Vozes silenciadas: o grito de socorro dos proibidos a gritar gol
Arte/VAVEL Brasil

“Quando eu vou à Arena, procuro ser discreto, procuro não mostrar que sou gay. Já fui com um namorado em alguns jogos, porém, lá, a gente se comportava como dois amigos ‘héteros’”. É a partir da declaração de uma das vozes, que o tom da reportagem se inicia. Você compreenderá de variadas reações à LGTBFobia sofrida nos estádios por parte dos que vivenciam na pele. Aos protagonistas desta reportagem, um denominador comum em seus relatos: a indignação pelo cenário heteronormativo.

Três homens cis gays e duas mulheres cis lésbicas, entre 22 e 30 anos, se identificam ao ato de coragem e desabafam de um mesmo ambiente intolerante em suas proximidades, mesmo que variados entre as regiões Sudeste, Sul e Nordeste. Trata-se do Brasil como sendo um país de dimensão continental, diversificado em clima, raça, etnia, sexualidade, entre outros fatores, mas homogêneo à intolerância.

“Fazíamos o possível para controlarmos nossa emoção”

Raílson, homem cis, 24 anos, gay, apaixonado pelo Corinthians

Fundador da FIELLGBT, Raílson nunca sofreu um constrangimento nos estádios porque se aprisionou em condutas que fugiam do seu ‘eu’. A cada 26 horas, morreu um LGBT+ no país em 2019, segundo relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia. Além disso, o Brasil lidera, nos últimos 10 anos, o ranking de assassinatos à transexuais, segundo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado no final de janeiro deste ano.

“É difícil... Principalmente quando a torcida canta músicas homofóbicas, e, no Corinthians, tem várias músicas deste tipo. Fico até sem jeito quando eles começam a cantar esses trechos”. As diversas repressões veladas sofridas na Arena Corinthians não foi o que estimulou Raílson a criar uma página LGBT do Timão, mas a sugestão de um ‘arquirrival’ do futebol - no qual se apresenta como adversário numa partida mas se coincide na vontade de combater opressões:

“Tive a iniciativa depois que eu comentei na página de torcida LGBT do Palmeiras. Eles me mandaram uma mensagem perguntando porque eu não fazia uma página LGBT da torcida do Corinthians para acolher os torcedores. A partir daí, nasceu a FIELLGBT (criada em 12 de novembro de 2019) ”.

A cada declaração até o fim desta reportagem, vai se tornando claro o caminho inviável a liberdade, limitando-os à condição de não transparecer a orientação sexual, tão pouco colocar em prática projetos que incentivem a desconstrução: “Todos os dias têm pessoas pedindo que eu pare com a página, porque, ali, estou envergonhando o resto da torcida. Enfim, são muitas manifestações preconceituosas”.

“O mundo sob um olhar heterocentrista”

Yuri, homem cis, 25 anos, gay, apaixonado pelo Cruzeiro

“Desde cedo, fomos acostumados a ver o mundo sob um olhar heterocentrista. Tudo o que foge ao que os héteros julgam ser o certo, é abominável e desprezível. E a solução que eles têm de tentar acertar esse 'erro' é julgar, humilhar, bater, matar”.

No dia 17 de maio, comemora-se o Dia Internacional de Combate à LGBTFobia – aversão a Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. Trata-se do dia em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) descartou do Código Internacional de Doenças o termo ‘homossexualismo’, em 1990.

A realidade, de lá para cá, tem provocado ações progressistas por parte da entidade máxima de saúde: em 2018, a OMS deixou de classificar a transexualidade como ‘doença mental’ em sua edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID). Porém, permanece como ‘incongruência de gênero’, aquela, segundo o catálogo, “acentuada e persistente entre o gênero experimentado pelo indivíduo e àquele tido em seu nascimento”.

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As progressões pouco refletem no ambiente futebolístico. Yuri tem comportamento distinto ao protagonista anterior. De peito mais aberto a encarar a intolerância, suas idas com o namorado no estádio lhe renderam insultos, ameaças e ofensas – permanecidas até hoje por sua militância à inclusão do LGBTQi+ no esporte.

“No final dos anos 1800, Charles Miller trouxe para o Brasil o futebol, uma magia capaz de unir uma nação inteira. Um esporte com espírito de coletividade que conseguiu a proeza de juntar classes sociais, velhos, jovens, homens, mulheres (nem tanto) e crianças. Por outro lado, ele nunca conseguiu realmente agregar os LGBTQi+.

