Você reconhecendo ou não, o Palmeiras é eneacampeão
Foto: Cesar Greco/Palmeiras

O Campeonato Brasileiro da Série A de 2016 consagrou a Sociedade Esportiva Palmeiras como o maior campeão da elite do futebol brasileiro. A equipe comandada por Cuca foi líder em absolutamente todos os critérios: maior pontuação, melhor ataque, melhor defesa, melhor mandante, melhor visitante e dono da ponta da tabela em 29 das 38 rodadas do certame. A torcida palestrina se autoproclama, a partir de agora, eneacampeã brasileira. Apesar do feito ser contestado por diversos torcedores rivais, que contabilizam apenas os campeonatos de 1971 para cá - e, portanto, veem o Verdão apenas como pentacampeão brasileiro -, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reconhece a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, certames da era 1959-1970, como Campeonatos Brasileiros e, consequentemente, o Palmeiras como detentor de nove títulos da principal competição nacional.

Durante muitos anos, a CBF viu a Taça Brasil e o "Robertão" como competições nacionais à parte. A unificação dos pesos desses títulos aos do Brasileirão pós-1971 veio somente em 2010. Apesar de tardio, o reconhecimento é justo. E não se pode negar: chancelados pela antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), esses torneios reuniam as potências estaduais da época, davam vaga à Copa Libertadores da América e consagraram craques como Pelé, Pepe, Zito, Coutinho, Jairzinho, Djalma Santos, Mané Garrincha, Ademir da Guia, César Maluco, Palhinha, Tostão, Piazza, Dirceu Lopes, Afonsinho, Félix, Bita, Lala, Nado, Rivellino, entre tantos outros. Não lhes dar a merecida importância é virar as costas para a gloriosa história do futebol brasileiro.

O primeiro título brasileiro da Sociedade Esportiva Palmeiras veio em 1960, após impressionante goleada de 8 a 2 sobre o Fortaleza, o placar mais dilatado de uma decisão de campeonato de elite (Foto: Divulgação/Palmeiras)

Vale abrir o parêntese: a TB era uma competição mais curta, essencialmente de mata-mata. Em 1967, com a expansão do futebol nacional, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa - o nome, como se sugere, é uma homenagem ao ex-goleiro de Botafogo, São Paulo e Seleção Brasileira, ex-presidente do São Paulo e ex-cartola da Federação Paulista de Futebol - ganhou as rédeas das quatro linhas tupiniquins. Também chamado de Taça de Prata, o "Robertão" tinha um calendário mais extenso e serviu de base para o surgimento do Campeonato Nacional de Clubes, o já conhecido "Brasileirão", em 1971.

Em 2010, ano do reconhecimento por parte da CBF, o jornalista e historiador Odir Cunha reuniu manchetes de jornais brasileiros e estrangeiros da época que trataram os campeões da Taça Brasil e do Roberto Gomes Pedrosa como campeões brasileiros. "Quando a primeira Taça Brasil foi disputada, em 1959, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes. Quanto a última das quatro edições do Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi jogada, já com o nome de Taça de Prata, em 1970, o País abrigava 90 milhões de pessoas. Nesse ínterim, graças à massiva cobertura da imprensa, ninguém que acompanhasse o futebol teve qualquer dúvida de que o campeão destas duas competições era também o campeão brasileiro. Hoje, muitos dos brasileiros daquela de ouro do nosso futebol já morreram. Felizmente, porém, a história não vive só de testemunhas oculares. Milhares de documentos sobrevivem para comprovar a veracidade eterna dos fatos.", escreve em seu blog.

