Campeonato Paulista de 1959: O Palmeiras que parou o Santos de Pelé
Arte: Natália Furlan/VAVEL Brasil

O futebol brasileiro não leva a fama de ser o mais encantador do mundo à toa. A invenção do esporte não é verde e amarela, é claro. Mas o país sagrou-se terra do futebol por outros motivos. Pela beleza que deu à arte da bola nos pés. Pela ginga, pelo futebol bonito, pelo encantamento diferente que vinha das arquibancadas. O Brasil reinventou o futebol.

A história do futebol brasileiro - e da própria reinvenção – surgiram, de fato, no século vinte, quando o futebol, dizem, tinha bem mais essência e simplicidade. Não era o futebol do dinheiro nem das arenas impecáveis. Era um futebol mais espirituoso, leve e com jogadores bem menos preparados fisicamente. Por certa ironia, foi esse futebol simplório que encantou as primeiras gerações de apaixonados.

Diferentemente do que se vê nos dias de hoje, o torcedor brasileiro tinha outra relação não só com o estilo do futebol jogado, mas com os campeonato estaduais. Pode parecer que não, mas os torneios regionais eram mais importantes que a própria Libertadores, cuja importância só foi reconhecida a partir dos anos 90, principalmente depois do bicampeonato do São Paulo (1991 e 1992). A tal perda de valor dos estaduais é destacada pelo jornalista Alberto Helena Jr, que disse, em um programa do Sportv:

“Eu tenho uma tese, há muitos anos, que o campeonato estadual é anacrônico (fora de época). Isso porque o calendário é feito em função de outras competições, que levam à disputa de torneios continentais. Além do mais, é muito mal feito. Se querem mantê-lo por tradição, que façam um campeonato maior, com todos os times”.

Santos era refêrencia do futebol bem jogado

Ser campeão estadual era o orgulho, a brincadeira com os rivais e, principalmente, o sentimento de ser o melhor na região. Coisa que superava os altos valores de outros campeonatos e, agora, deixa de ser visto.

Mesmo assim, a final entre Palmeiras e Santos, pelo Paulistão de 2015, promete boas lembranças ao torcedor. Os dois times de imensa tradição são responsáveis pela tal identidade do futebol brasileiro, com episódios marcantes, principalmente entre as décadas de 50 e 60. Um duelo de história e muita rivalidade.

O clássico nos anos 50

Palmeiras e Santos eram, seguramente, dois dos melhores times do Brasil na época. O alvinegro da baixada era até mais do que só uma potência nacional. A equipe, comandada por Pelé, Dorval e Pepe, ainda hoje é considerada uma das melhores esquadras da história. E já detinha um time bem sólido e experiente ao longo dos anos 50. O Palmeiras tentava dar fim à derrocada. Após alguns anos distante das glórias, o Palestra trouxe, mais uma vez, o técnico Oswaldo Brandão, em 1958. Além do vitorioso treinador, o dinheiro da venda do jogador José Altafini para o Milan, da Itália, deu ao clube o necessário para remontar seu elenco.

Julinho Botelho foi um dos heróis da conquista alviverde

O retrospecto dos dois times era bem diferente durante aqueles dez anos. Depois da conquista da Taça Rio em 1951, o time palestrino viu a falta de títulos permanecer até o final da década. O Santos, por outro lado, contava a série de triunfos dentro e fora do país. Além da repercussão na mídia, o time da Vila Belmiro não só havia ganhado o torneio internacional da FPF (Federação Paulista), como os campeonatos estaduais dos anos de 1955, 1956 e 1958, voltando a decidir a taça contra o próprio Palmeiras, em 1959. Uma final histórica, digna do estrelato de dois times que se tornariam supercampeões, dividindo o protagonismo do futebol paulista na década seguinte.

O campeonato paulista de 1959

O campeonato estadual de 1959 teve 20 participantes em sua edição, no formato dos pontos corridos. O campeão sairia ao final de dois turnos, nos quais todos os times jogariam entre si.

Ao final do torneio, Palmeiras e Santos empataram em 67 pontos, não havendo, até então, outros critérios de desempate.

