Em meio a polêmica com Guerrero, entenda como funciona o passo a passo de exames antidoping

Atacante do Peru e do Flamengo teve resultado analítico adverso em antidoping; VAVEL Brasil buscou especialista no assunto

Em meio a polêmica com Guerrero, entenda como funciona o passo a passo de exames antidoping
(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Desde a última sexta (3), Paolo Guerrero tomou conta das notícias após um exame antidoping apresentar resultado analítico adverso. Apesar de ter sido suspenso preventivamente pela Fifa, ainda não se pode dizer que o peruano "testou positivo". Entretanto, fica a dúvida - como funciona um exame antidoping?

A VAVEL Brasil entrou em contato com Bruno Brandão, mestrando do Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD), para esclarecer o passo a passo dos testes antidoping.

A análise de controle de dopagem é dividida, basicamente, em cinco etapas. São essas seleção do atleta, notificação do atleta, coleta da amostra, análise das amostras e gestão de resultados.

Seleção do atleta: 

O atleta pode ser selecionado para fazer um exame de controle de dopagem tanto em competição quanto fora. No futebol, de maneira geral, o teste antidoping ocorre em competição. Dois atletas de cada time são sorteados para realizar o exame - mas esse número pode variar de federação para federação. Em 2017, a ABCD (Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem) passou a selecionar atletas para serem examinados fora de competição, algo inédito no Brasil. 

Notificação do atleta:

Após a primeira etapa, um agente oficial credenciado se apresenta ao atleta e o conduz a uma estação de controle de dopagem. Esse agente acompanha o atleta durante todo o exame.

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(Foto: Daniel Apuy/Getty Images)
(Foto: Daniel Apuy/Getty Images)

Coleta da amostra:

Na estação de controle, o agente enumera e explica todos os direitos/deveres do atleta, que assina uma notificação. Em seguida, é solicitado que o esportista forneça uma amostra (urina e/ou sangue; no futebol, é apenas urina). O jogador então recebe um pote, onde ele tem que urinar nu na frente do agente.

Na sequência, o atleta divide o conteúdo em dois frascos A e B, que são lacrados. A todo momento, é o atleta que faz a manipulação do conteúdo - a não ser que o mesmo peça ajuda.

Ao terminar o processo, o jogador recebe um formulário de controle de dopagem, que deve ser conferido e assinado pelo próprio. Nesse formulário, o atleta pode declarar quaisquer medicamentos/suplementos/substâncias que tenham sido usadas por ele nos últimos sete dias.

Análise das amostras:

As amostras recebem um determinado código e são, então, enviadas  para algum laboratório credenciado pela WADA (Agência Mundial Antidopagem) realizar as análises. A amostra A é analisada, enquanto a B é congelada em um local seguro.

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(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)
(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Primeiramente, a amostra vai para o setor de recepção do laboratório. Lá, o frasco recebe um código interno; na sequência, tem-se início os primeiros ensaios. O pH e a densidade de cada espécie são medidos.

Depois, a amostra é divida em pequenas "porções", em um processo denominado aliquotagem. Cada "porção" é então enviada para triagem. É impossível analisar todas as substâncias proibidas através de uma técnica só; a triagem corresponde a uma determinada metodologia de análise que consegue identificar um determinado grupo de substâncias

Após chegar nas triagens, ocorre o processo denominado preparação de amostras - que nada mais é do que uma "adaptação" realizada para que as substâncias proibidas sejam detectadas.

A urina contém uma infinidade de substâncias; por isso, é preciso fazer uma "limpeza", eliminando a maior quantidade de compostos que não são de interesse do laboratório. Após a finalização deste processo, as amostras serão analisadas em um determinado instrumento, obtendo-se os resultados.

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(Foto: Ernesto Benavides/AFP via Getty Images)
(Foto: Ernesto Benavides/AFP via Getty Images)

Gestão de resultados:

Os resultados obtidos são, na sequência, enviados para a organização antidopagem responsável por sua gestão. Além disso, uma cópia é enviada à WADA, para assegurar que haja total integridade no processo.

Se alguma substância proibida for detectada na observação, tem-se primeiramente uma suspeita. A amostra que apresentar essa suspeita é analisada novamente, utilizando-se uma técnica química semelhante - é o chamado processo de confirmação. Se o composto for novamente detectado na confirmação, configura-se um resultado analítico adverso (que é o atual panorama no caso de Guerrero).

O atleta e a confederação são notificados, podendo solicitar a inspeção da contraprova (frasco B). A partir daí, a segunda amostra será descongelada e analisada - sempre na frente de um representante ou mesmo do próprio esportista, a não ser que não haja interesse do jogador em acompanhar o processo.

Caso o segundo frasco apresente novamente a substância proibida, o indivíduo em questão será julgado. É a partir do julgamento que o jogador será considerado culpado (configurando um caso positivo para doping) ou não. Em muitos casos, o atleta é suspenso preventivamente antes mesmo de realizar a contraprova, como aconteceu com o camisa 9 do Flamengo.

(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)
(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Entenda quais são alguns tipos de substâncias usados no doping:

- Estimulantes (S6): uma das classes mais conhecidas, os estimulantes são famosos por diminuir a fadiga nos jogadores, além de aumentar o estado de alerta dos mesmos.

- Diuréticos: promovem rápida perda de peso e ainda podem ser usados para dificultar/mascarar a detecção de outros compostos proibidos.

Narcótico-analgésicos: são responsáveis por diminuir consideravelmente a sensação de dor dos atletas. Além disso, em alguns casos representam drogas sociais, como a heroína e a morfina.

- Betabloqueadores: não são considerados doping no futebol; são usados principalmente em esportes de precisão (como arco e flecha, golfe e esportes de tiro) para evitar tremores nas mãos. Os medicamentos abaixam a pulsação cardíaca/pressão arterial de seu usuário.

- Doping sanguíneo: é feito através da autotranfusão de sangue; atletas usam do método para elevar os níveis de oxigenação nos tecidos. É mais utilizado em esportes de endurance/resistência, como o triatlo. Com a prática, atletas melhoram seu condicionamento físico. Injeções de eritropoietina (EPO) também se encaixam na categoria, já que aumentam a produção de hemácias.

Hormônios de crescimento (hGH): diminuem o tempo de recuperação de lesões, além de promover ganho de massa muscular

- Anabolizantes (S1): elevam a força muscular do usuário. Esse tipo de substância tem ação semelhante à testosterona no organismo, promovendo maior síntese proteica, bem como aumentando a agressividade do atleta. Um dos exemplos mais famosos é o estanolozol.

Doping genético: prática ainda incomum, é considerada "o futuro do doping". Consiste no uso não-terapêutico de células/genes ou manipulação da expressão gênica, visando aumentar o desempenho esportivo do atleta.