SKA Khabarovsk, o novo "terror" dos clubes do oeste da Rússia

Viagens de dimensões continentais voltarão a fazer parte da primeira divisão russa

SKA Khabarovsk, o novo "terror" dos clubes do oeste da Rússia
SKA Khabarovsk conquistou acesso inédito à Premier League da Rússia após vencer o FC Orenburg fora de casa, nos pênaltis, pelo playoff de acesso e rebaixamento (Foto: Divulgação/SKA Khabarovsk)

Em março deste ano, a VAVEL Brasil brincou com a imaginação e simulou participações do FC Luch-Energiya Vladivostok, equipe da segunda divisão russa, nas competições europeias. Para se ter ideia, o clube da cidade de Vladivostok, localizada no extremo leste da Rússia, fica mais perto das Coreias do Norte e do Sul do que da capital federal Moscou.

Em suas três participações na elite do futebol local, de 2006 a 2008, o Luch-Energiya - que já fizera parte da elite uma vez, em 1993 - foi um verdadeiro pesadelo para os adversários do oeste, que tinham de viajar distâncias de proporções continentais para enfrentá-lo. No entanto, se colocarmos na balança, foi o próprio time de Vladivostok quem mais sofreu, pois viajou várias vezes à parte ocidental da Rússia, enquanto os times de lá rumavam ao oriente somente uma vez na temporada.

No mesmo texto, a VAVEL abordou a rivalidade do Luch-Energiya Vladivostok com o FC SKA Khabarovsk, neste que é o clássico da região leste da Federação Russa. O município de Khabarovsk fica a 800 quilômetros de Vladivostok. Em número de população, Khabarovsk é a segunda maior cidade do leste russo. Tem 577.441 habitantes e é superada somente pelos 592.034 habitantes de Vladivostok. Os dados são do Censo russo de 2010.

Na última temporada, uma vitória para cada lado nos clássicos: 1 a 0 para o Luch-Energiya em plena Khabarovsk e 2 a 0 para o SKA em plena Vladivostok.

SKA Khabarovsk venceu o Luch-Energiya Vladivostok por 2 a 0, fora de casa, no último clássico do leste russo (Foto: Divulgação/SKA Khabarovsk)

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Os destinos das equipes na edição 2016/2017 da Liga Nacional foram bem diferentes.

O escrete de Vladivostok chegou a amargar o rebaixamento. Ficou em 16º com 42 pontos, campanha esta que reuniu nove vitórias, 15 empates e 14 derrotas. Entretanto, o Luch-Energiya acabou permanecendo porque o FC Chita, então promovido da terceira divisão, não conseguiu a licença para jogar a próxima temporada da Segundona. Que sorte, hein?

O SKA, por sua vez, conseguiu se manter competitivo mesmo com tantas viagens longas e militou na parte de cima da tabela. Foi o quarto colocado com 15 vitórias, 14 empates e nove derrotas, totalizando 59 pontos. Ficou muito abaixo de Dynamo Moscou (87) e FC Tosno (75), promovidos diretamente à Premier League. Mas o time de Khabarovsk, treinado pelo ídolo Aleksei Poddubskiy - ele defendeu o clube em duas passagens, de 1988 a 1991 e de 1995 a 2007 e foi auxiliar-técnico do próprio SKA entre 2013 e 2016 -, pode dizer que comemorou tanto quanto eles. Ou até que comemorou mais. Afinal, conquistou o acesso inédito à primeira divisao através dos playoffs.

O Stadion Lenin, casa do SKA Khabarovsk, tem capacidade para 15.200 pessoas (Foto: Divulgação/SKA Khabarovsk)

Depois de deixar FC Tambov (57), Kuban Krasnodar (55), Shinnik Yaroslavl (54), FC Tyumen (53) e Fakel Voronezn (53) para trás e superar uma concorrência bastante acirrada, o SKA Khabarovsk teve pela frente o FC Orenburg, 13º colocado da primeira divisão. As cidades de Khabarovsk e Oremburgo estão separadas por longos 7.304 km, percurso um pouco maior que a distância entre La Paz, capital da Bolívia, e Los Angeles, cidade dos Estados Unidos.

