Ahn Jung-hwan: o sul-coreano demitido na Itália após eliminar Azzurra da Copa de 2002

Atacante carrasco da seleção italiana marcou na prorrogação, e acabou mandado embora do Perugia após eliminar o país da competição

Ahn Jung-hwan: o sul-coreano demitido na Itália após eliminar Azzurra da Copa de 2002
Foto: Kyodo News/Getty images

A Copa do Mundo é o maior torneio entre seleções do planeta, e também um lugar de grandes histórias. Uma delas com certeza foi a protagonizada por Ahn Jung-hwan. O Atacante foi o autor do gol que eliminou a Itália das oitavas do mundial em 2002.

Um dos jogos mais discutidos daquela copa com toda certeza foi Coreia do Sul x Itália, principalmente pelos erros do árbitro Byron Moreno.

O juiz expulsou Francesco Totti no primeiro tempo após alegar que o meia simulou um pênalti, o que lhe rendeu o segundo amarelo e sua exclusão da partida.

Outro erro grave da arbitragem foi a anulação do gol do italiano Damiano Tommasi, na prorrogação. O volante estava em posição legal.

Os sul-coreanos que não tinham nada com aquilo, acabaram empatando o jogo aos 44 minutos do segundo tempo com Ki-hyeon Seol, e levando a decisão para a prorrogação.

Foto: The Asahi Shimbun/Getty Images
Foto: The Asahi Shimbun/Getty Images

Faltando apenas dois minutos para o fim, Ahn Jung-hwan subiu em bola cruzada na área e cabeceou para o fundo das redes, fazendo o gol de ouro e explodindo o Daejeon World Cup Stadium.

Um detalhe que poucos se lembram é que o herói sul-coreano por pouco não foi vilão. Aos 5 minutos de jogo,  após pênalti marcado, o atacante foi para a cobrança que acabou defendida por Buffon.

O enfurecido cartola italiano

O jogo por si só foi um grande capítulo daquele torneio. Mas o centro dessa história passa pelo ocorrido após o jogo. O atacante sul-coreano foi mandado embora do Perugia, da Itália, após eliminar o país da competição.

Para contar essa história é precisar conhecer um pouco mais Luciano Gaucci, o presidente do clube na época. Considerado polêmico, sonhador e surrealista, Gaucci era uma figura emblemática do futebol italiano naquela época.

Um exemplo de suas peraltices como mandatário do clube foi em 2003, quando fez a polêmica contratação de Al-Saadi Kadafi, filho do líder líbio coronel Muammar Kadafi.

Muito duvidaram da real intenção de sua contratação, afinal de constas, Luciano Gaucci adorava uma propaganda gratuita. 

A desconfiança em torno da contratação de Saadi pelo Perugia aumentou depois que o ex-técnico da seleção da Líbia, Franco Scoglio, desdenhou das qualidades de Kadafi como jogador de futebol.

''Quando dirigi a seleção líbia, chamei ele algumas vezes, mas prefiro nada dizer sobre suas qualidades como jogador'', afirmou o treinador em entrevista.

Entretanto, o presidente negou que a chegada de Kadafi ao clube foi apenas uma campanha publicitária.

''Não precisamos de publicidade. É apenas uma aposta nossa. Estou apostando minha reputação nessa história. O jogador está pronto e ansioso por jogar. Ele quer estar aqui. Se ele começa jogando ou na reserva é indiferente para ele, essa é uma das suas grandes qualidades.'', disse Gaucci.

A história do primeiro libanês a atuar no futebol europeu não foi das melhores no clube italiano. O atleta atuou em apenas uma única partida, e deixou o Perugia em 2003. O clube ainda acabou sendo rebaixado após Al-Saadi ter sido pego no exame antidoping.

"Esse senhor nunca mais colocará os pés em Perugia"

Essa foi a frase dita por Luciano Gaucci após o gol de Ahn Jung-hwan contra a seleção italiano. O presidente perdeu a linha após a eliminação do seu do seu país e abriu uma metralhadora de ofensas ao sul-coreano.

"Ele foi um fenômenos apenas quando jogou contra a Itália. Eu sou um nacionalista e considero esse comportamento não apenas uma afronta ao orgulho italiano, mas uma ofensa a um país que, dois anos atrás, abriu as portas a ele", disse o furioso cartola na época. 

Gaucci ainda prometeu não renovar com o atleta, e ainda disse para voltar para a Coreia após 'denegrir' o futebol italiano em campo.

“O que você espera que vou fazer? Que vou manter um jogador que arruinou o futebol italiano? Ele tinha de ter mostrado o talento dele enquanto estava conosco. Ele terá de voltar a Coreia para ganhar 100 mil liras (à época, cerca de 50 dólares) por mês. Não vou estender o contrato dele, pois ele não merece. Quando ele chegou, ele parecia uma cabra, pequena e perdida, que não tinha dinheiro para comprar um sanduíche. Ele ficou rico fazendo nada de excepcional e então, no Mundial, ele denegriu o futebol italiano”, esbravejou o mandatário.

Incidente diplomático e técnico do Perugia quase impediram saída de Ahn Jung-hwan 

O secretário-geral da Confederação de Futebol, Peter Velappan, se pronunciou após toda a confusão. O dirigente disse que esperava que União Européia pedisse uma investigação do caso, afinal de contas, o que fez o Perugia não combina com o espírito do futebol e poderia ser perigoso.

Depois o mesmo propôs um boicote dos asiáticos ao clube italiano, após toda ofensa dita por Gaucci.

"Propusemos aos dirigentes chineses, coreanos e japoneses que não façam transferências de jogadores para este clube, que só está interessado em ganhar dinheiro", disse o secretário-geral da AFC, Peter Velappan, citado pelo jornal Singapore's Today.

Outro que também não gostou nada daquilo foi Serse Cosmi, treinador do Perugia, que via uma grande potencial no sul-coreano de 26 anos e queria sua permanência no clube.

O passe de Ahn pertencia ao Bujon, da Coreia do Sul, mas ele jogava há dois anos no Perugia. Seu empréstimo venceria no próximo mês, e já estava tudo acertado para que o time italiano comprasse o jogador em definitivo.

Ahn Jung-hwan retorna à Ásia

Após tantas especulações sobre seu futuro, o atleta acabou acertando com o Shimizu S-Pulse, do Japão. O sul-coreano nunca mais foi tão falado. Após passagem por Yokohama F. Marinos, onde conquistou o campeonato nacional, o jogador voltou a atuar na europa.

Jogando por Metz e Duisburg, Ahn não conseguiu ter grande sucesso, tendo que retornar para a ásia novamente. Em 2011 se aposentou do futebol após defender o Dalian Shide, da China.

Foto: Hiroki Watanabe/Getty Images
Foto: Hiroki Watanabe/Getty Images

Ficha técnica

Nome: Ahn Jung-hwan
Nascimento: 27 de janeiro de 1976, em Paju, Coreia do Sul
Posição: atacante
Clubes: Busan (1998-2000 e 2008), Perugia (2000-02), Shimizu S-Pulse (2002-03), Yokohama F. Marinos (2004-05), Metz (2005-06), Duisburg (2006), Suwon Samsung Bluewings (2007) e Dalian Shide (2009-11)
Títulos: J1 League (2004) e Copa do Leste Asiático (2003)
Seleção sul-coreana: 71 jogos e 17 gols