Em 1986, Palmeiras superava Corinthians na semi do Paulista após injustiça da arbitragem
Plantel alviverde que se vingou no jogo de volta diante do Corinthians beneficiado pela polêmica arbitragem do jogo de ida (Foto: Reprodução)

Cidade de São Paulo, agosto de 1986. O mês que foi agitado por debates políticos para governador, censura cultural - pois o país ainda estava sob a batuta dos militares - e a fase final do Campeonato Paulista para acirrar mais ainda os ânimos daquela época. No Morumbi, Palmeiras e Corinthians se enfrentariam em dois jogos valendo vaga nas finais do estadual daquele ano. Do outro lado da chave o Santos enfrentava a zebra do campeonato: a Internacional de Limeira. Naquele cenário, o Palmeiras vinha na fila de 10 anos sem conquistar uma taça, tanto no estadual quanto nas competições nacionais. O time tinha nomes como Vagner Bacharel, Eder Aleixo e Jorginho. Já do outro lado, o Corinthians tinha Biro Biro, Casagrande e o goleiro Carlos entre os principais nomes. Os clubes demonstravam equilíbrio no papel e em campo e toda tensão que um clássico precisa para se tornar memorável.

Revista Placar

Primeira partida da semifinal: Corinthians 1 a 0 e o juiz teve que sair escoltado de campo

No dia 24 daquele mês, o time do Palmeiras, que era comandado por José Luis Carbone, faria o derby de número 148 na história do confronto. O Verdão tinha se classificado em segundo na soma geral dos pontos, assim como o rival que também possuía boa campanha e uma diferença no saldo de gols colocou o Timão na terceira posição. Portanto, no primeiro jogo o mando era alvinegro e eles triunfaram por 1 a 0 e acumularam além da vantagem para a segunda partida, a polêmica arbitragem de Ulisses Tavares da Silva Filho, que favoreceu a vitória corinthiana. O feito do árbitro foi motivo de discussão por dias, promovendo brigas e troca de ironias entre os treinadores.

A primeira polêmica do árbitro aconteceu após jogada pela direita. Éder Aleixo, atacante do Palmeiras, recebeu na ponta e cruzou para Vagner Bacharel, que completou para o gol. Seria o primeiro na partida, mas o juiz assinalou falta de ataque no zagueiro Edvaldo. A torcida protestou contra a marcação. Aquilo era o início de uma série de confusões que entraria para história da partida. E segundo apuração do repórter Luciano Borges, da Folha de S; Paulo, o juiz era torcedor do São Paulo. No dia seguinte, Ulisses se recusou a comentar sobre qual o time realmente tinha sua torcida.

No segundo tempo, aos sete minutos, Ulisses apareceu negativamente após expulsar, por reclamação, Edu do time palestrino. Houve uma falta no meio de campo onde o lateral do Palmeiras Denys derrubou Cacau e foi amarelado pelo árbitro. Porém, o juiz parou o lance por causa da reclamação e o meia alviverde recebeu vermelho direto. A iniciativa deu origem à uma confusão de jogadores contra a arbitragem. Irrevogável, o árbitro não voltou átras.

Mesmo com um menos, quem estava melhor na partida era o Palmeiras. Até aquele momento, o juiz tinha expulsado um jogador e um dirigente, Nicola Racciopi (que acusou o juíz de ser corinthiano) do alviverde, e a partida começou a ficar nervosa. A situação piorou, em jogada de contra ataque, Mirandinha recebeu na frente e conseguiu sair da marcação e do goleiro para finalizar, mas o zagueiro Edvaldo desviou com o braço e mandou para escanteio. Ullisses Tavares da Silva Filho apontou o corner e deixou os palmeirenses ainda mais irritados. A essa altura, Carbone já se queixava para o quarto árbitro, a ponto de querer invadir o campo.

Aos 40 minutos da etapa final, a confusão atingiu o ápice depois do gol marcado por Cristóvão, do Corinthians. A jogada nasceu na direita, após boa subida do lateral Edson, que dominou a bola e partiu em direção a área. No bate e rebate, a bola sobrou para Cristóvão, que chutou na saída de Martorelli. Os jogadores do Palmeiras dessa vez não acusaram somente o árbitro, mas também o bandeirinha Antonio de Paula e Silva, que validou a jogada. As acusações eram que o lateral corinthiano havia recebido a bola ilegalmente e a sequencia da jogada resultou no primeiro tento da noite. A partida ficou paralisada por 10 minutos e o trio de arbitragem teve que ser escoltado após o apito final. O bandeira foi à imprensa afirmar que foi agredido por Jorginho durante as reclamações.



