Análise: Valtteri Bottas tem quatro motivos para celebrar e três para esquecer 2020
Foto:  Divulgação / Mercedes

A temporada 2020 de Valtteri Bottas na Fórmula 1 foi repleta de altos e baixos. Por um lado, o finlandês venceu duas provas e conseguiu o vice-campeonato do Mundial de pilotos pela segunda vez consecutiva, superando Max Verstappen por nove pontos. Por outro, o atleta da Mercedes foi questionado pelas dificuldades que teve em várias corridas e por não ter conseguido sequer ameaçar o heptacampeonato do companheiro Lewis Hamilton, apesar de dirigirem o mesmo carro.

Afinal, 2020 será um ano para Bottas comemorar ou esquecer? A resposta é que há razões tanto para o finlandês sorrir, quanto para lamentar. 

Para comemorar: vitórias

Bottas no topo do pódio do GP da Rússia (Foto: Bryn Lennon/Reuters)
Bottas no topo do pódio do GP da Rússia (Foto: Bryn Lennon/Reuters)

Acima de tudo, um grande piloto de Fórmula 1 é movido pelas corridas em que termina na frente. Nesse sentido, Bottas teve duas conquistas que devem ser celebradas em 2020: as vitórias nos GP's da Áustria e da Rússia.

Na primeira delas, no Circuito de Red Bull Ring, Valtteri foi o pole position e liderou a prova de ponta a ponta. Já na última, no Autódromo de Sóchi, Bottas se aproveitou de uma punição de 10 segundos sofrida por Hamilton e venceu pela segunda vez em território russo.

Agora, o finlandês soma nove primeiros lugares na carreira, sendo o terceiro corredor mais vitorioso de seu país, atrás de Kimi Räikkönen (21) e Mika Häkkinen (20). Aos 31 anos, Bottas ainda pode sonhar em se tornar o piloto da Finlândia com mais corridas vencidas, mas, para isso, precisará se manter em uma equipe competitiva nos próximos anos.

Para esquecer: soberania de Hamilton

Bottas chegou a Mercedes em 2017 para ser o "fiel escudeiro" de Lewis Hamilton, mas ainda não conseguiu brilhar mais que o companheiro de equipe. As duas vitórias de Bottas em 2020 perdem força quando comparadas às incríveis 11 provas vencidas por Hamilton neste ano, com um carro da mesma equipe.

Além disso, quando se comparam os desempenhos dos dois pilotos durante o tempo em que são companheiros de time, a distância parece ainda maior. Enquanto Bottas somou 16 poles e 9 vitórias desde 2017, Hamilton tem impressionantes 37 poles e 42 provas vencidas no mesmo período, sem contar os quatro títulos mundiais consecutivos.

Ofuscado pelo talento do inglês e ainda na busca por seu primeiro troféu de campeão mundial, Bottas chegou a reconhecer que tem tido dificuldades de disputar com o parceiro de Mercedes.

“Não é nenhum segredo que tenho batallhado com Lewis por anos e anos, e eu sei o quanto isso exige de mim”, disse o finlandês em entrevista ao site oficial da Fórmula 1. “A cada fim de semana, tento obter 100% de mim e continuar pressionando. Às vezes chego perto, às vezes consigo bater nele. Mas ter uma derrota pelo quarto ano consecutivo em termos de título do campeonato é difícil de aceitar".

Para comemorar: bom desempenho nas classificatórias

Se acompanhar Hamilton em ritmo de corrida não tem sido tarefa fácil para Bottas, os treinos classificatórios tiveram uma disputa mais parelha entre os dois carros da Mercedes em 2020. O finlandês conseguiu cinco pole positions na temporada, conquistadas nos GP's da Áustria, 70 Anos da Fórmula 1 (em Silverstone), Eifel, Emilia Romagna e Sakhir.

Esse número de poles é o maior da carreira de Valtteri em um mesmo ano, empatado com a temporada de 2019. Comparado aos grandes nomes da história de seu país, Bottas, que largou na frente do grid em 16 oportunidades ao longo da carreira, está próximo de superar Räikkönen, que tem 18 poles. O líder entre os finlandeses é Mika Häkkinen, com 26.

Além dos treinos em que terminou na liderança, Bottas também deu trabalho e chegou perto da pole em outras oportunidades. Não à toa, largou na primeira fila em 14 das 17 provas disputadas na temporada.

Para esquecer: largadas e estratégias ruins

Bottas foi ultrapassado por quatro carros na largada do GP da Hungria. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
Bottas foi ultrapassado por quatro carros na largada do GP da Hungria. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)

O desempenho em voltas rápidas foi, sim, um elemento a se destacar de Bottas nessa temporada. Porém, outra parte da corrida custou pontos importantes para o piloto em várias provas de 2020: a largada.

Entre as cinco corridas em que largou na primeira posição do grid, Bottas só venceu no GP da Áustria, que abriu a temporada. Além disso, quando as duas Mercedes largaram na primeira fila, o finlandês não conseguiu passar a frente de Hamilton na primeira volta em nenhuma prova do calendário. Quando o companheiro foi Russell, o finlandês também foi ultrapassado pelo inglês logo na primeira volta do GP do Sakhir.