Um dia, Justin Fashanu (jogador) rompeu a barreira do preconceito e se tornou o primeiro jogador de futebol a assumir ser gay. Mas, além de tudo, Justin era negro, e todos sabemos que o futebol veio para agradar brancos. Os negros sempre foram taxados como inferiores. Justin sofreu pressão dupla, até decidir que iria suicidar, e assim fez. Em seu bilhete de despedida, ele disse "enfim, encontrei a paz".

No Brasil, a cada 24h, um LGBTQi morre, e todos os outros perdem mais um nessa guerra. Quando um clube se nega a repudiar atos de LGBTfobia, ele está dizendo que está tudo bem e permitindo que mais Justin's aconteçam dentro e fora das 4 linhas. Precisamos, com urgência, parar de querer tratar os LGBTQi+ e tratar os LGBTfóbicos; parar de querer limitar o direito de viver do outro e começar a ensinar como respeitar o próximo e suas particularidades. O futebol está doente, sempre esteve, do racismo à LGBTfobia, do machismo a desigualdade de classe, e, enquanto uns ignoram tais problemas, outros sentem na pele seus efeitos.

Lésbicas são sexualizadas; gays são ridicularizados e taxados como chacota; bissexuais não têm credibilidade pois dizem que é indecisão ou só uma fase; e as outras letras da nossa sigla - quando gostam de futebol - são como se fossem invisíveis. ”

“Um enfeite de arquibancada”

Mariana (nome fictício), mulher cis, 28 anos, lésbica, apaixonada pelo Paraná

Conforme adiantou Yuri, a perspectiva de opressão direcionada à mulher está sob condição de enxergá-la como objeto de sexualização. O simples fato de não ser homem já a válida sob um tom intimidador nos estádios. Dobrando-se a um outro grupo minoritário, se faz ainda pior.

“Frequentar estádios de futebol sendo mulher é estar sujeita a todo tipo de assédio (físico ou verbal), sendo uma mulher lésbica é ainda pior. Os homens sempre vão achar que você é uma pessoa frustrada, que não encontrou o cara certo. Você segue sendo considerada um enfeite de arquibancada e, para completar, confrontar essas pessoas é colocar sua vida em risco.

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A homofobia existe e não é frescura. Os torcedores LGBTQ+ também existem. Nossa luta sempre foi por um espaço que é nosso por direito, a nossa única vontade é a de poder acompanhar nosso time do coração de perto, de poder frequentar o estádio sem ouvir piadas ofensivas, sofrer ameaças e agressões ou até mesmo perder a vida. Nossa luta não é por privilégios, se engana quem enxerga dessa forma. Esse preconceito escondido em uma máscara de preocupação com “a moral e os bons costumes” é uma forma de se manter cego para o que realmente acontece.

Se um experimento for realizado dentro de um estádio, as pessoas conseguirão enxergar de uma forma muito mais clara o que acontece com cada torcedor LGBTQ+. Os olhares são de reprovação. O tom intimidador faz com que você não queira mais estar naquele local por medo de que aconteça algo ruim; agressões físicas com a justificativa de que você está manchando o nome e a imagem do clube e da torcida.

Qualquer pessoa com o mínimo de humanidade deveria reprovar atitudes assim. Mas não é o que acontece, não é o que presenciamos. Infelizmente, nossa luta está longe de acabar. Por essas e outras, que os nossos movimentos são tão necessários: por cada torcedor que um dia precisou se afastar de seu time do coração, por cada torcedor que sentiu na pele a dor do preconceito, da exclusão que a sociedade prega”.

“Estamos em passo de formiga”

June, mulher cis, 22 anos, lésbica, apaixonada pelo Santa-Cruz

“A mulher lésbica no futebol é vista como homem. Eles (público predominante no futebol) te veem como homem, como ser masculino. Tem a questão do fetiche: homem adorar ver mulher beijando mulher. Nunca levei nenhuma companheira minha para o estádio. Quando eu vi a notícia do Yuri (filmado em uma partida com seu namorado), eu andei para trás.

Fui notando com o passado da minha vida que, muitas vezes, me reprimi, me escondi. As pessoas vinham me chamar de sapatão ou ‘homem’, por meu jeito ser mais ‘masculino’, não sei o quê. Começavam a me relacionar como tal e usar daquilo ali para me humilhar, me rebaixar, me sentir mal. Eu vi que passei por muito tempo desse jeito. Chega a um ponto que não dá para ficar calada e fingir que não está acontecendo nada. Está acontecendo e é revoltante. Deve ter tantas pessoas que nem eu, sabe? Tantas pessoas que acabaram se afastando do futebol por causa do ambiente hostil. Eu vou fazer o que eu amo, acompanhar o que eu gosto e vão ter que me engolir, vão ter que respeitar o meu espaço, porque eu também tenho voz.