Na época, as vitórias no formato dos pontos corridos valiam 2 pontos, fato que acabou mudando após uma lei da FIFA no ano de 1995. Com isso, os dois “finalistas” do torneio decidiriam o campeonato em uma séria de três confrontos no estádio do Pacaembu, sem mando de campo. A tática adotada apontaria qual dos dois times chegaria primeiro aos 4 pontos, o que poderia ser alcançado em caso de duas vitórias de um deles ou numa sequência de dois empates e uma vitória do campeão. O formato inusitado de decretar o campeão deu à edição de 1959 o nome de "Supercampeonato Paulista".

Confira as estatísticas do campeonato:

Número de partidas Número de gols Média de gols
383 1355 3,53
Time Colocação
Ferroviária 3º lugar
São Paulo 4º lugar
Corinthians 5º lugar
Portuguesa 6º lugar

A edição de 1959 foi digna de um roteiro de cinema, ao terminar com dois empates entre Santos e Palmeiras nos primeiros dois jogos. A decisão, consequentemente, ficou para o terceiro jogo, que vale um capítulo à parte.

O terceiro jogo: a grande final

A trinca de jogos decisiva que revelaria o campeão paulista de 1959 foi realizada nos primeiros dias do ano de 1960. Por se tratar de uma situação atípica, o calendário precisou ser alterado, levando as partidas para o próximo ano.

O primeiro jogo, no dia 05 de Janeiro, terminou com empate de 1x1, gols de Pelé (Santos) e Zequinha (Palmeiras). A placar do primeiro jogo já previa uma sequência de outros dois jogos, já que, segundo a pontuação da época, nenhum dos times chegaria aos 4 pontos com mais um jogo.

Dois dias depois, o estádio do Pacaembu recebeu a segunda partida, que, novamente, terminou empatada. Com gols de Pepe (2) para o Santos, um gol contra de Getúlio (Santos) e um de Chinesinho (Palmeiras), o 2 a 2 anunciava o que todos temiam: o campeonato ainda estava em aberto e seria decidido numa finalíssima, no dia 10 de Janeiro.

Toda a expectativa estava naquele jogo. A dia era tão importante que o jogador santista Jairo Rosa, recém-casado, voltou às pressas de uma lua de mel apenas para enfrentar o Palmeiras. Ninguém queria perder a partida mais importante daquele início de ano.

O Pacaembu estava tomado pelos torcedores, independente dos times. O futebol das duas equipes atraiu todo o tipo de torcida.

A lendária equipe do Santos

A eficiente equipe do Palmeiras

A partida começou corrida. Logo no início, Pagão deu passe certeiro para Pelé abrir o placar e o sorriso dos torcedores alvinegros. O time verde não se intimidou e continuou impondo o ritmo de jogo necessário para aguentar o forte Santos.

Ainda na primeira etapa, aos 43 minutos, o capitão Julinho Botelho empata para os palmeirenses e o destino da taça continuava incerto.

Logo nos primeiros minutos do segundo tempo, Romeiro arriscou de fora da área e marcou um belo gol. Era a virada do Palmeiras.

Mesmo com a vantagem no placar, o time do Parque Antártica continuou assustando a meta santista, com bolas na trave e grandes jogadas de Julinho.

O partida terminou e o campeonato paulista de 1959, enfim, tinha seu campeão. Infelicidade pro time do técnico Lula e alegria pros comandados de Oswaldo Brandão.

O feito palmeirense foi eternizado, dando à equipe a raríssima fama de ser uma das poucas a ganhar do fantástico Santos. O partida memorável foi uma verdadeira aula de futebol. Nos anos seguintes, não por menos, o Palmeiras revolucionava o futebol brasileiro com a chamada “Academia”, berço de grandes craques, como o futuro 10 alviverde Ademir da Guia. O Santos, por sua vez, se tornaria galáctico. O time da Vila Belmiro conquistaria o mundo alguns anos mais tarde, se firmando no hall dos eternos times da história do esporte.

56 anos depois, Palmeiras e Santos se reencontram em mais um jogo que tem todos os indícios para ser tão antológico quanto a história dos confrontos. E dos clubes.

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