Bottas também teve problemas na largada no GP da Hungria. Saindo da segunda posição, o carro do piloto da Mercedes se moveu ligeiramente antes de todas as cinco luzes se apagarem -o  finlandês disse depois que reagiu às luzes em seu volante em vez das luzes reais. Como o movimento foi pequeno, os sensores não captaram e, portanto, Bottas não foi penalizado pelos comissários. Porém, ele prejudicou sua própria largada e perdeu quatro lugares na primeira volta.

Nas outras provas em que saiu da primeira posição, o obstáculo enfrentado por Bottas foi outro: a estratégia de corrida. Exemplo disso foi o GP dos 70 Anos da Fórmula 1, disputado no tradicional circuito de Silverstone. Valtteri manteve a primeira posição na largada, mas acabou superado pela RBR de Max Verstappen durante a corrida por ter sofrido mais com os pneus. Bottas até voltou na frente do holandês após a parada, mas foi rapidamente ultrapassado e terminou com o terceiro lugar.

Dificuldades também no GP da Emília Romagna. Enquanto o pole position Bottas parou logo no início da corrida, Hamilton foi aos boxes durante o safety car virtual, o que permitiu ao heptacampeão voltar à frente dos adversários e vencer a prova.

Porém, a maior trapalhada do ano aconteceu no GP do Sakhir. Os carros da Mercedes estavam brigando pela liderança da prova quando um acidente envolvendo a Williams de Jack Aitken levou à entrada do safety car na pista. Com isso, a equipe Mercedes rapidamente chamou Russell - que substituia Hamilton na prova - e Bottas para os boxes, mas uma confusão generalizada fez com que o inglês recebe os pneus do finlandês, que precisou recolocar um material que já havia sido usado. Resultado: Bottas perdeu desempenho e terminou apenas em oitavo.

Por fim, Bottas não confirmou a pole do GP de Eifel, devido a problemas na unidade de motor que o tiraram da corrida antes do final. De fato, o azar esteve mais ao lado do finlandês que a sorte em 2020.

Para comemorar: contrato renovado e confiança de Totto

Mesmo com a diferença de performance em relação a Hamilton, Bottas está prestigiado na equipe Mercedes. Logo no mês de agosto, o piloto foi um dos primeiros do grid a ter seu contrato renovado para 2021. Até então, quatro provas já haviam sido disputadas, e uma pole, uma vitória e três pódios foram conquistados pelo finlandês nesse período.

A renovação também agradou o chefe da escuderia alemã, Toto Wolff. O comandante disse na época que a permanência de Bottas é um passo importante do futuro na categoria.

"Valtteri é um cara direto e trabalhador que tem um bom relacionamento com toda a equipe — incluindo seu companheiro de equipe, o que não é um fato quando dois pilotos estão lutando pelo campeonato", disse Wolff.

Para esquecer: sombra de Russell

Russell deu trabalho para Bottas no GP do Sakhir. (Foto: Tolga Bozoglu/Reuters)
Russell deu trabalho para Bottas no GP do Sakhir. (Foto: Tolga Bozoglu/Reuters)

Apesar de contar com o apoio da escuderia alemã, Bottas contestado pelo público por não conseguir o mesmo desempenho de Hamilton com o carro da Mercedes. Além disso, o finlandês ainda viu um novo piloto despontar como seu possível substituto na equipe alemã: o inglês George Russell.

Com o diagnóstico positivo de Covid-19 de Hamilton, Russell deixou a Williams e assumiu o carro da Mercedes para o GP do Sakhir, onde teve uma grande performance. Primeiro, no qualifying, quando conseguiu o segundo lugar do grid com um tempo apenas 0,026s mais lento que o de Bottas. Depois, assumiu a ponta logo na largada, dominou metade da corrida e só não conquistou a primeira vitória na carreira devido à trapalhada da Mercedes no pit-stop e ao posterior furo no pneu, que o deixaram em uma honrosa nona posição, uma atrás do finlandês.

Com a louvável participação de Russell em sua primeira prova com um carro verdadeiramente competitivo, surgiram rumores de que o piloto pudesse assumir o lugar de Valtteri Bottas já em 2021. Toto Wolff negou essa possibilidade e garantiu que Bottas segue na equipe no ano que vem, o que foi confirmado com a divulgação da lista provisória de pilotos para a próxima temporada. Porém, é bom que o finlandês tome cuidado: um novo campeonato abaixo da média pode fazer com que ele perca sua vaga para Russell em um futuro próximo.

Para comemorar: crescimento pessoal

Apesar das dificuldades, a necessidade de lidar com os problemas fizeram com que Bottas pudesse se desenvolver física e emocionalmente. O próprio piloto reconheceu que a temporada, mesmo com os percalços, foi de aprendizado para ele.

“Se eu olhar para trás, para este ano, há muitos aspectos positivos que posso tirar”, disse Bottas. “Consegui melhorar em muitas áreas. Com certeza ainda não é o suficiente para ganhar o título, mas vou continuar pressionando. Houve algumas corridas em que perdi alguns pontos por azar, mas também houve algumas corridas em que Lewis foi melhor do que eu, e foi no final que ele fez a diferença".

Garantido na categoria em 2021, Bottas terá mais uma chance de mostrar que merece pilotar pela Mercedes e que tem potencial para ser campeão do mundo. Mas também terá muito o que provar para não ter seu lugar na melhor equipe do grid ameaçado novamente.

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