Treinador Bruno Monteiro fala sobre experiência na Alemanha e projeto futebol brasileiro após pandemia
Foto: Divulgação

O Campeonato Rondoniense está paralisado desde o dia 14 de março, por conta da covid-19, mas apesar de apenas sete rodadas disputadas, algumas surpresas positivas foram apresentadas. O Ji-Paraná, tradicional clube do estado, ainda não perdeu, inclusive venceu seu último compromisso. O clube que também apresentou Bruno Monteiro, treinador de apenas 28 anos e que começou no Gênus.

Aos 16 anos de idade, Monteiro ingressou na Unidade Federal da Paraíba, com o objetivo de virar treinador de futebol. Logo depois acumulou passagens pela escolinha do Auto Esporte e Cabo Branco, onde comandou as equipes. Em 2014, com apenas 22 anos, comandou o Sub-20 do Celeste Esporte Clube, indo depois para o Femar e Botafogo-PB.

O treinador também teve uma pequena passagem na Alemanha, onde comandou o Russinger, equipe da sexta divisão da Alemanha. Monteiro bateu um papo com a Vavel Brasil e contou um pouco sobre sua experiência no esporte.

Vavel Brasil:  Com 28 anos você já tem passagens por grandes clubes, como Botafogo-PB e Ji-Paraná, clube que se encontra atualmente. Como iniciou a tua vida como treinador e quando decidiu que era a hora de seguir esta carreira?

Bruno Monteiro: Sempre fui amante e extremamente fascinado pelo futebol. Tive relações próximas com treinadores que trabalhei enquanto atleta. Entrei na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com 16-17 anos e vislumbrava a possibilidade de me tornar treinador de futebol após encerrar minha carreira. Foi justamente no meu último ano de juniores, com 19/20 anos de idade, que fui convidado para compor o quadro de treinadores da escola de futebol do Auto Esporte Clube, e na base acumulei as funções de treinador de goleiros e auxiliar técnico a convite do treinador da categoria sub-18.

Depois do meu início no Auto Esporte em 2011 fui convidado, em 2012, a fazer parte do Esporte Clube Cabo Branco, que naquela altura possuía a mais tradicional escola de futebol de João Pessoa, sendo referência no trabalho com atletas entre 3 a 15 anos de idade.

 No ano de 2014 tive minha primeira oportunidade de comandar uma equipe de rendimento. Pelo Celeste Esporte Clube disputei minha primeira competição estadual, o Campeonato Paraibano Sub-20. Na época tinha praticamente a idade dos meus atletas, era um clube amador de João Pessoa, repleto de dificuldades, mas conseguimos realizar um grande trabalho. Realizamos grandes jogos, inclusive contra o Botafogo Futebol Clube e o Auto Esporte Clube, ambos os mais tradicionais da capital.

Em um desses confrontos contra os grandes, contra o Botafogo, fizemos um confronto equilibrado e a partir desse dia passei a ser monitorado pela diretoria gestora da base na época. Na temporada de 2015 tive minha primeira experiência no futebol profissional, comandei o Femar na segunda divisão do Campeonato Paraibano.

 Em 2016 enfim acertei contrato com o Botafogo-PB, para comandar a equipe sub-17. Na época foi a concretização de um sonho, uma etapa planejada em minha carreira, de forma meteórica e natural. Foi ali que percebi que as coisas estavam caminhando.

Vavel Brasil:  Do Sub-17 do Belo você foi para o Humaitá, como foi essa experiência lá. Quais pontos que você destaca naquela equipe? Como foi depois a passagem pelo Corinthians-PP?

Bruno Monteiro: Após minha saída do Belo, no final de 2016, fiquei um período em casa, passei pelo famoso período sabático. Em abril de 2017 surgiu a oportunidade de ir trabalhar no futebol paulista, algo que eu tinha planejado desde o início da minha carreira.

Tive uma temporada muito agregadora em minha formação, foi uma temporada incrível, onde permanecemos cerca de sete meses invictos, conhecendo a primeira derrota no último jogo em que comandei o clube naquela temporada.

Em setembro de 2017 surgiu uma sondagem do Humaitá, projeto ambicioso que tinha profissionais com forte ligações dentro do futebol, como Fabrício Ribeiro, ex-Coritiba e Paraná, Luiz Henrique, ex-Santos, e Wagner Basílio, ex-Corinthians, São Paulo, entre outros.

Sou um cara movido a grandes desafios, é um dos maiores combustíveis que me impulsionam. Quando surgiu a sondagem não pensei duas vezes, internamente comigo eu sentia a necessidade de me auto avaliar em diferentes contextos.

Vavel Brasil: Do Humaitá você acabou indo para o Russinger, atualmente na sexta divisão da Alemanha. O que te motivou a ir para lá e quais as diferenças no treinamento e do jeito de jogar do alemão em relação ao brasileiro?

Bruno Monteiro: Minha experiência no futebol Alemão foi agregadora. Pude vivenciar confrontos contra treinadores de outras nacionalidades, estando diretamente inserido em uma nova cultura e que acima de tudo possui suas peculiaridades.

