Benfica: erros de «casting» dão bom filme de terror
Entre saídas e dúvidas, Benfica debate-se com uma pré-época assustadora

Benfica: erros de «casting» dão bom filme de terror

Nova derrota encarnada, agora diante do Valência, ditou fecho de pré-época terrorífico. Apenas duas vitórias e tudo o resto foram derrotas, pior: constantes exibições confrangedoras, numa equipa dominada pela ausência dos seus grandes talentos...ainda sem substitutos à altura.

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O Benfica fechou, esta tarde, o conjunto de jogos programados para a pré-época, voltando a perder: os encarnados somaram a sexta derrota em oito partidas. Para trás ficam desaires frente a Sporting (1-0), Marselha (2-1), Ajax (1-0), Atlético Bilbao (2-0), Arsenal (5-1) e Valência (3-1). Num jogo que encerrou a participação do Benfica na Emirates Cup, a formação orientada por Nuno Espírito Santo levou de vencida a de Jorge Jesus, acabando por deixar os encarnados com um péssimo saldo na competição - oito golos sofridos e apenas dois marcados.

Disputado do Emirates Stadium, o jogo até começou de feição para as «águias», que inauguraram o marcador por intermédio de Derley, logo ao segundo minuto. O tento madrugador não estabilizou o Benfica, que apesar de controlar a partida viu a vantagem desmoronar-se na segunda parte devido aos golos de José Gayá, Pablo Piatti e Andrés Guardado, todos eles marcados num curto espaço de 10 minutos. Os «raids» valencianos gozaram da ajuda de Artur, um dos pilares da desgraça encarnada - os golos (aos 49, 54 e 60 minutos) reflectiram a sua actual incapacidade de defender com assertividade as redes do Benfica.

Jogos desgarrados e distantes da competitividade pretendida

Ninguém duvida da capacidade de Jesus na tarefa de construir jogadores de topo, banhando-os com a sua sabedoria táctica e técnica; mas, a verdade é que nunca o treinador encarnado tinha sofrido uma razia tão significativa no seu onze principal - o guarda-redes titular, o lateral esquerdo titular, um dos centrais, um dos extremos e um dos avançados...todos eles partiram, deixando a formação titular bem mais enfraquecida. Além disso, Jesus perdeu um activo no meio-campo (André Gomes) e as dúvidas sobre a permanência de Enzo e Gaitán mantêm-se.

As saídas, aliadas às avulsas entradas, contribuíram para as péssimas demonstrações futebolísticas nesta pré-época: 14 golos concedidos, fraco rendimento táctico, embaraçosa incompetência defensiva e um ritmo competitivo baixo. Nunca o Benfica foi capaz de despertar os adeptos com as suas exibições, nem sequer nas duas partidas das quais saiu vencedor. Sídnei e César atrapalham-se nas suas próprias limitações claras (um pela inexperiência e outro pela inerente incapacidade), Luis Felipe não aparenta possuir pingo de categoria, Candeias e Jara nada acrescentam, enquanto a Talisca exige-se um traquejo ainda fora do alcance do inexperiente brasileiro. 

Quanto a Bebé e Eliseu, ambos chegaram para competir a frio, sem um entrosamento inicial e ainda distantes de uma forma física ideal. Ainda assim, restam muitas dúvidas sobre a capacidade de ambos para fazerem esquecer a proficiência, quer de Siqueira quer de Markovic (ou de Rodrigo, caso Jesus prefira colocar Bebé na frente de ataque). Para agravar a situação, o lateral ex-Málaga lesionou-se, o que irá atrasar a sua preparação física.

Política de contratações errática

A nova época do Benfica não aparenta, agora que esta terminou, ter sido planeada ao pormenor. Ao invés, a cadência das contratações e a sua categorização parecem indicar que tudo se desenrolou ao sabor do momento e sem um guia estratégico, quer financeira quer desportivamente. Se analisarmos o lote de contratados, verificamos que poucos são os activos comprados para atalharem caminho rumo ao onze principal: de todos eles, apenas Derley e Talisca parecem aptos a integrar a formação inicial

Os restantes soam somente a transacções infundadas, inúteis e de propósito duvidoso: Dawidowicz e Friesenbichler parecem condenados à equipa B (apesar da convicção de ambos em integrar a A), Djavan chegou e partiu para o Braga (o que justifica tal indefinição?), Luis Felipe revela falta de qualidade gritante, César não deverá ser a aposta que acompanhará Luisão no eixo defensivo (verde demais), Benito aparenta ser secundário (tal a rapidez com que foi relegado após a chegada de Eliseu, a verdadeira aposta de JJ para a faixa esquerda da defesa); Victor Andrade não acumulou jogos (uns escassos minutos apenas) e Candeias não tem, declaradamente, a mesma qualidade dos extremos com quem terá de competir.

Tudo somado, o Benfica dispendeu 15 milhões de euros para apenas ter pouquíssimas garantias de reforçar com prontidão a sua equipa, tendo, inclusive, contratado jogadores sobre os quais recaem imensas dúvidas quanto às suas potencialidades. Num parâmetro diferente temos Eliseu e Bebé, duas apostas sérias mas que não garantem, inequívocamente, serviço regular, já que a imberbe qualidade de um (Bebé) e a debilidade física doutro (Eliseu, atrasado na preparação), atrasarão certamente a adaptação ao clube. Mais: se um veio para ser dono do lugar, o outro terá de se esforçar por agarrar um lugar, já que nas alas e no ataque as vagas parecem preenchidas...até ver.

Que onze fará o arranque da temporada?

Outro elemento destabilizador é a quantidade de ausências que o Benfica tem, quer devido a lesões quer devido ao Mundial 2014. Luisão e Lisandro López estão lesionados e até agora não realizaram qualquer minuto na pré-época que agora findou. Enzo também ainda não participou em qualquer jogo - resta a lógica pergunta: com que onze começará o Benfica a época, que arranca já daqui a pouquíssimos dias, com a Supertaça? A menos de duas semanas do tiro de largada da liga, o Benfica não pôde testar nem preparar o seu melhor eixo defensivo (López e Luisão, arrisco, senão, para que contratou López?...), nem olear o seu meio-campo com o seu timoneiro Enzo.

Como atingir a pretendida hegemonia?

O filme de terror ganha contornos mais acentuados quando fazemos a lógica ligação desta pré-temporada com o final da época transacta, quando os encarnados rejubilavam com a conquista do campeonato e proclamavam aos sete ventos o começo do fim da hegemonia portista, reforçando por um término de época desgraçado por parte dos rivais «dragões». Se a lógica da altura parecia indicar esse rumo, rapidamente os eventos seguintes alteraram drasticamente os prognósticos das massas adeptas. 

A debandada do onze campeão (ligada à crise bancária nacional) e as pobres contratações empurraram o Benfica para a mó de baixo, enquanto que a potente política de contratações do FC Porto e a boa pré-temporada sportinguista (lúcida e estável) pintaram um novo quadro, onde o Benfica surge descontruído, sem entrosamento, pleno de dúvidas existenciais (técnicas) e com carências motivacionais, patentes nas opiniões dos adeptos. A pretendida hegemonia, que há poucos meses parecia tão perto, hoje é dada como bem mais distante...pelos próprios adeptos benfiquistas, descrentes.

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