No jogo de ida, no Stadion Lenin, em Khabarovsk, em 25 de maio, as equipes ficaram no 0 a 0. O empate sem gols se repetiu na segunda partida, no Stadion Gazovik, em Oremburgo, no dia 28.

Destaque para o goleiro dos visitantes, Aleksandr Dovbnya, que defendeu um pênalti dos donos da casa, cobrado pelo meia Blagoy Georgiev, aos 38 minutos do primeiro tempo. Nem na prorrogação a rede balançou. A decisão foi para os pênaltis. Mesmo em território inimigo, o SKA levou a melhor nas grandes penalidades, venceu por 5 a 3, conquistou o acesso e rebaixou o Orenburg. Brilhou novamente a estrela de Dovbnya, que defendeu a finalização do zagueiro Andrei Malykh. Estava consolidada a maior epopeia dos 71 anos de vida do clube, fundado em 1946.

O pênalti defendido por Dovbnya no tempo normal (Foto: Reprodução/Russian Football Premier League)

A época 2016/2017 reservou outro grande feito ao SKA Khabarovsk: a vitória sobre o Spartak Moscou, que no final da temporada se sagraria campeão da Premier League, na Copa da Rússia.

Na competição nacional, os estrelados viajaram 913 km (percurso um pouco maior que, por exemplo, a distância entre Recife, capital de Pernambuco, e São Raimundo Nonato, cidade do interior do Piauí) para vencer o Sakhalin Yuzhno-Sakhalinsk por 2 a 1, no quarto round - entraram diretamente nessa fase por estarem na segunda divisão. Depois, na quinta fase, eliminaram o Spartak em seus domínios, com vitória pelo placar mínimo. Nas oitavas de final, percorreram 7.568 km (quase a mesma distância entre Porto Alegre, capital do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, e a Cidade do México, capital do México) para visitar o Rubin Kazan na Kazan Arena, onde perderam por 1 a 0, na prorrogação.

Jogador do SKA Khabarovsk de 1988 a 1991 e de 1995 a 2007, Aleksei Poddubskiy foi auxiliar-técnico do clube entre 2013 e 2016, começou a treinar o time na temporada passada e já conquistou o acesso à primeira divisão (Foto: Divulgação/SKA Khabarovsk) 

De acordo com o portal Trivela, a menor distância que o SKA percorrerá na primeira divisão russa em 2017/2018 serão "apenas" os 6.630 km até Ecaterimburgo, para medir forças com o Ural - 2 mil km a mais que a distância a qual o Ceará viaja para jogar com o Brasil de Pelotas na Série B do Brasileirão, por exemplo. O destino mais distante é São Petersburgo. Para enfrentar o Zenit, o SKA Khabarovsk terá de voar 8.857 km. Seria como viajar de Santiago, capital do Chile, para Ottawa, capital do Canadá.

Quando tiver compromissos contra os gigantes Spartak Moscou e CSKA Moscou na capital russa, serão 8.396 km de viagem. Quase como partir de Montevidéu, capital do Uruguai, rumo a Nova Jersey, nos Estados Unidos.

Em 2007, após derrota por 4 a 0 em Vladivostok, o goleiro do CSKA e da seleção da Rússia, Igor Akinfeev, profundamente irritado, falou que o Luch-Energiya Vladivostok "deveria jogar o campeonato japonês". Certamente ele pensa o mesmo em relação ao SKA...

Viajar de Khabarovsk a Moscou é como viajar de Montevidéu a Nova Jersey (Foto: Reprodução/Google Maps)

Mas nenhuma quilometragem supera os 9.650 km percorridos até Kaliningrado para defrontar o Baltika Kaliningrado na segunda divisão. Seria como sair de Comodoro Rivadavia, no sul da Argentina, para a capital dos Estados Unidos, Washington D.C.

De qualquer forma, o Campeonato Russo nos reserva muitas histórias para os próximos meses, às vésperas da Copa do Mundo no país. Em uma época na qual o futebol russo está em evidência, vale a pena ficar de olho na jornada do "caçula" FC SKA Khabarovsk contra as equipes mais prestigiadas do futebol nacional.

Já pensou se o SKA permanece e o Luch-Energiya sobe? Os clubes da Rússia ocidental chiariam ainda mais... E a dupla, em meio a tantas reclamações do outro lado, encararia as trocentas viagens de dimensões continentais com louvor, como já o fazem.

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