Com cara de Libertadores: paixões à primeira vista se tornam pilares do renascimento são-paulino

Como as atuações de Maicon e Calleri conquistaram o torcedor são-paulino e transformaram o outrora desacreditado Tricolor em agora candidato ao título do maior torneio das américas

Com cara de Libertadores: paixões à primeira vista se tornam pilares do renascimento são-paulino
Getty Images

Não são raros os casos de amor à primeira vista, ou então de uma sintonia tão rápida que parece inexplicável. E, como grande paixão de muitos, o futebol não poderia ficar de fora. São muitas as histórias de jogadores que tiveram passagens meteóricas por clubes, mas que deixaram tanto em campo, e deram tanta felicidade aos seus torcedores, que tornaram-se ídolos, deixando um enorme vazio no coração do clube.

Nesta quarta-feira, o São Paulo encara o Atlético Nacional-COL, pelo primeiro jogo das semifinais da Copa Libertadores da América, no Morumbi. E, em sua competição favorita, a grande paixão do clube, o torcedor são-paulino certamente gritará um pouco mais alto por dois nomes que chegaram há pouco tempo, mas que certamente já conquistaram seu lugar: o zagueiro Maicon e o atacante Calleri. A dupla, contratada no início do ano, mostrou claramente que o Tricolor paulista esteve atento a dois grandes negócios oportunos e, principalmente, que pensou especialmente na disputa do torneio continental. Não a toa, renovaram seus contratos para a disputa das semifinais.

Maicon e Calleri foram dois dos atletas contratados para a disputa da competição, e, desde o ano passado, a diretoria afirmou que queria um time com mais "cara de Libertadores". Assim, antes da dupla, o São Paulo foi atrás do técnico argentino Edgardo Bauza, campeão do torneio com LDU e San Lorenzo; do uruguaio Diego Lugano, ídolo da torcida e que levantou a taça pelo Tricolor em 2005; e do lateral chileno Eugenio Mena, experiente em torneios continentais. O zagueiro e o atacante foram dois negócios pontuais feitos pela diretoria, que assinou com ambos acordos de apenas um semestre, como já aconteceu várias vezes no próprio clube, normalmente com grande sucesso.

Somente nos últimos anos, o São Paulo fez diversos negócios curtos com atletas de nome, que, em sua maioria, deram bons frutos para a equipe. O primeiro deles foi Amoroso, contratado justamente para as semifinais da Libertadores, em 2005, para substituir o então titular Grafite, que havia contraído uma lesão. O atacante brilhou na reta final do torneio e foi peça fundamental também no título mundial daquele ano, conquistado contra o Liverpool. No ano seguinte, foi Ricardo Oliveira que ajudou o time a chegar na final da Libertadores e no segundo semestre deixou o Morumbi -- curiosamente, o hoje atacante do Santos passou pela mesma experiência em 2010, quando o Tricolor caiu na competição também para o Internacional, mas nas semifinais.

Em 2008, a principal contratação do então campeão brasileiro foi o atacante Adriano. Com problemas extra-campo na Europa e dificuldade para se colocar em forma, o Imperador chegou ao Morumbi para utilizar a estrutura são-paulina e se recuperar. E funcionou: apesar de não conquistar títulos e da traumática eliminação para o Fluminense na Libertadores, o atacante marcou 17 gols em 28 jogos, e voltou em alta para a Internazionale. Quem também deixou a Itália e brilhou por um curto período de tempo no Brasil foi uma grande cria da base são-paulina: em 2014, Kaká deixou o Milan e, ao assinar contrato como Orlando City, passou o segundo semestre no Tricolor. Peça fundamental no time vice-campeão brasileiro daquela temporada, o meia mostrou atuações em alto nível e deixou saudades.

Como estes, o São Paulo fez com Maicon e Calleri contratos curtos, visando a oportunidade de tê-los por pouco tempo em seu elenco por um bem maior: o tetracampeonato. E é exatamente a dupla, dois dos principais pilares do ressurgimento da equipe na temporada, que pode fazer a diferença na Copa Libertadores.

"God of zaga": a idolatria imediata de Maicon 

Com problemas na defesa, o Tricolor foi atrás de um zagueiro experiente. Assim, Maicon chegou por empréstimo junto ao Porto e tornou-se peça chave na equipe de Edgardo Bauza, com atuações seguras e gols importantes. Na competição continental, por exemplo, tem um índice espetacular de 92% de acerto nos desarmes, cinco bloqueios e cerca de 90 rebatidas, sendo fundamental no miolo de zaga do São Paulo. Inclusive, quando está em campo, o jogador parece dar mais tranquilidade aos seus companheiros na linha defensiva, como o jovem Rodrigo Caio, que parece muito mais produtivo quando atua ao lado do camisa 27 da equipe.