Eu vou para o estádio e vejo famílias – pai, filho e mãe. Eu não poderia levar minha companheira para o estádio de futebol? Se eu estiver com minha família, eu não poderia levá-la ao estádio por medo de apanhar. Não ia apenas me pôr em risco, mas também minha família. Vai ter uns que vão dizer: é melhor você não ir. Então, eu vou deixar de ir para algo que eu amo para agradar aos outros? Não, eu tenho o mesmo direito de levar família ao estádio de futebol. Estamos em ‘passo de formiga’.

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A nova geração sai mais do armário, está mais entendida das coisas. Meu ciclo começa a entender as coisas mais rápida. Torcemos para uma mudança, mesmo que, no momento atual, não conseguimos ver uma luz no fim do túnel”, observa.

“O público LGBT é economicamente ativo”

Onã, homem cis, 30 anos, gay, apaixonado pelo Bahia

De uma perspectiva mais empreendedora, o mais experiente das vozes, Onã fundou a torcida LGBT do Bahia no intuito de propor ações, iniciativas, medidas, protocolos e campanhas que ajudam combater a violência do tipo de preconceito dentro do ambiente de futebol – sobretudo tudo nos jogos, como afirmou.

“A gente tem tido um êxito razoável, temos avançado bastante na questão. Nós temos feito debates com o clube. A torcida (LGBT+), quando surgiu, causou logo estranhamento, mas isso foi importante também, porque o ambiente de futebol é cristalizado de violência. Escutamos algum tipo de piada nos estádios, mas são coisas muito residuais, porque, como o Bahia tem uma posição nítida sobre a questão, isso acaba que contém alguns dos torcedores. Já que o clube defende, porque o torcedor – que, na realidade, é uma base de apoio do clube – vai se opor a isso? Vai se insurgir de forma a desrespeitar o que o clube toma de posição pública? É muito difícil que alguém faça isso, mas enfrentamentos vários debates. Tem turma que é contra as ações afirmativas; turma que confunde ações afirmativas com ações assistencialistas; turma que tenta fazer o discurso de que determinadas coisas se caracterizam como ações afirmativas e não se caracterizam. Então, é bem complexo o debate”.

O Esporte Clube Bahia revela-se um clube ativista às causas, o que é peculiar no cenário futebolístico brasileiro: “Um clube de portas abertas para conversar e que constrói suas relações baseadas nesse diálogo que se tem com as pessoas”.

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“Tem uma adversidade muito bacana que está encostando no futebol - isso precisa ser respeitado, legitimado, acolhido. Têm equipes que resistem a isso ainda. Não percebem a dimensão que isso tem, inclusive à questão financeira: o público LGBT é economicamente ativo, uma cadeia produtiva irritável. A partir do Pink Money (poder de compra da comunidade LGBT), diversas pessoas e empresas têm procurado acessar. Essa cadeia produtiva produz um efeito importante na sociedade. É o bolo das coisas que faz bem para o clube, faz bem para as pessoas. Nós temos tratado de se ocupar disso no último período, e temos colhido alguns frutos importantes. Vamos continuar cobrando, vamos continuar pressionando, para que o ambiente do futebol também seja um ambiente sadio, mais saudável e menos violento”.

Esporte Clube Bahia: a Instituição que se opõe ao padrão de seu universo

O Bahia foi o primeiro clube do mundo a ter nome social para pessoas trans - implantado a um ano e meio. Em janeiro de 2019, a equipe nordestina permitiu o nome social – aquele que substitui o nome de registro - em carteiras de sócio, crachás, entre outros setores ligados à instituição.

A notícia foi divulgada no dia 29 de janeiro, quando se é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans: “Entendemos que abrir vaga de emprego para pessoas trans é forma de um enfrentamento à opressão”, explicou Tiago César, coordenador do Núcleo de Ações Afirmativas do Bahia.

Além disso, o clube constantemente proporciona uma série de campanhas educativas, a partir de atuações que transcendem espécies promocionais e alcançam atuações educativas ao seu público.

As iniciativas pró-LGBTQi+ do Bahia sob a palavra de Tiago César.

Linha estabelecida pelo Bahia para planejar suas iniciativas

Conselheiros são eleitos por voto livre dos sócios – inclusive, sócios de todas as categorias. Por ser um clube popular e democrático, a gente tem que defender sempre a democracia, os interesses de uma coletividade, prevalecendo os interesses populares – dos menos favorecidos. Isso leva a uma linha de atuação estratégica que estrutura trazer narrativas e luta por direito de grupos sociais – historicamente expressivos -, porém, politicamente pouco representados. A linha que a gente estabelece é: quais são as pautas sociais, os movimentos sociais, que são urgentes, expressivos, mas que possuem pouco respaldo político? Temos a tendência de busca causas contra hegemônicas.