Repercussão da partida: Palmeiras transtornado e Corinthians feliz com a vantagem

Na caderneta de Ulisses, mais expulsões: dessa vez Amarildo e Zetti, que estavam no banco de reservas e na confusão foram punidos. Após a partida, a revolta tomou conta dos bastidores no Morumbi e Carbone saiu irritado declarando que sentiu "vontade de agredir o árbitro". O meia Jorginho desmentiu que tivesse agredido o bandeirinha no lance do gol do Corinthians. "Cheguei ali para conversar com ele, depois veio todo mundo e eu não vi mais nada", falou. O presidente do Palmeiras na época, Nelson Duque, chamou a Federação Paulista de Futebol de "máfia" e mostrou indignação contra Oscar Scolfaro, diretor do Departamento de Árbitros da Federação. "Hoje, o Palmeiras e a Federação estão de luto, a televisão levou para o Brasil a vergonha que é o futebol paulista", falou na porta dos vestiários.

O nervosismo fez ainda presidente e vice do Palmeiras trocarem farpas pela imprensa. Francisco Hipólito, vice presidente, aproveitou a presença de jornalistas para criticar o presidente Nelson Duque. "Você foi um frouxo na questão do juiz. Na semana passada deu uma de machão e vetou três árbitros. Agora, no inicio desta semana, quis ser bonzinho e retirou o veto, o resultado é isso aí. Vai ser bonzinho numa creche, ou em uma instituição de caridade". O vice ficou transtornado e colocou em cheque até a reeleição de Duque. "Se continuar desse jeito vai ficar difícil ser reeleito", completou. Duque não respondeu às criticas.

O treinador corinthiano Rubens Minelli, admitiu baixo desempenho da equipe apesar da vitória. "Houve muito nervosismo e passes errados, senti o time nervoso e sem personalidade, talvez pela exploração que a imprensa fez sobre a goleada que sofremos no ultimo jogo contra o Palmeiras", falou. Minelli se referia ao confronto, ainda pela fase única do estadual, em que o Timão saiu derrotado por 5 a 1. Quando perguntado sobre as polêmicas durante os 90 minutos, o treinador foi simples: "são coisas do futebol", respondeu.

O principal destaque pelo lado alvinegro foi o goleiro Carlos, que fez defesas importantes e saiu de campo sem ser vazado. "Lutamos do começo ao fim", disse o arqueiro. Para o atacante Lima, o reconhecimento que o rival foi melhor e a sorte de ter saído com a vantagem: "Foi muita sorte nossa, o Palmeiras criou mais chances e jogou melhor", disse.

Porém, as tensões não acabariam ali, pois Casagrande deu a declaração que incomodou os torcedores do Palmeiras. Indo em desacordo com os companheiros, Walter Casagrande Jr, quando questionado sobre a arbitragem da partida, falou: "É normal e os jogadores do Palmeiras entraram em campo influenciados pela diretoria e qualquer coisa já reclamavam". Ele foi além, e ainda discordou do treinador dizendo que o time jogou com personalidade e boa marcação.

Ulisses Tavares da Silva Filho pôde se defender no dia seguinte ao jogo. Ulisses criticou o dirigente de futebol Nicola Racciopi: "O Nicola é do tempo de 1900 e nada. Ele acha que ganha no grito, mas não tem nada a ver" comentou. A acusação de ter influenciado o resultado pró-Corinthians vem do conhecimento de Racciopi, que o árbitro confirmou, por se tratar de um período em que o árbitro foi atendido pelo departamento médico no Parque São Jorge, quando teve um problema muscular. Ele se defendeu: "Você vive no meio do futebol, então você procura pessoas desse meio". Apesar da tranquilidade, a rotina do juiz foi alterada e segundo relatos, o juiz teve segurança reforçada e entrava e saia de hotéis pelas portas dos fundos.

Segundo jogo sem polêmica, com gol olímpico e classificação palestrina

O Morumbi receberia novamente Palmeiras e Corinthians para o segundo jogo daquela semifinal e a tensão de ser, outra vez, um jogo nervoso. Ao selecionado do Parque São Jorge interessava o empate para se classificar às finais. Ao que tudo levava a crer, seria contra a surpreendente Inter de Limeira, que havia ganhado do Santos na Vila Belmiro e poderia decretar a classificação jogando em seu estádio. Para o Palmeiras, vencer para ser feita justiça diante dos acontecimentos do jogo anterior. Naquele 28 de agosto de 1986, o jogo se estendeu muito além dos limites das quatro linhas, das arquibancadas e do estádio. A promoção da partida, no dia anterior, antecipou o sentimento de ambos os lados, de cabeças frias, para a disputa da vaga nas finais.

Rubens Minelli, treinador do Corinthians, rebatia a ironia nas palavras do treinador rival, José Luiz Carbone, ditas no intervalo entre domingo (24) e terça (27) daquele mês, afirmando que o rival era pequeno. Aquelas palavras incomodaram a todos os comandados de Minelli, que afirmou: "É verdade, nos últimos 10 anos não ganhamos nada e fizemos 46 pontos no campeonato. E, como time pequeno, jogaremos fechadinhos, daremos chutões para ambos os lados e usaremos da cera". O lateral Edson, que deu assistência para o gol na primeira partida, também incomodou com a declaração do comandante palestrino. "Não é legal ouvir esse tipo de coisa, acho que devemos tratar o Palmeiras com respeito e o Carbone deve se preocupar com o time dele", comentou.