Veja algumas das manchetes expostas pelo pesquisador:

"Bahia, primeiro campeão do Brasil de todos os tempos, um título único e inédito de uma importância sem igual. Uma odisséia fantástica do Esporte Clube Bahia, quase desacreditado depois da derrota em Salvador, vitorioso e inconstante no Rio de Janeiro, no templo do futebol, o Maracanã, contra o maior time do mundo"

(Jornal O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960)

"Santos é pentacampeão do Brasil com gol de Pelé"

(A Gazeta Esportiva, título de página, edição de 9 de dezembro de 1965)

"Taça Brasil é do Cruzeiro. O Santos foi derrotado novamente pelo Cruzeiro na noite de ontem, no Pacaembu, e o título de campeão brasileiro e a Taça Brasil pertencem agora ao campeão mineiro"

(Folha de São Paulo, página de esportes, 8 de dezembro de 1966)

"Palmeiras com muito orgulho Campeão do Brasil. A Taça Brasil de clubes campeões do Estado, disputada desde 1959, elegeu a Sociedade Esportiva Palmeiras, pela segunda vez, o quadro campeão brasileiro de futebol, título conquistado ontem diante do Náutico"

(A Gazeta Esportiva, 30 de dezembro de 1967)

Revista francesa em 1960 aponta o Palmeiras como campeão brasileiro. (Foto: Divulgação via Odir Cunha)
Revista francesa em 1960 aponta o Palmeiras como campeão brasileiro. (Foto: Divulgação via Odir Cunha)

O que a História construiu o tempo não apaga.

Mas ainda é necessário colocar pingos nos is. Nos anos de 1967 e 1968, tanto a Taça Brasil quanto o Robertão foram realizados. Em 67, o Verdão conquistou os dois certames. Em 68, o Santos "copou" a Taça Brasil, enquanto o Botafogo levantou o troféu do Roberto Gomes Pedrosa. À primeira vista, esse panorama é estranho. No entanto, deve ser encarado com naturalidade por se tratar de uma época de transição. Conforme já foi relatado, o RGP conquistou de vez a organização do futebol nacional por se tratar de um campeonato com mais participantes e, portanto, com um calendário mais extenso. Os anos de 1969 e 1970 lhes foram exclusivos - os respectivos campeões foram Palmeiras e Fluminense.

Citando como exemplo, a Copa União de 1987 foi palco de imbróglios judiciais envolvendo Flamengo, Internacional, Sport Recife, Guarani, bem como seus módulos. Em decorrência disso, a decisão entre Sport e Bugre foi jogada somente em 1988. Contudo, a confusão no calendário não feriu a legitimidade da competição, tanto é que a CBF reconhece o Leão da Ilha do Retiro como campeão brasileiro de fato e de direito. Sport Recife e Guarani jogaram a Libertadores em 1988, da mesma forma que a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa definiam representantes do Brasil para o campeonato sul-americano.

1969, o verdadeiro ano do tetracampeonato brasileiro do time de Palestra Itália (Foto: Divulgação/Palmeiras)

Mas o que levou o Robertão a ruir em 1971? Quem responde é Roberto Assaf, autor do livro História completa do Brasileirão, em entrevista à Revista Trivela em 2009: "O Brasil vivia uma ditadura que descobria como o futebol podia ser usado para promover o ufanismo e a imagem de integração nacional. Era interessante para o governo da época vender a ideia de que estava sendo criado algo inédito".

E por que a primeira competição de integração nacional entre os clubes veio apenas em 1959, sabendo que em outros países os campeonatos de clubes já eram mais longevos? Segundo Assaf, entre 1922 e 1959, os torneios entre seleções estaduais eram os donos dos holofotes em nosso futebol. "O Brasil era mais provinciano e as seleções, ainda que tomassem como base o clube que os jogadores defendiam, eram quase dos estados de nascimento", explicou à Trivela.

Então, você reconhecendo ou não, o Palmeiras é eneacampeão. Não se pode contradizer a História. Parabéns, Porco, campeão brasileiro de 1960, 1967, 1967, 1969, 1972, 1973, 1993, 1994 e 2016. Parabéns ao maior campeão nacional, dono de 9 Campeonatos Brasileiros, 3 Copas do Brasil e 1 Copa dos Campeões. Parabéns, palestrinos.

O site oficial do Palmeiras reúne o retrospecto do escrete alviverde nas nove conquistas da elite do futebol brasileiro

Palmeiras foi eneacampeão brasileiro em 2016 (Foto: Cesar Greco/Palmeiras)
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