Nova arquibancada carioca: a cultura Barra Brava no Rio de Janeiro
Arte: Hugo Alves/VAVEL Brasil

Para o amante do futebol e fanático pelo seu clube, talvez a melhor sensação do mundo é ir ao estádio presenciar uma partida de seu time. Na última década, as arquibancadas por boa parte do Brasil vêm sofrendo uma grande mudança. A ascensão das Barras Bravas principalmente no sul e sudeste do país estão transformando o modo de torcer das regiões. Mas, afinal, o que é uma Barra Brava?

Amor à camisa, apoio incondicional, músicas empolgantes... Barra Brava é um movimento de torcedores muito comum na América do Sul, conhecida por apoiar os clubes com cânticos intermináveis, realizando verdadeiras festas nas arquibancadas, costumando localizar-se atrás dos gols e acompanhando os jogos sempre com muita alegria. No entanto, em seus países de origem, as Barras Bravas também são marcadas por inúmeras polêmicas. Para o Brasil, foi importada a melhor parte do movimento: as lindas festas nos estádios.

Em 2001, no Rio Grande do Sul, devido influência vinda de seus países vizinhos e visando criar torcidas que apoiassem à equipe durante todo o decorrer do jogo, ganhando ou perdendo, e fugir das tradicionais torcidas organizadas que prevalecem no Brasil, foi-se criada a primeira Barra Brava brasileira: a Geral do Grêmio. Um pouco depois, em 2003 seguindo a rivalidade entre os dois clubes gaúchos, nas arquibancadas do Internacional, surgiram duas Barras: a Popular do Inter e a Guarda Colorada. Com o passar do tempo, a Geral do Grêmio foi ganhando forças, se consolidando em 2005 quando o time gaúcho disputava a Série B. No Colorado, as duas Barras então decidiram se fundir chamando-a de Guarda Popular do Inter a partir de 2005.

O crescimento da cultura Barra Brava no Rio de Janeiro

Com a consolidação das Barras Bravas gaúchas, a cultura advinda do Uruguai e da Argentina, cada vez mais se expande por todo o país, principalmente na região sudeste. Frequentemente nos noticiários policiais, o Rio de Janeiro viveu uma época de cenário de guerra entre as torcidas organizadas. Recuperar o perfil tradicional das torcidas, distante da violência, exaltando o nome do clube e aproximando cada vez mais torcedores dos estádios é uma das missões das Barras Bravas cariocas. Hoje, os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro contam com a presença dessas torcidas, apoiando-os incondicionalmente.

Bravo 52: O Bravo ano de 1952 – ou, Bravo 52, como é conhecida –, foi criada em 2009 e faz menção ao ano em que o Fluminense conquistou o Mundial (Taça Rio, na época). A torcida é uma herança do movimento Legião Tricolor, que surgiu em 2006 com o intuito de mudar a forma de torcer pelo Tricolor, com mais animação e novas músicas, atraindo assim, de volta aos estádios, muitos torcedores que haviam se afastado.

“Não dá pra falar da Bravo 52 sem citar a Legião Tricolor, somos uma descendência da Legião, que surgiu com o objetivo de mudar as arquibancadas, com músicas mais criativas, sem violência e apoiando o time o jogo inteiro. E, então a Legião estourou na Libertadores de 2008 com a festa dos mosaicos e sinalizadores. Em agosto 2009 foi criada a Bravo 52 por um subgrupo da Legião com uma ideologia parecida: apoio incondicional. Com inspiração no visual e nas músicas das Barras Bravas argentinas. A ideologia da Bravo é essa. Cantar e apoiar do primeiro ao último minuto”, disse um dos organizadores da Bravo 52, Pedro Scudieri em entrevista à VAVEL Brasil.

“A nossa ideologia, no entanto, não pode ser confundida. As cobranças pontuais existem, caso necessário. Mas sempre de forma pacífica e depois do jogo. Sem violência. Isso tudo faz parte da nossa ideologia. Recebemos de braços abertos aqueles que querem apoiar o Tricolor. Torcida independente pelo Fluminense, sem receber nenhum benefício por isso. Amizada, paixão e alento. Nada mais. Acredito que esses são os motivos de não só a Bravo, mas as Barras cariocas crescerem tanto nos últimos anos. As arquibancadas pediam inovação”, finalizou.

Loucos Pelo Botafogo: Há dez anos nas arquibancadas alvinegras, a “Loucos Pelo Botafogo”, vem ditando o ritmo nas partidas do alvinegro carioca. A “LPB” utiliza o número 22 em seu slogan associando-o a quem é maluco, louco, como eles gostam de ser chamados. Pelo Botafogo. Sempre. Apoiando o clube incondicionalmente. A prova disso foi quando o alvinegro, disputou a segunda divisão sem sua principal torcida organizada nas arquibancadas, fazendo crescer um movimento independente e forte.

