mas jogadas perigosas e gols – foi vice-artilheiro com 6 gols.

Após passar em primeiro no grupo, o Brasil encontrou a Inglaterra nas quartas de final. A seleção comandada por Mané venceu por 3 a 1 com direito a um espetáculo do jogador do Botafogo. Garrincha driblou inúmeros ingleses e foi responsável por 2 gols, sendo o terceiro de Vavá. Uma das situações inusitadas daquela Copa aconteceu durante esse jogo: um cão – símbolo do clube de Garrincha, Botafogo – invadiu o gramado e conseguiu driblar ninguém menos que o Mané.

Após a Inglaterra, o Brasil encontrou os donos da casa para decidir quem iria para a final. O Chile não incomodava e deixou Garrincha abrir dois gols de vantagem ainda no primeiro tempo e só descontou no final da primeira parte. Ainda sim, na volta do intervalo, Vavá marcou mais dois gols, enquanto o Chile reverteu um pênalti, finalizando a partida em 4 a 2 para o Brasil. No entanto, outra situação de desespero para os brasileiros no final do segundo tempo: Garrincha deu um chute em um jogador chileno e foi expulso, ficando de fora da final.

O caso de Garrincha foi para o tribunal da FIFA para analisar a expulsão. No relatório do juiz peruano, Arturo Yamazaki, constava que ele não havia visto o chute do jogador brasileiro no adversário. Na partida, os jogadores adversários alertaram o juiz que consultou um bandeirinha, confirmando a agressão do brasileiro. No tribunal, o bandeirinha da partida, Esteban Marino, foi chamado para depor, mas não compareceu. Por falta de provas, a FIFA apenas advertiu Garrincha, deixando o apto para jogar a final. A decisão foi dada, inclusive, em um plantão na televisão brasileira. A história foi muito contestada pela imprensa chilena na época, principalmente pelo sumiço do bandeirinha, mas ficou apenas como um folclore de Copa do Mundo.

Protagonista no campo e nos tribunais, Garrincha foi para a final encontrar, mais uma vez, a Tchecoslováquia. Por ironia do destino ou castigo dos deuses do futebol, Mané, que não deveria estar em campo, entrou com 38 graus de febre e teve uma atuação distante das que estava acostumado. O Brasil começou perdendo, mas virou e fez 3 a 1, conquistando a Copa do Mundo de 1962, ou Copa do Mundo de Garrincha. Naquele ano, o jogador do Botafogo foi o bola de ouro da Copa do Mundo da FIFA.

Copa de 1966: Obrigada, Garrincha.

A seleção brasileira foi para a Copa de 1966 com um “mix” de gerações: alguns veteranos dos campeonatos de 1958 e 1962 e algumas novas estrelas que viriam a fazer história em 70, como Gerson, Tostão e Jairzinho. No entanto, esse encontro de gerações de craques não foi suficiente para fazer uma boa campanha em 66 e, de sobra, ainda foi preciso se despedir da maior dupla que o futebol já viu: Pelé e Mané. Garrincha jogava no Corinthians e já havia deixado o seu auge para trás.

O Brasil estreou na Copa com uma vitória por 2 a 0 contra a Bulgária e, como se o destino trabalhasse a seu favor, os dois gols da partida foram de Garrincha e Pelé, na última vez em que jogaram juntos com a camisa de sua seleção. O segundo jogo, Garrincha teve que buscar a responsabilidade mais uma vez já que Pelé estava contundido e teve, ali, a sua única derrota com a amarelinha contra a Hungria por 3 a 1. No terceiro jogo, Mané foi barrado e Pelé de volta, o Brasil perdeu mais uma vez, dessa vez para Portugal e se despediu assim do mundial.

Jornalistas, torcedores e comissão técnica choravam a eliminação precoce do bicampeão mundial, mas também a despedida de seu craque e o fim, que já estava próximo, da sua carreira. O carioca ganhou duas Copas e outros diversos títulos com o Botafogo e prêmios individuais ao longo da carreira, mas levou, também, diversos problemas físicos e pessoais, principalmente com a bebida.

Garrincha completou 60 partidas pela Seleção Brasileira com 17 gols. Ganhou duas Copas do Mundo, três taças Bernardo O’Higgins, três taças Oswaldo Cruz e um Superclássico das Américas, além de diversos títulos individuais até depois de sua morte. Junto com Pelé, a dupla teve 93,7% de aproveitamento em campo. Era próximo da perfeição. “Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade: a maior figura do futebol brasileiro desde Pedro Álvares Cabral”, escreveu Nelson Rodrigues. 

 

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