Clássico carioca com torcida visitante e a hipocrisia dos mandatários brasileiros
(Foto: Divulgação/Botafogo)

No dia 19 de julho de 2015, Eurico Miranda bradou às margens do Rio Ipiranga (ou de Janeiro): "Que seja mantida a tradição do futebol carioca". Os alvos seriam Peter Siemsen e Mário Bittencourt, presidente e vice do Fluminense, que figuravam no papel de Reino Unido Português. O lado das torcidas para o clássico no Maracanã era o motivo do embate. Segundo mandatário vascaíno, o fato dos Tricolores permanecerem no lado direto do estádio era "uma afronta aos direitos históricos de instituições centenárias".

Pois bem, o primeiro turno passou e outro embate entre as cortes estava agendado. Após longa e arrastada guerra política, ficou decidido que o Fluminense x Vasco da 33ª rodada seria realizado no Engenhão. Não satisfeitos, foi divulgado que apenas um dos quatro setores seria destinado para a torcida Tricolor. O Norte, atrás do gol, com capacidade reduzida. Em outras palavras, teremos o primeiro clássico do Rio de Janeiro com torcida visitante.

Àqueles que bradaram aos sete ventos sobre a manutenção das tradições cariocas, hoje, são os mesmos que - irônicamente - rasgam estatutos e tropeçam nos próprios argumentos de meses atrás. Não porque existe um documento que permita, mas porque convém no momento. Seja por problemas políticos ou simplesmente birra.

Mas não haverá reclamação. Não haverá chilique em rede nacional. Não vai ter comoção nacional e nem textos sobre moral e bons costumes. Não existe revolta quando os 'donos' do futebol carioca são privilegiados. Mesmo que tal mudança acarrete em consequências maiores a longo prazo que uma simples escolha de lados de torcidas. Consequências piores, inclusive.

Desde sua inauguração, o Maracanã recebe clássicos divididos meio a meio. No novo formato, setores Norte e Sul ocupam torcidas únicas, enquanto Leste e Oeste é destinado aos mistos. No Engenhão, cada equipe ocupa uma área no meio campo e outra atrás do gol.

O Rio de Janeiro é usado como exemplo no quesito clássicos exatamente pela sua divisão igualitária. Minas Gerais passou por um longo período com torcida única, mas já voltou a aceitar visitantes. Usando o próprio Maracanã como exemplo, caminham para conseguir liberação meio a meio em jogos no Mineirão.

São Paulo também viveu seu período de torcida única, mas agora permitem 10% da carga de ingressos para os visitantes. O que ainda é absurdo, mas já conta com evolução. Enquanto isso, o Rio consegue dar dois passos para trás em uma tacada só, graças ao coronelismo de terceiros.

Nesse ritmo, cada vez mais o grito de Independência ganha força com a Copa Sul-Minas-Rio. E depois não sabem porque o Campeonato Carioca segue batendo recordes negativos de público e arrecadação.

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