As faíscas só aumentavam. Dessa vez, o zagueiro Vagner - que teve um gol anulado na primeira partida - se irritou com uma declaração de Minelli, onde foi afirmado que o estrategista corinthiano teria marcado um jantar para às 23h, logo após o termino da partida porque a classificação viria no tempo regulamentar e não haveria prorrogação. O xerife palestrino então respondeu: "Ele vai comer de madrugada a comida fria, e de cabeça quente". Na coletiva da terça feira antes do jogo, Carbone se justificou dizendo que não havia chamado o Corinthians de pequeno e sim que jogaria como um, por ter a vantagem no resultado.

No Estádio Cicero Pompeu de Toledo, o Morumbi, 92.982 presentes. Alviverdes e alvinegros entoando diversos cânticos e alimentando mais ainda aquele que viria ser um jogo memorável na história do confronto, e o clima propiciava isso. O Palmeiras fez pressão e no primeiro minuto o atacante Edmar chutou forte de fora da área, obrigando Carlos a espalmar. Aos 22 minutos, o Corinthians respondeu com Jacenir, que cobrou falta e Martorelli impediu que a vantagem corinthiana ampliasse. Animado pelos torcedores, o time do Parque Antártica criava mais e o goleiro Carlos terminou a primeira etapa como o responsável pelo empate sem gols.

Minelli realmente cumpriu o que disse sobre a retranca. O Timão se fechou e apostava no contra ataque. Na frente, Casagrande, Biro Biro e Lima eram os responsáveis pelos ataques. Mas naquela noite, Martorelli fez boa atuação e não teve problemas em parar o trio ofensivo. Cacau e Lima foram avaliados negativamente pela imprensa na época. Improdutivos, não conseguiram ajudar o time nas atuações lá na frente.

Aos 22 do segundo tempo, as traves ajudaram o Corinthians na jogada de Ditinho, lateral improvisado que jogou no lugar de Denys. O jogador tentou fazer um cruzamento, a bola saiu muito aberta e acertou a trave antes de sair em tiro de meta. Depois, cobrança de escanteio afastada pela zaga corinthiana e Eder Aleixo, a bomba de Vespasiano, emendou de primeira e acertou o travessão de Carlos. Angustia era compartilhada de ambos os times, um pressionava em busca do primeiro gol e o outro se defendia com todas as ferramentas possíveis. O empate classificava o time do Parque São Jorge para as finais do estadual.

O Palmeiras manteve o ímpeto e aos 42 minutos o Morumbi explodiu de verde e branco quando Jorginho cobrou falta pela direita, na cabeça de Diogo, que subiu mais que a zaga e desviou para o gol. Carlos mais uma vez defendeu no reflexo, mas no rebote Mirandinha empurrou para as redes. Gol que encerraria a vantagem do Corinthians, levaria o jogo para prorrogação e de quebra calava uma parte do estádio. A justiça estava sendo feita, mas havia a prorrogação e daria tempo para mais festa palmeirense.

Nao tempo extra, acabaram as táticas e os times queriam a vaga de qualquer jeito. O Corinthians abandonou a retranca e partiu pra cima, nervoso como um time que havia perdido a vantagem adquirida e pouco produziu ofensivamente. Martorelli fez jus ao título de melhor goleiro do Campeonato Paulista daquele ano. O Palmeiras queria manter a pressão e também se lançava ao ataque, principalmente pelas laterais e contando com os lançamentos de Eder. Aos quatro minutos da prorrogação, o Palmeiras consolidava o placar a seu favor. Mirandinha foi lançado em velocidade e ganhou de Wilson Mano após o domínio um corte para esquerda e driblava Edvaldo. Finalização na saída de Carlos e o segundo gol dele e do jogo.

O Palmeiras passou a tomar o controle do jogo e havia tranquilidade em suas ações. Era o Corinthians que tentava roubar a bola, porém sem sucesso. Os torcedores, antes do intervalo do tempo extra, veriam o ultimo gol da partida e seria um golaço. Escanteio na direita, Eder na bola e ele não tinha só força. Com uma cobrança venenosa a bola fez curva e entrou direto, por cima de Carlos, que chegou a tocar na bola, mas não impediu a pintura. Gol olímpico para fechar o placar e colocar a famosa pá de cal no resultado. O Palmeiras estava na final do estadual de 86.

Antes da partida, o zagueiro Vagner usava seu bigode característico "à la Sarney", e apostou ele contra o topete do atacante Lima. A aposta seria paga na televisão, sob a condição que se o Corinthians fosse prestigiado com a vaga na final, o bigode do juiz Ulisses Tavares da Silva Filho seria colocado a prova, pois segundo o zagueiro, a culpa da desclassificação palmeirense seria dele. Vagner saiu vitorioso, assim como Palmeiras, que iria para as finais tentar sair da fila que perdurava de 1976, até aquele ano, sem conquistar nenhum título.

Antonio Gaudério/Folhapress

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