Considero que minha adaptação ao contexto foi viável, pois tinha algumas variáveis favoráveis. Considero como fundamental a montagem do elenco, que realizei com atletas brasileiro,s que na sua grande totalidade já tinham trabalhado comigo aqui no Brasil. Outro fator que penso ter sido preponderante é com relação a minha metodologia e métodos de treinamentos, além da convicções que possuo sobre futebol. Convicções estas que vão de encontro com a cultura de jogo desenvolvida de forma sistematizada em todas as ligas do futebol alemão.

Com relação ao jogo praticado na sexta liga da Alemanha, vejo sendo desenvolvido com um futebol pautado em princípios, onde todas equipes possuem em suas matrizes conceituais o princípio de posse e circulação. Em organização defensiva todas equipes marcam tendo como princípio a zona pressionante. É uma competição que possui uma boa intensidade, principalmente pelo nível de organização tática das equipes que acaba exigindo concentração extrema por parte dos atletas. O maior legado foi poder retornar com convicções consolidadas e amadurecidas.

Vavel Brasil:  Quais os pontos que você observou lá que acabou usando no Gênus e atualmente no Ji-Paraná? Pensa em voltar para o clube ou para o país em um futuro próximo?

Bruno Monteiro: Tanto no Gênus como no Ji-Paraná tive que me adaptar aos contextos vivenciados por ambos clubes. Tenho minhas convicções que não abro mão, porém é fundamental possuirmos resiliência e nos adaptarmos o mais breve possível ao contexto atual do clube que estamos inseridos.

O desenvolvimento de um modelo de jogo depende de inúmeras variáveis e são completamente ímpares, algo construído para aquela determinada equipe de forma bem pontual e específica. Jamais vou descartar um provável retorno para o futebol alemão, porém hoje tenho foco de seguir desenvolvendo a minha carreira no meu país de origem e mais para frente buscar explorar o mercado asiático ou o mundo árabe.

O mais importante é buscar observar o que cada treinador tem a oferecer e que consequentemente possa me agregar de alguma forma.

Vavel Brasil:  Quais técnicos você mais se inspira? Observa alguma característica deles nos teus treinamentos?

Bruno Monteiro: De uma forma geral, admiro inúmeros profissionais, com competências diferentes busco acompanhar as idéias inseridas nos trabalhos do Guardiola, principalmente no seu processo de organização ofensiva. Do Tite observo muito a forma como ele gere as pessoas que trabalham diretamente com ele. O Mourinho penso, que além de ser um dos precursores no desenvolvimento da periodização tática, possui boas idéias de gestão do espaço em seus processos de organização defensiva.

Não posso esquecer do Arrigo Sacchi, precursor da marcação zonal, marcação mais utilizada nessa última década. São inúmeros profissionais que tenho buscado acompanhar.

Vavel Brasil: Em meio a pandemia muitos clubes vão passar por uma reestruturação no seus elencos, incluindo os de menor investimento. Acredita que esta paralisação tenha prejudicado o planejamento do Ji-Paraná ou também serviu para corrigir alguns pontos para o restante da temporada?

Bruno Monteiro: A reestruturação é inevitável, estamos vivenciando um período atípico e que mexeu muito em todos os setores da economia, refletindo diretamente no futebol. Ainda é cedo e não consigo mensurar o quanto essa pandemia vai trazer de consequências para os clubes.

Quando assumi o Ji-Paraná, no início do segundo turno do Rondoniense 2020, tínhamos uma missão extremamente complexa, que era vencermos todos os jogos, ter um elevado percentual de aproveitamento para alcançarmos nosso primeiro objetivo, que era a classificação para semifinal. Vinhamos em um grande processo de evolução, com um grupo de atletas fielmente empenhados em buscar o título para o clube. A parada foi um baque gigantesco para todos.

Vavel Brasil:  Hoje o planejamento da equipe é para conseguir se classificar para a próxima fase da Série D ou já existe um estudo dos possíveis adversários na Série D? Tem algum confronto que você acredita que poderá ser o mais complicado?

Bruno Monteiro: Temos mantido contatos, quase que diariamente com o presidente do clube. Estamos trabalhando nos bastidores com a idéia de mantermos 80% dos atletas que já estavam no estadual e buscarmos atletas pontuais para que possamos qualificar nosso elenco. Acredito que a tendência é que nosso primeiro jogo após o retorno do futebol, seja justamente o jogo do confronto mata a mata contra a tradicional equipe do Nacional de Manaus.

Vavel Brasil:  O que o torcedor do Ji-Paraná pode esperar do Bruno Monteiro para o restante da temporada? Quais os teus principais sonhos?

Bruno Monteiro: A massa do Galo da BR é uma torcida que apoia de forma incondicional e, quando preciso cobra muito, ainda mais por já estarem sempre acostumados a ganhar títulos.

Assim como em todos meus trabalhos anteriores, não faltará entrega, luta, dedicação, abdicações e muito profissionalismo, incluindo as várias noites de sonos perdidas em prol do melhor de todos.

Meu principal sonho era me tornar treinador profissional. Hoje possuo o que chamo de metas a serem conquistadas, passo a passo, no tempo que for necessário. Dentro destas metas a principal é o inédito acesso à Série C do Brasileiro e a tão sonhada conquista do decacampeonato para o maior de Rondônia.

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