O fato de sermos um clube do Nordeste, popular e democrático é coerente com tudo que a gente tem buscado. O pontapé inicial foi no momento que incluímos isso como uma das metas desta gestão. A partir daí, fizemos um mapeamento de agenda. Essa agenda de trabalho inevitavelmente contempla as pautas de combate à LGBTFobia.

A visão da LGBTFobia no futebol

No futebol, a LGBTFobia reflete toda a opressão social. O futebol é uma expressão mais acalorada, mais acintosa, do ódio e preconceito. A gente sabe que a homofobia no futebol tem um traço muito próprio, cristalizado. Diante disso, se as instituições não assumirem esse desafio de dissolver a homofobia, dificilmente ela será dissolvida, porque ela é um reflexo da sociedade. As instituições (futebolísticas) lutarem por isso é um começo. O que a gente puder fazer para coibir, educar, pautar, debater e também constranger pessoas preconceituosas, nós iremos fazer. O preconceito precisa ser encarado com a força que ele tem. Ele é muito forte e, às vezes, ‘sutilmente’ colocado. Mas, sabemos que nada há nada de sutileza. Existe uma força muito bruta, institucionalizada, estrutural, que é muito difícil a gente combater, mas vamos combater.

Postura institucional de outras equipes brasileiras. Há um esforço para mudar o cenário?

Em 2018, no dia de Mundial de Combate à LGBTFobia, três clubes apenas publicaram algum tipo de conteúdo de combate – obviamente, um deles era o Bahia. De todas as Séries (A,B,C e D) que fizemos levantamentos, apenas três clubes publicaram. Neste ano, 17 clubes da Série A publicaram. Não podemos negar que há um avanço, mas também há um avanço da intolerância, que está institucionalizada (praticamente) no Brasil.

Quem desrespeita a ordem da vida humana – numa circunstância de pandemia, por exemplo -, naturalmente, não vai respeitar em condições de saúde pública normal. Não só a população, mas aqueles que enfrentam riscos de vida constantemente. O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Mata três vezes mais que o México, que está em segundo lugar. Um país que tem essa marca genocida contra a população LGBT, dificilmente vai conseguir mudanças profundas de custo prazo. E as instituições são reflexos dessa sociedade – sociedade essa que precisa evoluir muito. Eu acredito que tem, sim, um avanço. Esse avanço simbólico dos clubes já é um começo. Muitos, em outras épocas, não publicariam - ainda que quisessem – com medo de retaliações, com medo de torcedores homofóbicos. Tudo isso me parece fazer parte de um passado, esse receio, essa pauta velada, ela passa a não ser tão velada.

O Bahia é um dos protagonistas deste processo. Com as campanhas que desenvolvemos, acabou trazendo uma série de responsabilidade para com o movimento do futebol como um todo. Então, as pessoas naturalmente esperam a hora que o Bahia vai se manifestar e como vai se manifestar nessa situação. O Bahia é uma instituição que vem para dar um recado: o tema é responsabilidade todos, e não somente o clube progressista Bahia.

Os frutos colhidos

Precisamos ter utilidade pública, além da cadeia produtiva econômica do futebol. A utilidade pública se dá no momento em que a gente se coloca à disposição para debater e enfrentar temas, desafios, opressões e violência sociais.

Acreditamos que estamos cumprindo esse papel institucional, de ser um agente transformador da sociedade. Como consequência, a gente tem a simpatia das pessoas, um aumento de torcedores que não torciam para time nenhum e passaram a torcer para o Bahia; um aumento de torcedores que têm o Bahia como segundo time; aumento na venda de produtos fora de Salvador; aumento de seguidores das redes sociais; visibilidade da marca dos nossos patrocinadores – o Bahia sai no New York Times, El País (entre outros noticiários internacionais).

Nós temos, hoje, um alcance de visibilidade institucional e, naturalmente, isso tem repercussões no quadro de sócios, venda de produtos, captação de patrocínios - na visibilidade institucional como um tudo. Porém, não é este o fim, mas uma consequência de um objetivo muito bem traçado, que é dar o Bahia um sentido, uma vida além das quatro linhas; dizer que o futebol tem que ser um elemento de inclusão e de transformação.

O futebol une as pessoas, gera assunto, gera elos afetivos. Elos afetivos não podem ser elos que delimitam quem usufrui disso: uma pessoa LGBT precisa ter espaços de elos afetivos, assim como qualquer outra pessoa que sempre beneficiou do futebol para isso

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