“A Loucos pelo Botafogo surgiu em fevereiro de 2006. A iniciativa de criar a primeira Barra Brava carioca surgiu com o objetivo de trazer a cultura desse movimento sul americano, mas não necessariamente ao pé da letra, pois sabemos que no restante do continente a maioria das Barras têm envolvimento com tráfico de drogas, então procuramos sempre trazer a parte boa da cultura que é o apoio incondicional seja nos momentos bons ou ruins. A primeira premissa da torcida é essa. Isso pesou muito no crescimento da Loucos durante esses dez anos de caminhada. Ficamos em evidência por onde passamos pois o trabalho da Loucos Pelo Botafogo é sério, na qual o clube sempre foi o principal pilar disso, em qualquer situação. Botafogo, amizade, união e arquibancada”, declarou Juan Reis, diretor de marketing da LPB em entrevista à VAVEL Brasil.

“Um dos principais motivos da torcida ter crescido tanto foi por conta das punições das Torcidas Organizadas. Isso foi crucial. Outro ponto importante, foi o fato de termos pego um ano chave para o clube que foi o de 2013, com Maracanã lotado juntamente com a punição das Organizadas. Isso ajudou bastante. Foram seis meses de Maracanã sendo a única torcida na arquibancada. Depois veio a Libertadores em 2014, na qual novamente só tinha a Loucos na arquibancada. Ali começou nossa ascensão. Veio a Série B e nunca deixamos de estar presente. Foram esses os principais motivos da Loucos Pelo Botafogo ter crescido tanto nos últimos três anos, sendo uma das maiores torcidas do Rio de Janeiro”, completou.

Guerreiros do Almirante: Na mesma época, no Vasco, surgiu a Guerreiros do Almirante, a GDA. Em tempos de rebaixamentos do cruzmaltino, se tornou comum que a torcida comandasse os cânticos nas arquibancadas e, mesmo em minoria, cantassem mais alto. Com a punição temporária da principal torcida organizada do Vasco, a GDA se fortaleceu nas arquibancadas de São Januário, adquirindo muitos adeptos.

“Na verdade, na GDA ainda há uma confusão sobre o termo Barra Brava. Uns gostam de serem intitulados assim, outros nem tanto devido à concepção das Barra Brava originais, que têm histórias com máfias da América do Sul. Temos a inspiração mas isso é muito relativo. Nossa intenção é ser uma torcida de paz, procurando sempre evitar brigas dentro e fora dos estádios. Orientamos os líderes de bairro para isso. O integrante é nosso maior patrimônio”, explicou Breno Batista, uns dos líderes da GDA à VAVEL Brasil.

“Nós buscamos uma mescla com o estilo da Barra Brava do apoio o jogo inteiro, mas misturamos, é claro com a cultura do Brasil e do Rio de Janeiro, com músicas com base em sambas enredo e funk, por exemplo. Buscamos inspirações aonde for. Queremos criatividade na arquibancada. Não somos adeptos a nos intitularmos diferentes das outras torcidas do Vasco. Só procuramos visar sempre a festa nos estádios, esse é o motivo de nossa ascensão”, concluiu.

Nação 12: No setor norte do Maracanã, é comum percebemos diferentes torcidas organizadas que não têm sincronia em seus cantos, o que gerava inúmeras brigas entre as mesmas. Esse foi um dos fatores pelo qual a Nação 12 surgiu. O movimento inspirado nas Barras Bravas portenhas é o mais novo dentre as outras Barras cariocas, no entanto, vem se tornando cada vez mais forte e imponente, apoiando o rubro negro incondicionalmente.

“O movimento Nação 12 foi criado em outubro de 2009, com o intuito de ser uma torcida que cante os noventa minutos, independente da situação e momento. Isso não quer dizer que não haja cobrança. Cobranças pontuais existem, mas nosso principal objetivo é o apoio exaltando o clube. Somos favoráveis a ajudar o Flamengo financeiramente nos associando ou pagando nossos ingressos. Mas somos contrários à elitização do futebol, cobramos ingressos a preço popular e a liberdade para torcer”, disse em entrevista à VAVEL Brasil o diretor geral da Nação 12, Diego Lima.

“Além disso, a Nação 12 se posiciona também em assuntos fora das arquibancadas, como apoio aos movimentos estudantis pois acreditamos que torcida também tem seu papel de movimento social. Acreditamos que esse também é um dos motivos do crescimento da Nação 12. Com a nossa proposta de renovação nas arquibancadas, ela tende a crescer ainda mais”, finalizou Diego.

Cantar pelo clube, exaltar a camisa e declarar amor às cores dos clubes. Os cânticos das Barras Bravas entoam cada vez mais forte no Rio de Janeiro e em todo o Brasil, reinventando a maneira com que se torce na arquibancada e atraindo cada vez mais torcedores aos estádios realizando grandes festas.

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