Maicon passou por verdadeiras batalhas na competição, como na partida diante do The Strongest (BOL), em La Paz, quando o jogador precisou substituir Dênis no gol, após este ser expulso e o Tricolor já ter feito as três substituições. O jogador voltaria a ter interferência direto no desempenho da equipe quando marcou o gol da classificação do São Paulo às semifinais, diante do Atlético Mineiro, quando o Tricolor saiu derrotado por 2 a 1, mas classificado devido ao tento marcado fora de casa pelo zagueiro.

Além dos fatores numéricos, o zagueiro de 27 anos também inspira liderança no elenco. Com entrevistas repletas de sinceridade e a impressão de ter o grupo ao seu lado, o jogador rapidamente conquistou o afeto de seus companheiros e comissão técnica, tornando-se também líder dos jogadores tricolores, posição esta que atualmente encontra-se em débito, desde a saída do ídolo Rogério Ceni. Com a lesão do capitão Hudson, Maicon assumiu a braçadeira, e parece predestinado a levar o clube de voltas às grandes conquistas.

Após tantas atuações que o levaram a uma idolatria quase imediata da torcida, a diretoria viu-se obrigada a contratar o jogador em definitivo. Com o término do contrato no dia 30 de junho, Maicon não poderia disputar as semifinais diante do Atlético Nacional, o que deixaria a equipe com uma lacuna sem precedentes. Assim, o clube fez todos os esforços possíveis para contratar o jogador junto ao Porto, que endureceu a negociação. Mas, o final não poderia deixar de ser feliz. No dia 28 de junho, dois dias antes de seu contrato terminar, o Tricolor acertou a compra junto ao clube português do jogador, pagando cerca de 6 milhões de euros mais 50% dos direitos federativos de Lucão e Inácio, jovens jogadores formados pelo clube, maior transação da história do futebol brasileiro envolvendo um zagueiro.

Maicon foi até goleiro na Libertadores e se tornou ídolo da torcida (Foto: Rubens Chiri / São Paulo FC)
Maicon foi até goleiro na Libertadores e se tornou ídolo da torcida (Foto: Rubens Chiri / São Paulo FC)

Toca nele que é gol: Calleri conquistou a torcida

No ataque, a outra peça chave que parece viver um sonho pela América é Jonathan Calleri. O argentino, de apenas 22 anos, chegou ao São Paulo também no início do ano, e teria contrato com o clube do Morumbi por apenas seis meses. O camisa 12 fora comprado por um grupo de empresários junto ao Boca Juniors, e ficaria no São Paulo apenas até junho, para que depois rumasse à Europa. Mas, com a passagem do Tricolor às semifinais da Libertadores, o jogador teve seu contrato automaticamente renovado até as finais da competição, no fim de julho.

Seu início na equipe foi arrebatador. Logo na primeira partida, ante o Universidad César Vallejo, válida pela 1ª fase da Copa Libertadores, Calleri deixou o banco para marcar o gol de empate que faria o Tricolor levar a vantagem para a classificação à fase de grupos para São Paulo. Após isso, foram muitos gols marcantes. Na partida diante do Trujillanos (VEN) no Morumbi, quando a equipe precisava da vitória para manter-se viva na competição, o jogador marcou quatro gols, na esplendorosa goleada por 6 a 0. Já na partida seguinte da competição, Calleri enfrentaria seu arquirrival desde os tempos de Boca Juniors, o River Plate. Aquilo parecia ser um motivador ao atacante, que marcou os dois gols na fundamental vitória por 2 a 1 sobre os atuais campeões da América. Em sequencia, a classificação são-paulina foi garantida pelo jogador, que, na Bolívia, marcou o gol de empate contra o The Strongest, colocando o time no mata-mata da competição.

Sua importância pode ser notada também em seus números na competição. Com oito gols, o jogador é o artilheiro da Libertadores, junto a Marco Ruben (Rosario Central-ARG) e Sosa (Tigres-MEX, mas que disputou o torneio pelo Pumas, do mesmo país). Calleri é também quem mais tem chutes certos (13) do torneio, mostrando seu excelente senso de finalização. Dessa forma, sua efetividade tornou-o fundamental à equipe treinada por Edgardo Bauza. O jogador também é amplamente exaltado por sua “garra” dentro de campo, que muitas vezes é transformada até mesmo em exaltação, como as 17 faltas cometidas (5° do elenco que mais comete infrações); os cinco cartões amarelos, sendo líder da equipe no quesito; e o cartão vermelho sofrido já após o termino da batalha diante do The Strongest.

A ideia do grupo de investidores que detém o passe de Calleri é levá-lo para a Europa assim que a competição internacional acabe. O atacante, no entanto, já falou diversas vezes que se sentiu conquistado pelo elenco e pela torcida, e que um eventual título da Libertadores pode gerar a prorrogação de seu contrato até o fim do ano. Certamente uma grande notícia aos são-paulinos, que, com Calleri e Maicon, vê o sonho do tetracampeonato ficar cada vez mais próximo.

Toca no artilheiro: Calleri lidera a ponta dos goleadores da América (Foto: Rubens Chiri / São Paulo FC)
Toca no artilheiro: Calleri lidera a ponta dos goleadores da América (Foto: Rubens Chiri / São Paulo FC)