Há dezenove anos, o Pacaembu virava campo de batalha
Torcedores de Palmeiras e São Paulo se enfrentam a pauladas. (Foto: Divulgação)

Há exatos dezenove anos, em 20 de agosto de 1995, a cidade de São Paulo vivia uma manhã fria e ensolarada de domingo, que ficaria marcada na história do futebol nacional. Mas, infelizmente, não foi da melhor maneira. Naquela manhã, os juniores de Palmeiras e São Paulo viriam a se enfrentar na final da já extinta Supercopa São Paulo de Futebol Júnior. O torneio foi criado pela Federação Paulista de Futebol (FPF) no ano anterior, com o intuito de preencher o calendário dos atletas sub-20 que, até então, só contava com a disputa da tradicionalíssima Copa São Paulo de Futebol Júnior.

O Alviverde teve 100% de aproveitamento na primeira fase, quando venceu Ponte Preta, Flamengo e Juventus. Nas quartas-de-final, eliminou a Lusa e, na semifinal, o Grêmio. Como a base palmeirense nunca foi das melhores, o São Paulo chegava àquela decisão como favorito.

O jogo foi disputado no Estádio Paulo Machado de Carvalho (o Pacaembu) e sem cobrança de ingressos. Como a área do tobogã estava interditada para obras, as duas torcidas ficaram separadas por um cordão de isolamento da PM. No dia, o estádio recebeu um público de número inferior a 8.000 torcedores, mas que eram em sua maioria jovens e com ligações às torcidas organizadas.

Durante o tempo normal, o São Paulo foi superior, criou mais chances, porém não soube finalizar corretamente. Já a equipe do Parque Antártica optou por jogar buscando contra-ataques, mas quase não chegou ao gol são-paulino.

Com o jogo terminando empatado em 0 a 0, teríamos 30 minutos de prorrogação divididos em dois tempos de 15 minutos cada e em formato de "morte súbita" ou "gol de ouro". Sendo assim, quem colocasse a bola na rede primeiro, ficaria com a taça.

Aos seis minutos do primeiro tempo de prorrogação. o torneio acabou. Bola lançada na entrada da área para o atacante Rogério, que recebeu e soltou a bomba, sem dar chances de defesa ao goleiro Tricolor. Era o primeiro gol que o São Paulo sofria na competição, mas era também a primeira vez que a Sociedade Esportiva Palmeiras conquistava um título nacional de juniores.

A invasão e o terror

Em meio a tanta emoção, palmeirenses invadiram o gramado do Pacaembu para festajar o titúlo inédito. Porém, os alviverdes aproveitaram a ocasião para provocar a torcida tricolor. A partir dali, cenas de violência e terror seriam vistas pelas televisões de todo o Brasil, numa batalha campal entre as torcidas organizadas das duas equipes, manchando aquele dia na história. Dito e feito.

Com o tobogã em obras, haviam montanhas de entulho com paus e pedras, além das bandeiras de bambu que naquela época ainda eram permitidas nos estádios paulistas. A torcida são-paulina, revoltada com a derrota e com a invasão dos palmeirenses para comemorar, derrubou parte do alambrado, atravessando para onde estavam os entulhos. 

Armados com paus e pedras, os tricolores foram de encontro aos alviverdes para uma verdadeira guerra campal no gramado do Pacaembu. Apesar do público baixo para o estádio, o número de policiais militares era muito reduzido e a confusão não foi controlada.

Sensação de impunidade

No final de tudo, foram 102 torcedores feridos e um morto. Márcio Gasparin da Silva, são-paulino de apenas 16 anos, sofreu inúmeras pancadas na cabeça e ficou oito dias internado em estado grave, até não resistir mais e falecer no dia 28 de agosto daquele ano.

Mesmo com vários torcedores envolvidos na briga, apenas um deles foi condenado. Trata-se do palmeirense Adalberto Benedito dos Santos, que pegou 12 anos de reclusão, que nunca foram cumpridos.

Após o incidente, o Ministério Público Estadual pediu a extinção da Mancha Verde e da Torcida Independente. Na teoria, as torcidas deixaram de existir. Na prática, a organizada do Palmeiras tornou-se Mancha Alviverde e a Independente apenas mudou de estrutura.

Melhorou, mas não muito

Até hoje, brigas nos estádios brasileiros são frequentes. As torcidas organizadas brigam horrorosamente contra organizadas de times adversários e até mesmo contra outras torcidas do seu próprio time. São como "partidos politícos" diferentes.

Em São Paulo, já foram proibidas as bandeiras de bambu e, no Brasil todo, sinalizadores, algumas torcidas organizadas, faixas, instrumentos e uniformes também foram extintos. O policiamento hoje tem mais treinamento para os jogos e maior número de militares dentro e fora do estádio. 

O controle maior dentro dos estádios, especialmente com a colocação das câmeras, afastou a violência das praças futebolísticas, mas carregou-a para as ruas. São marginais que cometem crimes durante dias de jogos. Talvez seja mais uma questão de falta de segurança pública do que de fiscalização das organizadas. 

Não é apenas falta de fiscalização, é um problema de educação. A idéia de ser contra a violência tem de partir da escola, da formação do indivíduo. E o Brasil, nesse aspecto, deixa muito a desejar.

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